Como você já deve saber, a Covid-19 é uma doença causada pelo vírus SARS-CoV-2, que surgiu em dezembro de 2019. A mesma pode ser leve, moderada ou grave, e já causou milhões de mortes em todo o mundo. Até maio de 2021, época em que esta matéria está sendo escrita, já houveram mais de 16 milhões de casos no Brasil, e cerca de quase meio milhão de pessoas já morreram em decorrência do coronavírus no país. Não obstante, a mesma vem causando problemas de saúde duradouros em muitos que sobreviveram à doença. Neste texto, iremos abordar justamente esse quadro de sequelas da covid-19 a partir das pesquisas mais recentes sobre o assunto.
De fato, uma consequência da covid-19 muito investigada atualmente é o fenômeno da síndrome pós-covid-19, também chamada de “covid-19 longo” ou “síndrome pós-covid-19 agudo”. Para entendermos tal condição, primeiro precisamos caracterizar a duração de ambos os quadros. De acordo com um relatório da OMS, os pacientes com COVID-19 leve se recuperam em duas semanas. Não obstante, conforme estudo publicado pela revista Nature, a síndrome pós-covid-19 caracteriza-se por sintomas persistentes e/ou complicações tardias ou de longo prazo que ocorrem mesmo após 4 semanas do início dos sintomas. Ademais, tal condição pode afetar variados órgãos, e apresentar uma extensa e variada gama de sintomas, como sintomas respiratórios, psiquiátricos, musculares e neurológicos.
Segundo um recente estudo da escola de medicina de Stanford, 70% dos pacientes com casos moderados ou graves de covid-19 apresentaram persistência de sintomas, mesmo meses depois do período do adoecimento. A maioria desses casos foram de pacientes que passaram por hospitalização durante a fase aguda do covid-19, e pacientes com fatores de risco pré-existentes, como hipertensão e obesidade. Não obstante, outros estudos apresentam o surgimento da síndrome pós-covid-19 mesmo em casos leves de covid-19. Os sintomas são mais frequentes em pacientes do sexo feminino infectadas com SARS-CoV-2 e estão associados a títulos mais baixos de IgG sérica, anosmia e diarreia no início da doença.
Um pouco de história
De forma análoga, outras infecções epidêmicas de anos anteriores, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave – SARS, e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio – MERS, causadas pela SARS-Cov e o MERS-Cov, ambos da família dos coronavírus, sabidamente também foram causadoras de síndromes pós-virais, com quadros semelhantes aos que são encontrados na síndrome pós covid-19.
Conhecendo a fisiopatologia
Sabe-se que os mecanismos fisiopatológicos predominantes da Covid-19 aguda incluem toxicidade viral direta, dano endotelial e lesão microvascular; hipercoagulabilidade resultando em trombose, macrotrombose in situ, e má adaptação da via da enzima conversora de angiotensina 2. Não obstante, certa pesquisa supõe que uma possível causa da síndrome pós-covid-19 possa ser uma resposta atípica de mastócitos disfuncionais, estes oriundos de uma possível ocorrência de Síndrome de Ativação de Mastócitos agindo, realizando uma resposta atípica ao SARS-CoV-2, em vez de uma resposta normal por mastócitos normais. Por outro lado, outras pesquisas relacionam o funcionamento da síndrome pós-covid-19 com outras condições de etiologia pouco conhecida, como a fibromialgia e a síndrome da fadiga crônica. De qualquer forma, os mecanismos fisiopatológicos da síndrome pós-covid-19 ainda não estão claros, e ainda muitos estudos são necessários para se entender mais sobre a condição.
Uma variedade de sintomas
Outro ponto bastante discutido nas pesquisas sobre a síndrome pós-covid-19 é a variedade de seus sintomas. De fato, sintomas muito diversificados foram relatados: perda do paladar e do olfato, perda de memória, dificuldade de concentração, tromboembolismo, depressão, problemas renais, ansiedade, dores no peito, febres, dispneia, queda de cabelo, fadiga, tosse, dor no peito, mialgia, artralgia, entre vários outros. Segundo pesquisa da universidade de Stanford, ao todo 84 sintomas e sinais clínicos diferentes foram relatados.
Uma pesquisa relaciona os sintomas da síndrome pós-covid-19 com outra doença de manifestação crônica, a encefalomielite miálgica, também conhecida como síndrome da fadiga crônica. Tal condição é caracterizada por pelo menos seis meses de fadiga e exaustão, mal-estar pós-esforço, sono não reparador, intolerância ortostática ou declínio cognitivo. De fato, em certa pesquisa realizada, vinte e cinco dos vinte e nove sintomas conhecidos de encefalomielite miálgica ou síndrome da fadiga crônica foram relatados em pelo menos um dos estudos sobre síndrome pós-covid-19 selecionados para revisão sistemática.
Não obstante, outra pesquisa relaciona os sintomas com a fibromialgia, e também considera a possibilidade de o coronavírus ser um emergente gatilho para a condição. Sabe-se que a fibromialgia é um distúrbio crônico de sensibilidade à dor, caracterizado por dor difusa, migratória, crescente e decrescente; cansaço; distúrbios de sono; sintomas de humor; e muitas outras queixas somáticas. Na pesquisa citada, três mulheres sem histórico anterior de fibromialgia ou de qualquer outra doença reumática foram encaminhadas para consulta de reumatologia devido à persistência prolongada dos sintomas após a recuperação do COVID-19, passando a apresentar quadros de fibromialgia.
No que tange a aspectos cardiorrespiratórios, em estudo de caso realizado no Brasil, relatou-se uma série de cinco casos de COVID-19 leve que, após aparente melhora clínica, desenvolveram embolia pulmonar aguda entre a terceira e a quarta semana após o início dos sintomas. De fato, a embolia pulmonar ocorreu na fase de convalescença do COVID-19, quando os sintomas relacionados à doença aguda já haviam desaparecido. Além destes, foram encontrados mais quatro casos de embolia pulmonar aguda tardia após a recuperação de COVID-19.
Ainda no que tange aos sintomas, outra pesquisa publicada no The Lancet fornece evidências de morbidade neurológica e psiquiátrica substancial nos 6 meses após a infecção por COVID-19. Nela, observa-se que os riscos são maiores para pacientes graves de covid-19, mas não se limitam a eles. Na pesquisa, entre 236.379 pacientes com diagnóstico de COVID-19, a incidência estimada de um diagnóstico neurológico ou psiquiátrico nos 6 meses seguintes foi de 33,62%, com 12,84% recebendo este como seu primeiro diagnóstico do tipo na vida. Para pacientes que foram admitidos em uma UTI, a incidência estimada de um diagnóstico neurológico ou psiquiátrico foi de 46,42%, e para um primeiro diagnóstico do tipo foi de 25,79%.
Dessa forma, podemos perceber que a síndrome pós-covid-19 é uma condição de grande impacto na vida dos pacientes. Estamos em um processo de conhecer mais sobre a síndrome pós-covid-19, e, conhecendo mais sobre a mesma, poderemos fornecer atendimento médico de maior qualidade e acuracidade.
Autor: Victória Beatriz
Instagram: @vicbeatriz98
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
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