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Assim como a cascata de coagulação sanguínea, o complemento é um sistema enzimático capaz de ser ativado por estímulos específicos. Ele é composto por aproximadamente 20 proteínas plasmáticas ativadas em série por componentes da membrana celular estranhos e que não são encontradas nas células do hospedeiro. Toda a cadeia tem um objetivo principal: facilitar a fagocitose e a destruição de microorganismos invasores. Sua ativação pode gerar os seguintes resultados:

  • Opsonização do microrganismo: é o processo em que há ligação dos componentes do complemento na superfície da célula bacteriana
  • Quimiotaxia: consiste no recrutamento de células fagocitárias como neutrófilos e macrófagos
  • Ativação de mastócitos: os mastócitos locais ativados também podem ajudar a liberar moléculas que auxiliam no recrutamento das células do sistema imune para o foco de infecção por meio do aumento da permeabilidade capilar local
  • Destruição bacteriana direta: ocasionada pela deposição dos fatores do complemento na superfície bacteriana.

A ativação da cascata pode ocorrer por 3 vias diferentes:

  • Via alternativa: recebe esse nome porque foi descoberta após a via clássica. Resumidamente, é uma alça de amplificação para a formação de C3b. Em condições normais, o C3 é clivado constantemente e de forma lenta no plasma, liberando C3b, que pode se ligar à superfície celular, especialmente a de microorganismos. Caso haja células microbianas, C3b irá se depositar e ligar ao fator B. O fator B ligado será degradado por uma proteína plástica e irá liberar Ba e Bb, sendo que esse último permanece ligado a C3b formando a C3 convertase (C3bBb), que produz mais C3b para ligar à superfície microbiana e formar C5 convertase. C5 convertase cliva C5 gerando C5b. A C3 convertase pode atuar amplificando a ativação de qualquer uma das três vias.
  • Via clássica: foi a primeira a ser descoberta. Ela é desencadeada pela ligação da proteína C1 a alguns domínios presentes nas moléculas de IgG e IgM ligadas a antígenos. Dessa forma, apenas anticorpos ligados a antígenos são capazes de iniciar a ativação da via clássica. A proteína C1 é composta por três subunidades: C1q, C1r e C1s. A primeira se liga ao anticorpo e as duas últimas são proteases, com C1r clivando e ativando C1s. A C1s ativada ativa e cliva C4, gerando C4a e C4b. C4 é homólogo a C3, e C4b se liga à superfície celular e a C2a, que é fruto da clivagem de C2, formando o complexo C4b2a. Esse complexo é a C3 convertase da via clássica, que pode clivar C3 e liberar C3b ou formar o complexo que irá atuar como a C5 convertase da via clássica, clivando C5 e iniciando as etapas terminais de ativação do complemento.
  • Via das lectinas: as lectinas são proteínas capazes de se ligar a carboidratos. Essa via é desencadeada pela ligação de polissacarídeos microbianos a lectinas circulantes como a lectina ligante de manose ou MBL e as ficolinas. Ambas são capazes de se ligar a MASPs (serinas proteases associadas às MBL) como MASP-1, MASP-2 e MASP-3. Estas MASPs possuem estruturas homólogas a C1r e C1s e também atuam de forma semelhante, clivando C4 e C2 para ativar a via do complemento. A partir disso, os eventos seguintes são iguais aos da via clássica.

Como você deve ter percebido, o número das proteínas não segue a ordem das cascatas, mas sim a ordem com que elas foram descobertas. Além disso, todas as três vias convergem para um único caminho: formação de C5 convertase, que irá clivar C5 em C5a e C5b. C5b se liga a C6 e a C7 formando o complexo C5b-C6-C7, que penetra na membrana celular. A proteína C8 se liga à porção C5b desse complexo e forma poros instáveis na membrana. Após a ligação de C9 têm-se a formação do complexo de ataque à membrana (MAC, em inglês membrane attack complex), responsável por dar origem a canais transmembrana e induzir a lise celular. A seguir são apresentadas tabelas com as funções resumidas das principais proteínas das vias.

Tabela 1 – Proteínas da via alternativa

Componente nativo Fragmentos ativos Função
C3 C3b Liga-se à superfície do patógeno, liga B para clivagem por D, C3Bb é a C3 convertase e C3b2Bb é a C5 convertase
Fator B Ba Fragmento pequeno de função desconhecida
Bb É a enzima ativa da C3 convertase de C3bBb e da C5 convertase de C3B2Bb
Fator D D Cliva B quando está ligado ao C3b em Ba e Bb
Fonte: Adaptado de Murphy et al, 2014

Tabela 2 – Proteínas da via clássica de ativação do complemento

Componente nativo Forma ativa Função da forma ativa
      C1   C1q Liga-se indiretamente ao anticorpo ligado ao patógeno, permitindo a ativação de C1r
C1r Cliva C1s em uma proteases ativa
C1s Cliva C4 e C2
  C4   C4b Liga-se de forma covalente ao patógeno e o opsoniza. Liga-se a C2 para clivagem por C1s
C4a Peptídeo mediador de inflamação
    C2 C2a Enzima ativa da via clássica, cliva C3 e C5
C2b Precursor da quinina C2 vasoativas
        C3     C3b Várias moléculas de C3b se ligam à superfície do patógeno e atuam como opsoninas. Inicia a amplificação pela vis alternativa. Liga-se a C5 para clivagem por C2a.
C3a Peptídeo mediador da inflamação
Fonte: Adaptado de Murphy et al, 2014

Tabela 3 – Componentes terminais do complemento que formam o complexo de ataque à membrana

Proteína nativa Componente ativo Função
      C5   C5a Pequeno peptídeo mediador da inflamação com alta atividade
  C5b Inicia a formação do sistema de ataque à membrana
C6 C6 Liga-se a C5b forma o aceptor para C7
  C7   C7 Liga-se a C5b, o complexo se insere na camada bilipídica
C8 C8 Liga-se a C5b67, inicia a polimerização de C9
  C9   C9 Polimeriza com o C5b678 para formar um canal transmembrana, lidando a célula
Fonte: Adaptado de Murphy et al, 2014

Como esse sistema apresenta um alto potencial destrutivo é necessário que haja mecanismos de regulação para evitar possíveis resultados indesejados. Dessa forma, várias proteínas circulantes e de membrana celular atuam impedindo a ativação da cascata a partir de estímulos advindos de células próprias do hospedeiro e limitam a duração da atividade em células microbianas estranhas e complexos antígeno-anticorpo. Entretanto, mesmo com regulação e ativação adequadas esse sistema pode causar uma lesão tecidual importante. Em alguns casos a ativação da cascata está relacionada a trombose intravascular, causando lesões teciduais isquêmicas. Pacientes transplantados e os que possuem doenças autoimunes podem possuir anticorpos e imunocomplexos capazes de se ligar ao endotélio vascular, ativar o complemento, favorecer a inflamação local e formar o MAC, gerando danos à superfície endotelial e favorecendo a coagulação. Os exemplos mais comuns de patologias mediadas pelo sistema complemento são as doenças mediadas por imunocomplexos, como a vasculite sistêmica e a glomerulonefrite por imunocomplexos. Ambas resultam da deposição e do acúmulo de complexos antígeno-anticorpo nas paredes vasculares e no glomérulo, respectivamente. Essa deposição ativa o complemento e desencadeia respostas inflamatórias agudas que acabam destruindo as paredes dos vasos ou glomérulos, causando trombose, dano isquêmico tecidual e cicatrização (fibrose).

Autora: Emylle Guimarães Silva

Instagram: @studies.medufsj

Referências bibliográficas

MURPHY, Kenneth et al. Imunobiologia de Janeway. 8ed. Artmed Editora, 2014.

ABBAS, Abul K; Lichtman, Andrew H; Pillai, Shiv. Imunologia celular e molecular. 9ed Elsevier Brasil, 2019.

MALE, David et al. Fundamentos de imunologia. 12ed. Guanabara Koogan, 2013.



O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

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