O Ministério da Saúde iniciou a distribuição de insulina glargina no SUS para crianças, adolescentes e idosos com diabetes mellitus tipo 1, representando mudança na insulinoterapia basal ofertada pelo sistema público. A glargina tem perfil farmacocinético mais previsível, menor variabilidade glicêmica e reduz significativamente o risco de hipoglicemia noturna comparada à NPH.
A NPH (insulina isófana) apresenta pico plasmático entre 4 e 8 horas, elevando o risco de hipoglicemia, especialmente no período noturno. A glargina (análogo basal de ação prolongada) possui perfil praticamente sem pico, com duração de 20 a 24 horas, proporcionando liberação constante de insulina. A decisão do Ministério da Saúde foi fundamentada em evidências de eficácia e segurança para os grupos etários contemplados.
Quais são as evidências científicas para essa mudança?
Ensaios clínicos randomizados mostram redução de 25 a 40% na taxa de hipoglicemia noturna com glargina em comparação com NPH em crianças e adolescentes com diabetes tipo 1. Em idosos com diabetes tipo 2 que necessitam insulina basal, a glargina demonstra menor taxa de episódios hipoglicêmicos sintomáticos e assintomáticos.
O estudo ORIGIN e análises post-hoc corroboram a superioridade em desfechos de segurança. Metanálises confirmam que a glargina melhora hemoglobina glicada (HbA1c) e reduz a incidência de hipoglicemia noturna em ambos os grupos etários. A inclusão no SUS segue recomendações de sociedades como a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a American Diabetes Association (ADA).
A NPH, embora eficaz e de baixo custo, tem limitações inerentes ao seu perfil. A necessidade de aplicar em horários fixos (geralmente 12/12 horas) e a variabilidade intra e interindividual de absorção dificultam o ajuste fino da dose. A glargina, com aplicação única diária e perfil plano, simplifica o esquema e melhora a previsibilidade da resposta glicêmica.
Quais são as diferenças farmacocinéticas entre NPH e glargina?
| Parâmetro | Insulina NPH | Insulina glargina |
|---|---|---|
| Início de ação | 1–2 horas | 1–2 horas |
| Pico de ação | 4–8 horas | Ausente (pico plano) |
| Duração | 12–18 horas | 20–24 horas |
| Frequência de aplicação | 2–3 vezes ao dia | 1 vez ao dia |
| Risco de hipoglicemia noturna | Moderado a alto | Baixo |
| Variabilidade farmacocinética | Alta | Baixa |
| Ajuste de dose | Necessita horário fixo e fracionamento | Mais flexível, dose única |
A ausência de pico da glargina é particularmente vantajosa em crianças e idosos, grupos nos quais a hipoglicemia noturna pode ser assintomática ou ter consequências graves como convulsões ou danos neurológicos.
Como fazer a transição segura: conversão de dose e titulação?
A substituição da NPH pela glargina deve respeitar as particularidades de cada faixa etária. A regra geral é converter a dose total basal de NPH para glargina na proporção de 1:1, com acompanhamento rigoroso nos primeiros dias.
Passos principais da transição
- Somar a dose total de NPH (se aplicada 2 vezes ao dia) e administrar como dose única de glargina, preferencialmente no mesmo horário da aplicação matinal.
- Manter a insulina prandial (ultrarrápida) inalterada na semana inicial.
- Monitorar glicemia capilar ao menos quatro vezes ao dia (jejum, pré-almoço, pré-jantar e ao deitar) nos primeiros dias.
- Realizar ajustes de 10 a 20% conforme a evolução dos valores e presença de hipoglicemia noturna.
A aplicação noturna de glargina também é possível, mas deve ser consistente e realizada no mesmo horário.
Transição em crianças e adolescentes
Crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 frequentemente apresentam maior variabilidade glicêmica devido a atividade física, crescimento e fatores emocionais. Recomenda-se reduzir a dose total em 10 a 20% nos pacientes que apresentavam hipoglicemia frequente com NPH.
- Oriente sobre o risco de hipoglicemia nas primeiras 24 horas, já que a ação prolongada pode se sobrepor ao efeito residual de NPH
- Mantenha esquema de insulina prandial inalterado inicialmente
- Ajuste posterior deve acompanhar o perfil glicêmico nas próximas semanas
- Consulta de acompanhamento presencial em 1–2 semanas
Transição em idosos e pacientes polimedicados
Em idosos, o risco de hipoglicemia é aumentado por comorbidades como doença renal crônica, desnutrição, declínio cognitivo e uso de múltiplos medicamentos. A transição para glargina deve usar dose cerca de 20% menor que a dose total de NPH, especialmente se o paciente já apresentava episódios de hipoglicemia ou HbA1c abaixo de 7%.
- Considere redução de 20–30% em idosos frágeis ou com HbA1c <7%
- Monitore glicemia capilar ao deitar e na madrugada (2h–3h) nos primeiros dias
- Avalie risco de quedas e declínio cognitivo associado a hipoglicemia
- Individualize metas de glicemia conforme estado funcional
- Consulta de acompanhamento em 7–10 dias
Como ajustar a dose após a transição inicial?
Após a transição inicial, reavalie o paciente em consulta presencial ou por teleatendimento em 1 a 2 semanas. Nesse momento, verifica-se a necessidade de reajuste da dose basal com base na média das glicemias de jejum dos últimos três dias.
A glargina permite titulação a cada 3–4 dias, ajustando:
- 1–2 unidades por vez em crianças e adolescentes
- 1 unidade por vez em idosos
Caso ocorra hipoglicemia confirmada (glicemia capilar <70 mg/dL) sem causa óbvia, a dose deve ser reduzida em 10–20%. A meta de jejum é de 100 a 130 mg/dL para a maioria dos pacientes, mas deve ser individualizada conforme idade, comorbidades e capacidade cognitiva.
Como identificar e tratar hipoglicemia noturna?
A principal vantagem da glargina é a redução da hipoglicemia noturna, mas ela não a elimina completamente. Pacientes que apresentam hipoglicemia noturna durante o uso de NPH podem manter o risco nas primeiras noites após a troca, especialmente se a dose estiver superestimada.
Monitoramento recomendado
- Realize glicemia capilar às 3h da manhã nos primeiros três dias de uso
- Se o valor for inferior a 100 mg/dL, reduza a dose da glargina em 1–2 unidades
- Mantenha monitoramento pelo menos três noites por semana na primeira semana
- Oriente paciente ou cuidador sobre sintomas noturnos de hipoglicemia: sudorese, pesadelos, irritabilidade ao acordar
Sinais de alerta em crianças e idosos
Em crianças, a hipoglicemia noturna pode causar convulsões ou afastar o menor de atividades normais. Em idosos, aumenta o risco de quedas, arritmias e eventos cerebrovasculares. Qualquer suspeita de hipoglicemia noturna (acordar cansado, suores noturnos, comportamento anormal ao acordar) justifica glicemia capilar imediata.
Pontos-chave
- A glargina reduz hipoglicemia noturna em 25 a 40% comparada à NPH, com perfil de ação plano e duração de 20 a 24 horas.
- A conversão de dose segue proporção 1:1, com redução de 10–20% em crianças com hipoglicemia frequente e 20–30% em idosos frágeis.
- Monitorar glicemia de jejum, pré-prandial e noturna é obrigatório nos primeiros dias após a troca.
- Ajustes de dose ocorrem a cada 3–4 dias com base na glicemia de jejum e presença de hipoglicemia.
- Crianças e adolescentes se beneficiam da dose única diária, que reduz omissões e simplifica o regime.
- Em idosos, doses conservadoras iniciais e monitoramento madrugada previnem hipoglicemia grave.
- Hipoglicemia noturna confirmada (<70 mg/dL) exige redução de 10–20% da dose.
- A transição requer acompanhamento multiprofissional com educação contínua do paciente e família.

Referências bibliográficas
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2023–2024. São Paulo: Clannad, 2023.
- AMERICAN DIABETES ASSOCIATION PROFESSIONAL PRACTICE COMMITTEE. Pharmacologic approaches to glycemic treatment: Standards of Care in Diabetes—2024. Diabetes Care, Arlington, v. 47, supl. 1, p. S158–S178, 2024. DOI: 10.2337/dc24-S009.
- BRASIL. Ministério da Saúde. SUS começa a oferta nacional de insulina glargina para crianças, adolescentes e idosos em todo o país. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 13 jul. 2026. Atualizado em: 16 jul. 2026. Acesso em: 20 jul. 2026.