Introdução
Ao longo da pandemia da COVID-19, o tema “saúde mental” entrou em voga devido à alta prevalência de transtornos de ansiedade gerados pelas especificidades do período: isolamento social, lockdown, desemprego, adoecimento e incertezas diversas.
Uma das desordens de ansiedade mais prevalentes é o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), que se trata da existência de um nível patológico de preocupação e angústia com relação a atividades, compromissos, eventos e tarefas, por exemplo, de modo a prejudicar significativamente a funcionalidade do indivíduo e reduzir sua qualidade de vida por tempo prolongado. Aqui faremos uma revisão acerca dos aspectos epidemiológicos, fisiopatológicos, diagnósticos e terapêuticos dessa prevalente condição.
Epidemiologia
Há estudos que apontam uma prevalência geral de transtornos de ansiedade em cerca de 27%. Dentre eles, o TAG apresenta uma prevalência em 12 meses que varia de 0,4 a 3,6% entre países, e uma prevalência ao longo da vida na casa dos 9%.
Quando se analisa os fatores de risco, observa-se maior prevalência do Transtorno de Ansiedade Generalizada em determinados grupos, como mulheres, pessoas com mais idade, indivíduos com menor quantidade de anos de estudo, pessoas de baixa renda, fumantes, etilistas e aqueles que apresentam comorbidades crônicas.
Fisiopatologia
O TAG é resultado de um conjunto de alterações neurobiológicas complexas e ainda não completamente elucidadas. Há indícios da presença de volumes amigdalares maiores nos pacientes com a desordem quando comparados aos indivíduos normais, o que sugere uma resposta excitatória exacerbada mediada pelas amígdalas. Uma hiperativação cortical em regiões mediadoras do medo e da ansiedade também é observada.
Além do estado hiperexcitatório, também se observa diminuição das respostas inibitórias. Indivíduos com TAG apresentam menor quantidade de receptores GABA e menor densidade do RNA codificador desse receptor, o que diminui a neurotransmissão inibitória. Essa lacuna configura o alvo de ação dos agonistas gabaérgicos utilizados no tratamento da ansiedade.
Há, ainda, certo grau de desequilíbrio no sistema serotoninérgico, aparentemente relacionado ao fato de a serotonina ter efeito inibitório em seus receptores na matéria cinzenta periaquedutal (MCP). A MCP age como estimuladora da resposta de defesa à ameaça, de forma que a ausência da ação inibitória adequada da serotonina gera no indivíduo aumento da ansiedade. Esse desequilíbrio é justamente o alvo da ação de outra das principais classes de fármacos utilizados no tratamento do TAG, os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS).
Dentre as questões psicológicas relacionadas com a gênese e manutenção do TAG, destacam-se alguns mecanismos. Um deles é a adoção do hábito de se envolver com preocupações com situações e problemas distantes ou mesmo irreais como forma de fuga da necessidade de lidar e buscar soluções para problemas imediatos. Outro é a crença de que a preocupação exagerada evitou algum evento grave e danoso, o que realimenta o processo e reforça a necessidade do comportamento intensamente preocupado.
Diagnóstico
O diagnóstico do Transtorno de Ansiedade Generalizada é essencialmente clínico. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) define critérios diagnósticos que envolvem a presença de ansiedade e preocupação exacerbadas, com um curso temporal mínimo de 6 meses, acompanhada de sintomas físicos tais quais distúrbios do sono, inquietude, fadiga e tensão muscular, por exemplo. O quadro deve ser acompanhado de sofrimento significativo ao paciente, ou prejuízo em sua funcionalidade social, familiar, profissional, ou em quaisquer outras áreas importantes de sua vida.
O médico deve também excluir outros fatores como causas dos sintomas do paciente, como fármacos ou demais substâncias em uso ou comorbidades clínicas (como hipertireoidismo), sendo salutar a realização de um exame clínico abrangente e, eventualmente, análises laboratoriais direcionadas a suspeitas de possíveis causas.
Outro fator preconizado entre os critérios diagnósticos do DSM a ausência de outro transtorno mental que explique melhor o quadro do paciente, o que torna necessária a realização de diagnóstico diferencial minucioso com outras desordens psiquiátricas.
Tratamento
A intervenção de primeira linha para o tratamento do TAG consiste na utilização dos Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS), como Fluoxetina, Paroxetina, Citalopram e Escitalopram. A Venlafaxina, da classe dos Inibidores da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina (IRSN), também tem eficácia comprovada no tratamento do TAG e é um tratamento de primeira linha. Antidepressivos tricíclicos, como a Amitriptilina e a Nortriptilina, também podem ser utilizados, contudo têm eficácia comprovada em menos ensaios, e têm um maior perfil de efeitos adversos.
Os benzodiazepínicos, como o Diazepam e o Clonazepam, também são fármacos eficazes no tratamento do TAG, especialmente com relação aos sintomas físicos (inquietude, insônia, tensão muscular, etc). Os principais efeitos colaterais são a sedação e a lentificação do pensamento, e existe a preocupação com o desenvolvimento de dependência e tolerância. O médico deve ter atenção especial com pacientes com história de vício, bem como com os etilistas, já que o consumo de álcool concomitante com a terapia benzodiazepínica pode ser seriamente danosa.
A Buspirona é um ansiolítico que pode ser utilizado como alternativa aos benzodiazepínicos, apresentando eficácia semelhante e com a vantagem de não induzir tolerância e dependência. Sua principal desvantagem é o tempo mais prolongado de início da ação, o que pode prejudicar a adesão.
Outras medicações têm sido estudadas para o tratamento dos distúrbios de ansiedade, como o Canabidiol, que aparenta produzir efeito ansiolítico pela ação no complexo sistema endocanabinoide.
Além da terapia farmacológica, a psicoterapia desempenha um importante papel no tratamento do TAG, também tendo eficácia comprovada. A modalidade que mais se destaca é a Terapia Cognitiva Comportamental, porém há outras com eficácia similar, como a terapia comportamental isolada.
Conclusões
O Transtorno de Ansiedade Generalizada é uma condição prevalente, com critérios diagnósticos bem definidos e terapias farmacológicas e não farmacológicas frequentemente eficientes. A queixa do paciente com ansiedade deve ser valorizada, e diagnóstico preciso e tratamento adequado devem ser implementados tão logo quanto possível, com potencial elevado de melhoria da qualidade de vida do indivíduo e de sua funcionalidade.
Autor: João Vitor Borges Barbosa
Instagram: @joaovbbarbosa
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
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Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
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4. Costa CO da, Branco JC, Vieira IS, Souza LD de M, Silva RA da. Prevalência de ansiedade e fatores associados em adultos. J Bras Psiquiatr. 2019;68(2):92–100.