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O que é terapia de reposição hormonal na menopausa e quando indicar?

Mulher em consulta médica sobre sintomas da menopausa e terapia de reposição hormonal.

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A terapia de reposição hormonal (TRH) é o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores moderados a graves na pós-menopausa e previne perda óssea. Sua prescrição exige avaliação individualizada de riscos e benefícios, com atenção às contraindicações absolutas e ao tipo de regime hormonal escolhido.

Quais são as indicações clínicas da TRH?

A indicação primária da TRH é o alívio de sintomas vasomotores (fogachos e sudorese noturna) que impactam a qualidade de vida. A intensidade dos sintomas, e não apenas a presença deles, determina a necessidade de tratamento farmacológico.

Outras indicações estabelecidas incluem:

  • Prevenção e tratamento da osteoporose em mulheres com risco elevado de fratura, especialmente quando outras opções não são toleradas ou indicadas.
  • Tratamento da síndrome geniturinária da menopausa (atrofia vaginal, dispareunia, sintomas urinários), preferencialmente com estrogênio tópico.
  • Uso em menopausa precoce ou insuficiência ovariana primária, onde a TRH é recomendada até a idade média da menopausa natural.

A janela de oportunidade é crítica: mulheres que iniciam a TRH antes dos 60 anos ou dentro de 10 anos do início da menopausa têm perfil de risco-benefício mais favorável. Após essa janela, o risco cardiovascular e de trombose aumenta significativamente.

Quais são as contraindicações absolutas e relativas da TRH?

As contraindicações absolutas da TRH sistêmica seguem critérios bem definidos por guidelines internacionais:

Contraindicação absolutaJustificativa
Câncer de mama atual ou prévioRisco documentado de recorrência e progressão tumoral
Câncer de endométrio (estrogênio isolado em útero presente)Risco de estimulação endometrial maligna
Sangramento genital não investigadoNecessidade de exclusão de neoplasia antes de iniciar terapia
Doença hepática aguda ou crônica graveMetabolização hepática comprometida
Tromboembolismo venoso agudo ou prévioRisco aumentado de recorrência, especialmente com estrogênio oral
Doença arterial coronariana estabelecidaRisco aumentado de eventos em mulheres acima de 60 anos
Gravidez e lactaçãoContraindicação absoluta

As contraindicações relativas incluem obesidade (IMC > 35 kg/m²), hipertensão não controlada, diabetes com complicações microvasculares e enxaqueca com aura. Nesses casos, a via transdérmica é preferível por evitar o metabolismo hepático de primeira passagem e reduzir o risco trombótico.

Como escolher entre estrogênio isolado e terapia combinada?

A escolha depende exclusivamente da presença ou ausência do útero.

  • Mulheres histerectomizadas: recebem estrogênio isolado, contínuo, sem necessidade de progesterona.
  • Mulheres com útero: recebem estrogênio combinado com progesterona para proteção endometrial. O regime pode ser:
    • Contínuo combinado (estrogênio + progesterona diariamente): indicado para mulheres na pós-menopausa com mais de um ano de amenorreia.
    • Sequencial cíclico (estrogênio diário + progesterona 12-14 dias/mês): indicado para mulheres na perimenopausa ou pós-menopausa recente com ciclos residuais.

A progesterona micronizada (200 mg/dia ou 100 mg à noite) tem perfil metabólico mais favorável que as progestinas sintéticas, com menor risco de tromboembolismo e de câncer de mama em estudos observacionais. A via vaginal de progesterona é aceitável para proteção endometrial, mas não há dados robustos de segurança cardiovascular.

Quais vias de administração estão disponíveis e como escolher?

ViaApresentaçõesVantagensDesvantagens
OralComprimidos de estrogênio equino conjugado, estradiol, estradiol + progestinaPraticidade, baixo custoMetabolismo hepático, aumento de triglicérides, risco trombótico maior
TransdérmicaAdesivos, gel, sprayEvita metabolismo hepático, menor risco trombótico, perfil lipídico neutroIrritação cutânea, adesão, custo maior
Tópica vaginalCreme, comprimido, anelEficaz para sintomas urogenitais sem efeitos sistêmicos significativosNão trata sintomas vasomotores ou osteoporose
SubcutâneaImplantesLiberação prolongada, conveniênciaProcedimento invasivo, necessidade de ajuste

A via transdérmica é preferida em mulheres com fatores de risco cardiovascular, obesidade, diabetes, hipertensão ou história de trombose. Para mulheres sem esses fatores, a via oral é adequada.

Qual é o risco real de câncer de mama, trombose e eventos cardiovasculares com a TRH?

O estudo Women’s Health Initiative (WHI) modificou a prática da TRH, mas suas conclusões foram amplamente mal interpretadas. A reanálise dos dados mostra que:

  • Câncer de mama: o risco atribuível é pequeno e depende do tipo de progesterona. O uso de estrogênio isolado em histerectomizadas não mostrou aumento de risco. Com estrogênio combinado a progestinas sintéticas, o risco absoluto é de aproximadamente 1 caso adicional por 1000 mulheres-ano de uso.
  • Tromboembolismo venoso: o risco é maior com estrogênio oral (razão de risco aproximadamente 2,0) e menor com via transdérmica. O risco basal é baixo em mulheres saudáveis abaixo dos 60 anos.
  • Acidente vascular cerebral: o risco aumenta com estrogênio oral em mulheres acima dos 60 anos, mas não em mulheres mais jovens.
  • Câncer de endométrio: o risco é eliminado com o uso adequado de progesterona.
  • Doença cardiovascular: mulheres que iniciam a TRH antes dos 60 anos têm redução de mortalidade cardiovascular. Após os 60 anos, o risco aumenta, particularmente com via oral.

Como monitorar a paciente em uso de TRH?

O monitoramento deve ser clínico, sem exames de rotina desnecessários.

  1. Avaliar resposta dos sintomas vasomotores em 4 a 8 semanas; ajustar dose se necessário.
  2. Investigar sangramento vaginal: em regime contínuo, espera-se amenorreia; sangramento persistente ou novo requer avaliação endometrial (ultrassom transvaginal ou histeroscopia).
  3. Realizar mamografia anualmente, conforme rotina para faixa etária.
  4. Aferir pressão arterial em consultas regulares.
  5. Não dosar rotineiramente estradiol sérico, FSH ou densitometria óssea de acompanhamento.
  6. Discutir riscos e benefícios anualmente, reavaliando a continuidade do tratamento.

Não há limite de tempo definido para TRH; a decisão deve ser individualizada com base na persistência de sintomas e no perfil de risco da paciente.

Quais são as alternativas para mulheres com contraindicação ou que não desejam TRH?

Alternativas não hormonais existem, embora menos eficazes para sintomas vasomotores:

Antidepressivos

  • Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS): paroxetina 7,5 a 12,5 mg, escitalopram 10 a 20 mg.
  • Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (ISRSN): venlafaxina 37,5 a 75 mg.

Anticonvulsivantes

  • Gabapentina 900 a 3600 mg/dia para fogachos.
  • Pregabalina 150 a 300 mg/dia.

Outros fármacos

  • Clonidina 0,1 a 0,3 mg/dia (menos usada por efeitos adversos cardiovasculares).

Abordagens não farmacológicas

  • Perda de peso em mulheres com sobrepeso.
  • Evitar gatilhos de fogachos (álcool, cafeína, ambiente quente, alimentos picantes).
  • Técnicas de relaxamento e terapia cognitivo-comportamental.
  • Fitoestrógenos (genistína, daidzeína): evidências inconsistentes; não recomendados como primeira linha.

Para prevenção de osteoporose em mulheres que não podem usar TRH, as opções incluem:

  • Bifosfonatos (alendronato 70 mg/semana, risedronato 5 mg/dia).
  • Denosumabe 60 mg a cada 6 meses (anticorpo monoclonal anti-RANKL).
  • Raloxifeno 60 mg/dia (modulador seletivo de receptores de estrogênio).
  • Avaliação de fatores de risco e medidas preventivas (cálcio, vitamina D, exercício físico).

Tomadas de decisão clínica: quando prescrever, como iniciar e quando parar

Iniciar TRH quando:

  • Sintomas vasomotores moderados a graves que impactam qualidade de vida.
  • Mulher na janela de oportunidade (< 60 anos ou < 10 anos do início da menopausa).
  • Ausência de contraindicações absolutas.
  • Consentimento informado da paciente após discussão de riscos e benefícios.

Dose inicial e titulação:

  • Iniciar com a menor dose eficaz e aumentar conforme resposta clínica.
  • Reavaliação em 4 a 8 semanas.
  • Ajustes podem ser necessários durante os primeiros 3 a 6 meses.

Quando descontinuar:

  • Resolução dos sintomas vasomotores (possível gradualmente reduzir e suspender).
  • Desenvolvimento de contraindicação (câncer de mama, trombose).
  • Efeitos adversos não toleráveis apesar de ajustes de dose ou via.
  • Decisão da paciente após reavaliação anual de riscos e benefícios.
  • Não existe idade máxima para interromper; deve ser decisão compartilhada.

Pontos-chave

  • A TRH é o tratamento mais eficaz para sintomas vasomotores moderados a graves, com benefícios que superam riscos em mulheres abaixo dos 60 anos e até 10 anos após início da menopausa.
  • Mulheres histerectomizadas recebem estrogênio isolado; mulheres com útero precisam de progesterona para proteção endometrial.
  • A via transdérmica reduz risco trombótico e é preferida em mulheres com fatores de risco cardiovascular, obesidade ou diabetes.
  • O risco absoluto de câncer de mama com TRH combinada é baixo (1 caso adicional por 1000 mulheres-ano) e não ocorre com estrogênio isolado.
  • O risco de tromboembolismo é maior com estrogênio oral (razão de risco ~2,0) e menor com via transdérmica em mulheres saudáveis abaixo dos 60 anos.
  • Monitoramento deve ser clínico, com reavaliação anual da relação risco-benefício; exames de rotina desnecessários devem ser evitados.
  • Contraindicações absolutas incluem câncer de mama, tromboembolismo venoso, doença hepática grave, sangramento não investigado e doença arterial coronariana estabelecida.
  • Alternativas não hormonais (ISRS, ISRSN, gabapentina) são opções para pacientes com contraindicação ou que não desejam TRH, com eficácia inferior para sintomas vasomotores.
  • Progesterona micronizada tem perfil metabólico mais favorável que progestinas sintéticas, com menor risco cardiovascular em estudos observacionais.

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Referências

  • North American Menopause Society. The 2022 Hormone Therapy Position Statement of The North American Menopause Society. Menopause, v. 29, n. 7, p. 767-794, 2022. <a href=”https://journals.lww.com/menopausejournal/abstract/2022/07000/the2022hormonetherapypositionstatementofthe.4.aspx” target=”blank” rel=”noopener noreferrer”>Acesso em: 15 jul. 2025
  • Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Consenso de Climatério. Série Orientações e Recomendações, v. 1, 2023. Acesso em: 15 jul. 2025
  • UpToDate. Menopausal hormone therapy: Benefits and risks. Waltham, MA: UpToDate, 2025. Acesso em: 15 jul. 2025

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