Transtorno depressivo em crianças e adolescentes: como manejar esses pacientes na prática clínica?
A depressão é um transtorno mental caracterizado por sentimentos persistentes de tristeza, desesperança e falta de interesse nas atividades cotidianas. Em crianças e adolescentes, a depressão pode se manifestar de maneira diferente do que em adultos, sendo importante estar ciente dos sinais específicos associados a essas faixas etárias.
O transtorno depressivo está cada vez mais prevalente em crianças e adolescentes. Estatísticas indicam que aproximadamente 1,1% dos jovens com idades entre 10 e 14 anos e 2,8% daqueles entre 15 e 19 anos enfrentam a depressão.
Quais os sintomas do transtorno depressivo em crianças e adolescentes?
Ao lidar com crianças e adolescentes, é essencial reconhecer que os sintomas de depressão podem variar consideravelmente em comparação com a apresentação em adultos.
Além da tristeza persistente, o médico deve estar atento a indicadores citados pela família como:
- Irritabilidade
- Alterações no comportamento escolar
- Isolamento social
- Mudanças no sono e apetite
- Bem como manifestações físicas, como dores de cabeça e problemas gastrointestinais.
Como é feito o diagnóstico do transtorno depressivo em crianças e adolescentes?
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) orienta os médicos pediatras a investigarem questões relacionadas ao comportamento e à saúde emocional de crianças e adolescentes durante as consultas. É recomendado que esses profissionais abordem temas como estado de humor, sentimentos e observem possíveis rotinas inadequadas ou indicativos de estresse tóxico.
O diagnóstico da depressão em crianças e adolescentes requer a expertise de profissionais especializados, geralmente pautando-se pelos critérios estabelecidos na 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).
Nesse contexto, os médicos devem considerar a presença de cinco ou mais sintomas, persistindo por pelo menos duas semanas e representando alterações significativas na vida do adolescente.
Dentre esses sintomas, incluem-se humor deprimido e perda de interesse ou prazer. O humor deprimido é caracterizado por uma tristeza intensa e persistente, predominantemente diária, acompanhada de sensação de vazio e falta de esperança.
Adicionalmente, para o diagnóstico da depressão em adolescentes, são considerados outros sintomas intensos ou manifestados quase diariamente, como:
- Perda ou ganho de peso acentuado sem relação com dietas
- Insônia ou sonolência excessiva
- Agitação ou lentidão motora
- Fadiga e perda de energia
- Sentimento de inutilidade ou culpa excessiva ou inadequada
- Capacidade diminuída de pensar ou de concentração, além de indecisão
- Pensamentos de morte recorrentes
- Ideação suicida (pensar ou planejar a própria morte).
Quais as diferenças do diagnostico para adultos e crianças com depressão?
Em um estudo conduzido no Canadá, os pesquisadores enfatizam que, em comparação com adultos diagnosticados com depressão, crianças e adolescentes apresentam uma maior propensão a manifestar irritabilidade e instabilidade de humor, em contraposição ao tradicional quadro de humor deprimido.
Observa-se também uma maior incidência de dificuldades de sociabilidade nesse grupo mais jovem. Especialistas no campo defendem a avaliação de risco como um componente crítico no diagnóstico da depressão em crianças e adolescentes.
Esta avaliação abrangente inclui a revisão minuciosa da intenção e plano suicida, juntamente com a consideração de critérios como:
- Desesperança recente
- Percepção de sobrecarga
- Impulsividade
- Histórico de tentativas anteriores de suicídio
- Automutilação
- Análise de fatores de estresse.
Quais os fatores de risco para depressão em crianças e adolescentes?
A depressão em crianças e adolescentes pode ser influenciada por uma interação entre diversos fatores de risco. Embora cada caso seja único, alguns elementos comuns que podem aumentar a probabilidade do desenvolvimento da depressão nessa faixa etária incluem:
- Histórico familiar
- Experiências traumáticas
- Problemas de saúde crônicos
- Dificuldades acadêmicas ou sociais
- Pressões sociais e culturais: expectativas sociais e culturais, como padrões de beleza, desempenho acadêmico ou pressões para se encaixar em determinados grupos, podem influenciar negativamente o bem-estar emocional
- Fatores genéticos
- Problemas de identidade e orientação sexual.
Manejo de crianças e adolescentes diagnosticados com depressão
O tratamento da depressão em crianças e adolescentes requer uma abordagem individualizada. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) tem mostrado eficácia significativa, ajudando os jovens a desenvolverem habilidades de enfrentamento e promovendo mudanças positivas em padrões de pensamento disfuncionais.
Terapia cognitivo-comportamental
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma abordagem terapêutica amplamente utilizada no tratamento de uma variedade de problemas psicológicos, incluindo a depressão. Desenvolvida por Aaron Beck e posteriormente expandida por outros psicólogos, a TCC baseia-se na ideia de que os pensamentos, emoções e comportamentos estão interconectados, e as mudanças em um desses domínios podem influenciar os outros.
A TCC é estruturada e focada no presente, com ênfase na resolução de problemas e na modificação de padrões de pensamento disfuncionais.
Intervenção farmacológica
Em alguns casos, a incorporação de intervenções farmacológicas, como antidepressivos, pode ser considerada.
No entanto, a prescrição deve ser realizada com extrema cautela, com uma avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios, e monitoramento constante do paciente.
Envolvimento familiar
O papel da família no processo terapêutico é essencial. A criação de um ambiente de apoio emocional, juntamente com a compreensão e participação ativa dos pais ou responsáveis, contribui significativamente para o sucesso do tratamento.
Educar a família sobre a natureza da depressão, estratégias de apoio e a importância da adesão ao tratamento é crucial.
Prognóstico transtorno depressivo em crianças e adolescentes
O prognóstico do transtorno depressivo em crianças e adolescentes pode variar consideravelmente com base em diversos fatores, incluindo a gravidade dos sintomas, a prontidão do acesso ao tratamento e o suporte familiar e social disponível.
O diagnóstico e tratamento precoces desempenham um papel essencial no prognóstico. Crianças e adolescentes que recebem intervenção terapêutica e de suporte rapidamente têm maior probabilidade de apresentar melhora nos sintomas e de desenvolver estratégias eficazes de enfrentamento.
Além disso, a adesão contínua ao tratamento, que pode incluir terapia cognitivo-comportamental, aconselhamento, medicamentos, ou uma combinação dessas abordagens, é fundamental para um prognóstico positivo.
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Referência bibliográfica
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Transtorno depressivo. Disponível aqui. Acesso em 25 de Fevereiro de 2024.
- Korczak DJ, Westwell-Roper C, Sassi R. Diagnosis and management of depression in adolescents. CMAJ. 2023 May 29;195(21):E739-E746. doi: 10.1503/cmaj.220966. PMID: 37247881; PMCID: PMC10228578.