Anúncio

Vacinação contra a influenza em idosos pelo Brasil | Colunistas

Índice

Mês do Consumidor Sanar Pós

Faça parte da Lista VIP e tenha benefícios no Mês do Consumidor

*Consulte condições

Dias
Horas
Min

Panorama da vacinação contra a influenza A, que tornou-se parte permanente do calendário nacional de vacinação sob sua forma trivalente.

A grande gripe

A história da humanidade sempre nos trouxe guerras sazonais contra agentes infecciosos, como a peste, a gripe espanhola, a gripe russa, a gripe asiática e mais recentemente a pandemia de COVID-19. Contudo, para esse texto, é necessário observar a pandemia ocorrida no ano de 2009, conhecida como gripe suína, causada pelo vírus da Influenza A (H1N1), que atingiu o mundo de forma rápida e repentina. 

O vírus emergente, decorrente de uma recombinação genética dos vírus influenza suíno, aviário e humano, alastrou-se rapidamente por todo o mundo fazendo com que fossem necessários esforços conjuntos de todos os centros de pesquisas e laboratórios do mundo para a produção de uma vacina para a prevenção do vírus.

Pandemia de gripe A

A pandemia, que recentemente completou 10 anos do seu ocorrido, foi decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em junho de 2009 após o surgimento de casos no México desde março daquele ano. Em abril do mesmo ano, a OMS decretara nível 4 de alerta pandêmico, o que já indicava que o vírus estava se propagando rapidamente de pessoa para pessoa; em seguida, foi decretado o nível 5 de alerta, apontando para uma contaminação internacional com casos de pessoas contaminadas levando o vírus para outros países; por fim, em junho de 2009 foi decretado o nível 6 de alerta pandêmico, que significava a pandemia em si.

O paciente zero foi uma criança de cinco anos, e o início da contaminação ocorreu em um pequeno vilarejo do México, numa criação de porcos de uma multinacional americana, vindo daí o nome coloquial de gripe suína.

Ela teve duração até meados de agosto de 2010, quando a OMS, na voz da sua então diretora-geral Margaret Chan, declarou, “O mundo não está mais na fase seis de alerta pandêmico. Passamos para a fase pós-pandêmica”.

O saldo pós-pandemia foi de 1.632.710 casos confirmados pela OMS, contudo com estimativas que indicam que aproximadamente entre 11 e 21% da população contraiu a doença, por um território de mais de 200 países, causando óbito, segundo números da organização, de 18.499 pessoas, mas com estimativas de até meio milhão de mortes segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC).

Imagem 1: Fases da pandemia.
Fonte: Organização Mundial da Saúde

Mapa de casos confirmados pelo mundo:

Imagem 2: Mapa de casos confirmados pelo mundo.
Fonte: HotWikiBR – Obra do próprio site, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6747576
Legenda da imagem 2

Pandemia de influenza no Brasil

Os primeiros casos de influenza surgiram inicialmente em maio, registrados nos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins; em pouco mais de um mês, o número subiu de 20 casos iniciais para algo próximo a 650, espalhados por todo o país, e a primeira morte foi confirmada no Rio Grande do Sul.

Como resposta ao avanço da doença, o governo implantou barreiras sanitárias em todas as entradas do país, conforme relatou Gerson Penna, que na época era o secretário da Vigilância em Saúde do Ministério e hoje é pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, “Pela barreira sanitária, foi possível saber do primeiro caso da gripe no Brasil, que ocorreu no Rio Grande do Sul. Era uma paciente que acabara de chegar no país e foi para uma cidade do interior do estado”. Ademais, ocorreu também o monitoramento diário dos casos nos estados e municípios de todo o território, algo próximo do que está sendo feito, de forma defasada, na atual pandemia de COVID-19.

No total, o país teve uma média de 59 867 casos de influenza confirmados, totalizando 2146 mortes, segundo a OMS.

Imagem 3: Mapa dos estados e Distrito Federal com casos confirmados.
Fonte: HotWikiBR – Obra do próprio site, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6955565
Legenda da imagem 3.

Como surgiu a vacina da influeza

Ainda em 2009, a empresa suíça Novartis anunciou a criação da vacina e iniciou-se a vacinação em massa, principalmente de grupos de risco, naquilo que a OMS definiu como fase pós-pandêmica.

No Brasil, no ano de 2010, a Estratégia Nacional de Vacinação contra o vírus H1N1 alcançou 88% de cobertura, ainda abaixo da porcentagem esperada e, a partir de 2011, a imunização contra a influenza A tornou-se parte permanente do calendário nacional de vacinação sob sua forma trivalente (junto ao subtipo H1N1 são adicionados outros dois subtipos virais). Dentre todos os grupos-alvo, os idosos eram os mais necessitados.

O papel do Sistema Único de Saúde (SUS)

O SUS é o principal responsável pela vacinação da população brasileira, por meio do PNI, o Programa Nacional de Imunização, que aborda desde os neonatos até a população idosa. O programa estipula metas sazonais de quantidade de pessoas a serem vacinadas por grupos de idade e de profissão, além de produzir as vacinas necessárias por meio de parcerias com instituições públicas e de fornecer a quantidade precisa de insumos para estados e municípios visando atingir as metas pré-estabelecidas de vacinação.

A divulgação de campanhas de vacinação pelos meios de comunicação, por exemplo, faz parte das estratégias do Ministério da Saúde para motivar a vacinação entre a população. A correlação estatística positiva entre a recepção de informações sobre a vacina A (H1N1) por meio da TV e a imunização, observada neste estudo, permite inferir que essa mídia tem papel significativo para indivíduos idosos.

Por fim, sobra a atuação dos profissionais de saúde como fontes de informação. Foi observada uma relação positiva entre a vacinação e o recebimento de informação por meio desses profissionais, de tal maneira que idosos informados sobre a vacina por algum profissional ficaram mais propensos a se deslocarem até os CSFs e se vacinarem, e, dentre esses profissionais, de longe os mais citados foram os Agentes Comunitários de Saúde e em seguida os enfermeiros.¹

Por que vacinar os idosos?

A partir da revisão de diversos artigos, chegou-se à conclusão da necessidade da vacinação sazonal contra o vírus Influenza, não apenas para prevenir problemas relacionados à gripe, mas também diversos outros problemas, como internações hospitalares, comprometimento pulmonar e demais incapacitações, principalmente na faixa etária acima dos 60 anos.

Em estudo feito nos Centros de Saúde da Família (CSF) em Fortaleza, observou-se que a porcentagem de idosos aderentes à vacinação contra a influenza A foi superior à porcentagem de não aderentes, e isso mostra boa aceitação da população, facilitando o trabalho das equipes de saúde e permite uma cobertura vacinal, resultando em uma maior imunização geral, consequentemente evitando a propagação do vírus.

Em relação à parte sociodemográfica, o que se percebeu com a pesquisa foi que o sexo feminino prevaleceu entre os vacinados, refletindo aquela máxima de que as mulheres se cuidam mais que os homens no Brasil, diferentemente de uma pesquisa espanhola, na qual os indivíduos do sexo masculino apresentaram maior possibilidade de se vacinar.

Em relação à escolaridade, o que foi visto foi uma maior prevalência de analfabetos entre os idosos vacinados; isso vai contra o senso comum que espera que, quanto maior o nível de informação, maior o nível de busca por cuidado e por prevenção. Por sua vez, no que tange à infecção viral, a escolaridade parece ter relação diferente, dado que maiores taxas de cura puderam ser observadas em idosos que possuíam nível mais elevado de ensino, o que pode ser explicado muito possivelmente pelo acesso à informação e por questões relacionadas à renda e à qualidade de vida.

No tocante à autopercepção de saúde, “a maioria dos idosos vacinados referiu saúde razoável ou boa, e essa característica mostrou não ter correlação com a vacinação”.¹ Em relação ao recebimento de informações sobre a vacina, tanto vacinados quanto aqueles não vacinados afirmaram ter recebido algum tipo de informação acerca da campanha de imunização, mostrando pontos positivos para o marketing do SUS, visto que, na maioria dos casos, conseguem atingir o público-alvo. Dentre as mídias usadas para divulgação, aquela que atingiu de forma mais integral seu objetivo foi a televisão, uma vez que foi a mais citada no estudo.

Logo, a vacina mostrou-se ainda mais vital, pois ela é capaz de evitar a sobrecarga de leitos hospitalares e a redução de custos com medicamento pelo SUS para tratamento de infecções secundárias, além de reduzir também os números de morbimortalidade devido a problemas relacionados a infecções causadas pelo vírus influenza. O estudo em questão apresenta uma significativa redução de hospitalizações por causas relacionadas ao vírus influenza na população idosa, além de mostrar também evidências de que as campanhas de vacinação têm relação diretamente proporcional com esses resultados. 

Ainda segundo a fonte referenciada, “entre as hipóteses destacadas, dadas as evidências apontadas neste estudo, a implantação da estratégia de imunização contra influenza em idosos representaria a única a justificar o comportamento diferencial na comparação dos CMH estudados entre os períodos de 1992 a 1998 e 1999 a 2006.”

Todos os demais fatores apresentaram melhoras contínuas no período, igualmente distribuídas em todos os meses dos anos. O mesmo ocorreu em estudos relacionados aos fatores associados à adesão à vacinação. Nessa pesquisa, a cobertura vacinal observada atingiu a porcentagem de 73,8, ficando na meta de 70% proposta pelo MS no período. No entanto, dos idosos não vacinados, a maioria não conseguiu informar o motivo da não adesão (68,2% do total dos não vacinados) e, entre os argumentos usados, o mais recorrente, com 8,3%, foi por falta de crença na vacina.

Tais resultados são análogos a estudos já feitos em outros países como Itália e Reino Unido. Outro motivo para a não adesão era a percepção negativa sobre a vacinação, baseada na crença que a vacina causaria gripe em quem se vacinou. Essa crença mostrou-se bastante prevalente entre os não vacinados e, além disso, Dip & Cabrera também estudaram esses motivos, apontando que 83,2% dos idosos não vacinados expressaram o desejo de não serem vacinados por motivos como o medo de eventos adversos e desconfiança quanto à eficácia da vacina.

No tocante à idade, foi bem observado que a cobertura vacinal tem sido significativamente menor no grupo etário de idosos jovens, sendo aqueles com idade entre 60 e 69 anos, e esses resultados inclusive são comprovados também em outros estudos. Esse fato pode estar relacionado com a questão psicossocial do “tornar-se idoso”, à medida que os idosos mais velhos, acima de 70 anos, já possuem essa assimilação concretizada de uma forma melhor. No que se refere à associação da vacinação com a presença de doenças crônicas, os resultados são conflitantes.

Por fim, esse estudo conseguiu verificar que o principal motivo de não vacinação está na desinformação, na crença de que a vacina não seria eficaz e/ou necessária e no pensamento que ela traria malefícios. Assim, pode-se concluir que se faz necessário mais enfoque nas novas campanhas de divulgação e campanhas publicitárias para desmentir, desmistificar e informar a população sobre todas as questões relacionadas com a vacinação da gripe para idosos.

Conclusão

Ao longo do texto, foram explicados vários motivos para a vacinação sazonal contra a influenza A em idosos, um dos principais grupos de risco. O SUS, a partir do PNI, garante a produção, distribuição, propagação das informações e aplicação dessas vacinas anualmente por volta do mês de abril.

Cabe, então, aos profissionais da saúde, em especial aqueles que trabalham na atenção primária, contactar a população, buscando uma conscientização e um afloramento de debates sobre essa temática, trazendo pontos importantes sobre a necessidade dessas vacinas, além de criar protocolos específicos para o recebimento e a aplicação das doses na respectiva Unidade Básica de Saúde ou Unidade de Saúde da Família.

É válido também usar de estratégias como palestras e grupos para promover uma vacinação em massa. Ademais, em tempos de pandemia, como a vivida atualmente, algumas iniciativas são extremamente bem-vindas, a exemplo do drive-thru de vacinação e vacinação domiciliar, para evitar os riscos de contaminação que aquele idoso pode sofrer no percurso casa-unidade/unidade-casa.

Imagem 4: Vacinômetro.
Por: SIPNI/DATASUS/MS

Finalmente, no ano de 2020 a campanha de vacinação contra a influenza atingiu 120% da meta pré-estabelecida, um número fantástico, e cabe, portanto, buscar a manutenção desses índices para o futuro, a fim de garantir uma melhor qualidade de vida para a população idosa do Brasil.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências:

  1. Victor Janaína Fonseca, Gomes Gabriele Dias, Sarmento Luana Rodrigues, Soares Arethusa Morais de Gouveia, Mota Fernanda Rochelly do Nascimento, Leite Bruna Michelle Belém et al. Fatores associados à vacinação contra Influenza A (H1N1) em idosos. Rev. esc. enferm. USP [Internet]. 2014 Feb [cited 2020 Oct 19] ; 48( 1 ): 57-64. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-62342014000100057&lng=en

https://doi.org/10.1590/S0080-623420140000100007.

  1. Daufenbach Luciane Zappelini, Duarte Elisabeth Carmen, Carmo Eduardo Hage, Campagna Aide de Souza, Santos Carlos Antonio de Souza Teles. Impacto da vacinação contra a influenza na morbidade hospitalar por causas relacionadas à influenza em idosos no Brasil. Epidemiol. Serv. Saúde [Internet]. 2014 Mar [cited 2020 Oct 19]; 23( 1 ): 9-20. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2237-96222014000100009&lng=en

https://doi.org/10.5123/S1679-49742014000100002.

  1. Moura Roudom Ferreira, Andrade Fabíola Bof de, Duarte Yeda Aparecida Oliveira, Lebrão Maria Lúcia, Antunes José Leopoldo Ferreira. Fatores associados à adesão à vacinação anti-influenza em idosos não institucionalizados, São Paulo, Brasil. Cad. Saúde Pública [Internet]. 2015 Oct [cited 2020 Oct 19]; 31( 10 ): 2157-2168. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2015001002157&lng=en.
  1. 10 anos do surto global de H1N1 – http://www.blog.saude.gov.br/index.php/53845-10-anos-do-surto-global-de-h1n1
  1. Vacinômetro – http://sipni-gestao.datasus.gov.br/si-pni-web/faces/relatorio/consolidado/vacinometroInfluenza.jsf

Compartilhe este artigo:

Uma pós que te dá mais confiança para atuar.

Conheça os cursos de pós-graduação em medicina da Sanar e desenvolva sua carreira com especialistas.

Anúncio

📚💻 Não perca o ritmo!

Preencha o formulário e libere o acesso ao banco de questões 🚀