A vigorexia, também conhecida como dismorfia muscular ou anorexia nervosa reversa, é uma condição recentemente categorizada como uma variante do transtorno dismórfico corporal, sendo classificada entre os Transtornos Dismórficos Corporais (TDC).
Tal condição caracteriza-se por uma preocupação exagerada em não aparentar força ou volume muscular suficientes em todo o corpo. Portanto, indivíduos afetados pela vigorexia costumam perceber-se como “fracos e pequenos”, mesmo apresentando um nível de musculatura acima da média da população, evidenciando uma distorção na percepção da própria imagem corporal.
Apesar de a vigorexia não apresentar taxas de mortalidade elevadas, há diversas morbidades associadas ao transtorno. Essas podem variar desde impactos no estilo de vida, como dedicar tempo excessivo à academia e negligenciar atividades sociais, até consequências para a saúde física, como o uso de esteroides anabolizantes androgênicos.
Epidemiologia da vigorexia
Embora a vigorexia possa atingir qualquer indivíduo, ela é mais comum entre os homens do que entre as mulheres. Além disso, apesar da dificuldade em estimar números exatos, acredita-se que mais de 100 mil pessoas no mundo atendam aos critérios diagnósticos formais dessa condição na população geral.
Ademais, com o crescimento das pressões sociais para corpos mais musculosos, crianças cada vez mais jovens têm se tornado vulneráveis a transtornos relacionados à imagem corporal, como a vigorexia.
Manifestações clínicas da vigorexia
A obsessão por ganhar massa muscular pode levar os indivíduos à prática excessiva de musculação, adoção de dietas com alto teor de proteínas e carboidratos e baixo teor de gorduras, uso abusivo de suplementos proteicos, além do consumo de esteroides anabolizantes.
Outro aspecto importante é a relação com a prática de atividades físicas: pessoas com vigorexia tendem a evitar exercícios aeróbicos por receio de perder massa muscular. Além disso, muitas evitam mostrar o corpo em público por vergonha, recorrendo ao uso de várias camadas de roupa, mesmo em dias quentes, para esconder sua aparência.
Ademais, um indicativo frequente é o comportamento repetitivo de se observar no espelho. Enquanto alguns utilizam o espelho para avaliar aspectos estéticos e desempenho físico geral, outros o fazem por receio de estar “perdendo massa muscular”, o que caracteriza a vigorexia.
Abordagem clínica da vigorexia
Na abordagem clínica da vigorexia, algumas perguntas específicas podem ser utilizadas como orientação. Todavia, não há uma quantidade exata de perguntas nem um momento definido para aplicá-las, elas funcionam como uma ferramenta auxiliar para que o profissional de saúde entenda o quadro clínico da vigorexia. Portanto, cabe ao treinador esportivo analisar o contexto e escolher as perguntas mais adequadas para cada situação.
Quando o atleta apresenta sinais compatíveis com vigorexia, a abordagem deve seguir princípios semelhantes aos aplicados em casos de anorexia nervosa e bulimia nervosa. Dessa forma, o diálogo deve ser conduzido de maneira acolhedora e sem confronto, priorizando sempre a preocupação com o bem-estar do paciente. Além disso, é fundamental que essa conversa ocorra em um local reservado e fora do ambiente de treino, como um consultório particular, a fim de preservar a confidencialidade.
As perguntas devem ser feitas ao paciente, enquanto o entrevistador observa se as respostas relacionam-se com outros comportamentos observáveis, como padrões de exercício, alimentação e uso de suplementos. Assim como nas abordagens para anorexia nervosa e bulimia nervosa, o questionário funciona como uma ferramenta de confirmação, complementando a análise de outros sinais e sintomas do transtorno.
Ademais, no contexto esportivo, o reconhecimento da vigorexia nem sempre é simples, pois os sinais podem ser mascarados pelas exigências do esporte. Espera-se que os atletas mantenham um padrão físico elevado, o que pode favorecer o desenvolvimento do transtorno em indivíduos predispostos.
Questionamentos
Algumas perguntas que podem ser utilizadas durante a abordagem da vigorexia são:
- Com que frequência seus relacionamentos com os outros foram afetados por seus regimes de exercícios e dieta?
- Suas preocupações com sua aparência influenciam sua escola ou desempenho na carreira?
- Você frequentemente falta à escola ou ao trabalho ou evita atividades sociais por causa de suas preocupações com a aparência?
- Que medidas você toma para evitar mostrar seu corpo aos outros? Você perde as chances de participar de esportes porque terá que trocar de roupa na frente das pessoas? Você costuma usar roupas largas ou chapéus para esconder seu corpo ou rosto?
- Suas preocupações sobre sua aparência afetam sua vida sexual?
- Que parte de cada dia você passa se arrumando?
- Quanto tempo é gasto diariamente em exercícios com a intenção específica de melhorar sua aparência?
- Quanto do seu dia é ocupado se preocupando ativamente com sua aparência?
- Com que frequência sua aparência faz você se sentir perturbado, deprimido ou ansioso?
- Com que frequência você faz dieta, ingere certos alimentos ou toma suplementos com o objetivo explícito de melhorar sua aparência?
- Qual parte do seu salário ou outra renda é dedicada a itens e práticas para melhorar sua aparência física?
- Além das drogas, você já buscou outros métodos de melhorar sua aparência, como exercitar demais ou tentar seu regime normal de treinamento, apesar de uma lesão?
Manejo interdisciplinar da vigorexia
Para compreender as opções de tratamento para a vigorexia, é fundamental primeiro reconhecer as barreiras mais comuns ao cuidado. Por exemplo, muitas pessoas com vigorexia não buscam ajuda espontaneamente, o que faz com que os profissionais de saúde assumam um papel fundamental na identificação precoce e na intervenção — algo semelhante ao que ocorre com a anorexia nervosa (AN) e a bulimia nervosa (BN).
Além disso, um dos maiores desafios é fazer com que o indivíduo reconheça a necessidade de tratamento. Portanto, estratégias como conversar abertamente sobre a percepção corporal, promover discussões em grupo e contar com o apoio de treinadores e equipe multidisciplinar podem ser eficazes.
Diferente da anorexia, em que o risco à saúde pode levar a uma busca forçada por tratamento, os indivíduos com vigorexia geralmente aparentam estar saudáveis no curto prazo, o que dificulta a percepção dos danos psicológicos e sociais envolvidos, que por vezes passam despercebidos e não são tratados adequadamente.
Pessoas com manifestações mais leves do transtorno costumam buscar tratamento apenas diante de alguma lesão ou condição médica, o que dificulta o alcance e o manejo precoce desses casos. Nesse cenário, os treinadores esportivos desempenham papel fundamental, estando mais próximos dos atletas e podendo identificar mudanças sutis de comportamento e sinais precoces do transtorno. A prevenção, portanto, torna-se o principal objetivo.
Tratamentos disponíveis
Atualmente, não existem programas específicos direcionados ao tratamento da vigorexia. No entanto, algumas abordagens gerais têm mostrado bons resultados, especialmente o uso de antidepressivos como a fluoxetina isoladamente ou em associação com a terapia cognitivo-comportamental.
Questões sociais e culturais
Lidar adequadamente com a vigorexia exige também uma transformação cultural na forma como a sociedade enxerga a imagem corporal masculina. Existe uma norma social que desestimula homens — especialmente os mais jovens — a expressarem preocupações com a aparência, por medo de parecerem frágeis. Esse silêncio imposto culturalmente contribui para o agravamento do transtorno.
No processo terapêutico, é importante considerar que o indivíduo com vigorexia apresenta uma percepção distorcida da realidade. Mesmo após mudanças corporais significativas, a pessoa ainda se sente insatisfeita, acreditando que apenas mais um ciclo de anabolizantes ou mais um procedimento estético a fará se sentir bem consigo mesma. Esse ciclo se retroalimenta, reforçando a dependência emocional e psicológica.
Portanto, como primeiros passos no apoio ao paciente, é recomendável incentivar a expressão de sentimentos e combater o isolamento emocional. Além disso, conversar sobre os aspectos sociais do transtorno também pode contribuir para a conscientização e a adesão ao tratamento.
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A vigorexia, conhecida como o transtorno obsessivo pela busca do corpo perfeito, é uma condição psiquiátrica frequentemente negligenciada, mas com impactos profundos na saúde mental dos pacientes.
Esta dismorfia corporal pode afetar a qualidade de vida, levando a comportamentos destrutivos e obsessivos. Como psiquiatra, compreender as nuances dessa condição é essencial para oferecer um tratamento eficaz e humanizado.
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Sugestão de leitura recomendada
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- 7 mitos e fatos sobre a anorexia
- O que são transtornos alimentares? | Colunistas
Referências
- CAMARGO, T. P. P. et al. Vigorexia: revisão dos aspectos atuais deste distúrbio de imagem corporal. Rev. bras. psicol. esporte v.2 n.1 São Paulo jun. 2008.
- LEONE, J. E.; SEDORY, E. J.; GRAY, K. A. Reconhecimento e tratamento da dismorfia muscular e distúrbios relacionados à imagem corporal. Trem J Athl, 2005.