Introdução
Desde que os primeiros casos de COVID-19 começaram a ser descritos, ainda na província de Wuhan, na China, ao final de 2019, muitas questões foram levantadas acerca da doença inédita. Como era transmitida, quais os possíveis tratamentos, quais pessoas estariam em maior perigo. De imediato, perceberam-se algumas vulnerabilidades em determinados grupos, que foram mais atingidos. Idosos e pessoas com comorbidades compuseram, no primeiro momento da pandemia, o chamado “grupo de risco”. Este grupo foi vítima do maior número de casos graves e óbitos.
Desde então, diversos cientistas ao redor do mundo têm buscado entender melhor o que leva algumas pessoas a serem mais susceptíveis à ação do vírus do que outras. Além das comorbidades, adquiridas ao longo da vida, começaram a ser realizados estudos a fim de entender qual seria o papel da genética nesta predisposição.

Primeiras teorias
Ainda em 2020, surgiram teorias que tentavam associar a herança genética com a predisposição para infecção e casos graves de COVID-19. Dois pesquisadores suecos, Svante Pääbo e Hugo Zeberg, publicaram uma hipótese de que alguma herança genética pré-histórica, ligada aos neandertais, teria influência na susceptibilidade ao vírus. Eles basearam essa teoria na situação epidemiológica do vírus ao redor do mundo.
Na África, onde não havia uma quantidade grande de neandertais, houve poucos casos de COVID-19 grave, a princípio. No entanto, em locais onde a quantidade dessa população foi maior na pré-história, como no sul da Ásia, a frequência dessa variante grave chegou a 30%. Isso também ocorreu nas populações descendentes de emigrantes destes locais. Um estudo preliminar com 35.000 pacientes encontrou uma taxa de mortalidade por COVID-19 19% maior em pessoas originárias do sul do Ásia do que na população caucasiana.
Para sustentar sua tese, os pesquisadores suecos fizeram referência a um outro estudo, com pacientes espanhóis e italianos. Nesse estudo, foi detectada uma associação entre uma variante genética no cromossomo 3 e a incidência de COVID-19 grave. Pääbo e Zeberg sustentam que essa variante se assemelharia à resgatada dos restos de uma mulher neandertal, que viveu há 50.000 anos no atual território da Croácia.

No entanto, as conclusões às quais os suecos chegaram são polêmicas para a comunidade científica. No momento de sua teoria (julho de 2020), ainda não se conheciam exatamente quais variantes genéticas confeririam susceptibilidade maior ao vírus. Alguns cientistas defenderam que estes resultados preliminares não foram reprodutíveis em amostras populacionais maiores. Além disso, defendem que a interpretação destes dados genéticos tão antigos é bastante complexa para serem analisados de maneira tão simplista.
Além das alterações no cromossomo 3, de início foram encontradas também alterações relacionadas a grupos sanguíneos. Segundo os achados iniciais, pessoas de tipo sanguíneo O teriam uma probabilidade 18% menor de contrair o SARS-CoV-2. No entanto, ainda eram necessários mais testes para comprovar esses achados.
Achados recentes
No início de 2021, um estudo austríaco foi republicado pela revista Nature, e apontou que uma variação genética de um receptor celular poderia ter sido mecanismo de agravamento dos casos de COVID-19. O estudo relata que 4% da população mundial não possui um receptor de ativação de células do sistema imune conhecido como NKG2C + NK. Esse receptor ajudaria a combater o vírus quando este tentasse se conectar às células saudáveis do organismo. Além da população que carece desse receptor, até 30% da população mundial o teria apenas parcialmente ativado.
O estudo apontou, então, que ambas essas variantes estariam relacionadas à COVID-19 grave. No entanto, por ter sido realizado em uma população formada apenas por pessoas brancas, pode haver uma variação com relação aos outros fenótipos. Além de identificar pessoas com maior risco potencial de desenvolver quadros graves, o estudo pode auxiliar na produção de medicamentos que supram o déficit de imunização, tornando a população menos susceptível a casos graves.
Já no mês de julho de 2021, também na revista Nature, foi publicado um extenso trabalho, que reuniu cientistas de 19 países e analisou 46 estudos, em busca de sistematizar as alterações genéticas que influenciam o risco de adoecimento e morte por COVID-19. Nesse estudo, foram descobertas 13 regiões do genoma humano, em 8 cromossomos diferentes, que exercem um papel no risco individual da doença.

Estas predisposições genéticas poderiam explicar os casos de adoecimento em que o indivíduo não possuía nenhum outro fator de risco. Além disso, também potencializariam os danos nos pacientes que, além da genética, possuíssem outras comorbidades. Quatro, das 13 áreas genômicas identificadas, seriam responsáveis por promover uma maior susceptibilidade à infecção pelo vírus. Já as outras nove áreas estariam ligadas à maior gravidade da doença.
Conclusões
A descoberta das influências gênicas na COVID-19 é importante, pois possibilita um melhor conhecimento da doença, além de poder ser útil nos estudos futuros sobre prognóstico, diagnóstico, susceptibilidade à doença e até tratamento. No entanto, é essencial perceber que a genética é apenas um dos diversos fatores envolvidos na gênese da COVID-19. Além das comorbidades, a taxa de isolamento social, a proteção individual e os índices de vacinação, por exemplo, também influenciam nesse quesito.
Além disso, é importante frisar que existem algumas limitações às descobertas mais recentes. Apesar da participação de muitos países, houve pouca representatividade de populações de ascendência não-europeia, o que pode enviesar os dados. Já foram encontradas variações que estão presentes em populações asiáticas ou latinas que podem ter seu papel na relação com a COVID-19. Por isso, seria importante expandir esses estudos, de modo a abranger uma maior diversidade populacional.
Autora: Isabelle Stapf
Instagram: @isastapf
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
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Referências:
Vietzen, H., Zoufaly, A., Traugott, M. et al. Deletion of the NKG2C receptor encoding KLRC2 gene and HLA-E variants are risk factors for severe COVID-19. Genet Med 23, 963–967 (2021): https://doi.org/10.1038/s41436-020-01077-7
Dois cientistas vinculam maior gravidade da COVID-19 a DNA herdado dos neandertais: https://brasil.elpais.com/ciencia/2020-07-10/dois-cientistas-vinculam-maior-gravidade-da-covid-19-a-dna-herdado-dos-neandertais.html
Variação genética pode agravar COVID-19 em 30% das pessoas, aponta estudo: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2021/02/23/variacao-genetica-pode-agravar-covid-19-em-30-das-pessoas-aponta-estudo
Diferenças genéticas podem influenciar predisposição para COVID-19: https://super.abril.com.br/ciencia/diferencas-geneticas-podem-influenciar-predisposicao-para-covid-19/
Cientistas detalham pela 1ª vez fatores genéticos que aumentam risco da COVID-19: https://saude.ig.com.br/2021-07-08/cientistas-detalham-pela-1-vez-fatores-geneticos-que-aumentam-risco-da-covid-19.html
COVID-19 em 2021: 4 certezas e 7 dilemas para o segundo ano da pandemia: https://saude.abril.com.br/medicina/covid-19-em-2021-4-certezas-e-7-dilemas-para-o-segundo-ano-da-pandemia/
Neandertais, arte e linguagem: https://www.saberatualizado.com.br/2018/02/neandertais-tambem-faziam-arte-possuiam.html