A fratura pode ser definida como uma solução de continuidade do osso, produzida por um trauma único ou repetido.
Ela ocorre quando a energia aplicada sobre a estrutura óssea se sobrepõe a sua capacidade de resistência e de seus mecanismos de absorção de energia.
Os epônimos fazem parte da linguagem e da cultura histórica dos ortopedistas, porém mesmo não sendo um especialista, algumas dessas lesões estarão presentes em algum momento da sua vida como médico, seja numa prova de residência ou num plantão no departamento de emergência.
Fratura de Colles
Relatada em 1814 por Colles, é uma fratura extra-articular da extremidade distal do rádio com deslocamento dorsal do fragmento do rádio, promovendo uma deformidade clínica típica (deformidade em “garfo de jantar”).
Mais de 90% das fraturas de rádio distal são desse padrão. Está associada a uma queda sobre o punho hiperestendido e em desvio radial com o antebraço pronado.
Fonte: dicasradiologia.blogspot e olharfisio.blogspot
Fratura de Smith
É uma fratura extra-articular da extremidade distal do rádio, levando a um desvio volar do fragmento distal da fratura, promovendo uma deformidade em “pá de jardim”. Foi nomeada pelo cirurgião irlandês Robert William Smith em 1847. Pode ser classificada em três tipos e o mecanismo de lesão é uma queda sobre o punho flexionado com o antebraço fixo em supinação.
Fonte: radiopaedia e m.dutramaquinas
Fratura de Barton
Ganhou essa denominação em homenagem ao cirurgião americano John Rhea Barton. Em 1838, ele descreveu pela primeira vez uma fratura da extremidade distal do rádio que apresenta traço intra-articular com subluxação do carpo acompanhando o desvio do fragmento articular, que pode ser volar ou dorsal.
O mecanismo de lesão é por cisalhamento, geralmente proveniente de uma queda sobre o punho dorsifletido com o antebraço fixo em pronação.
Fonte: radiopaedia e ambonsall
Fratura do Hutchinson
Em 1866, o cirurgião britânico, Jonathan Hutchinson, descreveu uma fratura intra-articular com traço oblíquo, do processo estilóide do rádio, por avulsão com os ligamentos extrínsecos permanecendo presos ao fragmento estilóide, formando um fragmento triangular.
O mecanismo de lesão é a compressão do escafóide contra a estilóide com o punho em dorsiflexão e desvio ulnar.
Fonte: radiopaedia e amboss
Fratura de Monteggia
Originalmente descrita por Monteggia em 1814, apresenta uma incidência de 1% a 2% de todas as fraturas de antebraço.
Consiste na fratura diafisária da ulna, geralmente proximal, associado à fratura e luxação do rádio proximal.
A classificação mais utilizada para essas lesões é a de Bado, que é dividida em quatro tipos e se baseia na direção da luxação da cabeça do rádio e na angulação da fratura da ulna.
Fonte: docplayer e radiologiapatological
Fratura de Galeazzi
Em 1935, Galeazzi publicou 18 casos de fratura-luxação na região do antebraço que ganhou o seu nome. Sua incidência varia entre 3% a 8% das fraturas do antebraço.
É caracterizada por um fratura do rádio, geralmente, do terço médio para distal com luxação ou subluxação da articulação radioulnar distal.
O mecanismo de lesão está associado a aplicação de uma carga axial com antebraço hiperpronado.
Fonte: ricardokaempf
Fratura de Bennett
É uma fratura intra-articular, em duas partes, da base do polegar, onde ocorre um desvio radial da diáfise do primeiro metacarpo devido a ação dos músculos abdutor longo do polegar, extensor curto do polegar e adutor longo do polegar, mantendo um fragmento do metacarpo preso por intermédio do ligamento oblíquo anterior.
É resultante da abdução forçada do primeiro metacarpo e foi descrita em 1822 pelo cirurgião irlandês Edward Hallaran Bennett.
Fonte: surgeryreference
Fratura de Essex-Lopresti
A fratura recebeu o nome do cirurgião britânico Peter Essex-Lopresti, que em 1951 apresentou dois casos. É uma lesão muito grave devido ao comprometimento de quase todos os estabilizadores do antebraço, levando a uma “dissociação radioulnar longitudinal aguda”.
É caracterizada pela combinação de fratura da cabeça do rádio, lesões da membrana interóssea e lesões da articulação radioulnar distal.
Fonte: blog.acrosspg.com e researchgate.net
Fratura de Holstein-Lewis
É uma fratura em espiral do terço distal da diáfise do úmero. Muitas vezes, apresenta um risco de 22% de paralisia nervosa crônica, pois pode promover o aprisionamento do nervo radial à medida que ele atravessa o úmero distal.
Foi relatada pela primeira vez em 1963, pelos cirurgiões americanos Arthur Holstein e Gwilym Lewis e está tipicamente associada como consequência de trauma contuso.
Fonte: stringfixer e surgeryreference
Fratura de Hill-Sachs
Foi descrita pela primeira vez em 1940 por Hill e Sachs, está associada a aproximadamente 40% a 90% de todos os eventos de instabilidade anterior do ombro. Pode chegar a 100% naqueles que apresentam instabilidade recorrente.
É uma fratura que ocorre devido a compressão da região posterossuperolateral da cabeça do úmero contra a porção anteroinferior da cavidade glenóide, durante a luxação anterior do ombro quando o membro superior encontra-se em abdução e rotação lateral.
Fonte: radiopaedia.org
Pontos-chave
- 1- Fratura de Colles – Fratura com deformidade em “garfo de jantar”.
- 2- Fratura de Smith – Fratura com deformidade em “pá de jardim”.
- 3- Fratura de Barton – Fratura da extremidade distal do rádio com subluxação do carpo acompanhando o desvio do fragmento articular.
- 4- Fratura de Hutchinson – Fratura por avulsão com fragmento triangular.
- 5- Fratura de Monteggia – Fratura diafisária da ulna associado à fratura-luxação do rádio proximal.
- 6- Fratura de Galeazzi – Fratura do rádio com luxação da articulação radioulnar distal.
- 7- Fratura de Bennett – Fratura em duas partes, da base do polegar, com desvio radial da diáfise do primeiro metacarpo.
- 8- Fratura de Essex-Lopresti – Fratura da cabeça do rádio, com lesões da membrana interóssea e articulação radioulnar distal.
- 9- Fratura de Holstein-Lewis – Fratura do rádio com alto risco de lesão do nervo radial.
- 10- Fratura de Hill-Sachs – Fratura por compressão do úmero sobre a glenóide.
Autor: José Edmilton Felix da Silva Junior
Instagram: @edmiltonfelixjr
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
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