A síndrome da cauda equina é uma condição neurológica rara, porém grave, caracterizada pela compressão das raízes nervosas localizadas no final da medula espinhal, conhecidas como cauda equina.
Essa síndrome representa uma emergência médica. Portanto, é fundamental o reconhecimento precoce dos sinais clínicos para evitar sequelas neurológicas permanentes, como incontinência urinária, disfunção sexual e paralisia dos membros inferiores.
Diante da gravidade e da necessidade de reconhecimento imediato, convidamos você a seguir com a leitura para entender em detalhes os sinais clínicos, os métodos diagnósticos e as estratégias de abordagem da síndrome da cauda equina.
Anatomia da cauda equina
A cauda equina é um conjunto de raízes nervosas que se originam da extremidade final da medula espinhal, que normalmente termina ao redor do nível vertebral L2. O termo abrange todas as raízes que emergem desse ponto, incluindo principalmente as raízes nervosas proximais das raízes lombares inferiores L3, L4, L5 e sacrais S1. Essas raízes nervosas descem pelo canal vertebral formando um feixe que lembra a “cauda de cavalo”.
A cauda equina contém axônios que fornecem inervação motora e sensorial para os membros inferiores, a região perineal, o ânus e a bexiga. As raízes lombares superiores são responsáveis pela inervação das pernas, enquanto as raízes sacrais controlam funções relacionadas ao períneo, esfíncteres e órgãos pélvicos.
Etiologia da síndrome da cauda equina
Na prática clínica, a compressão das raízes nervosas da cauda equina costuma ter como principal responsável a protrusão ou extrusão de um disco lombar, que é responsável por cerca de 45% dos casos. Entretanto, a síndrome da cauda equina pode ter origem em uma ampla variedade de causas que vão muito além da já conhecida hérnia de disco lombar.
Quadros infecciosos ou inflamatórios na região epidural e coleções hemorrágicas espinhais podem levar ao mesmo efeito de compressão neural. Algumas condições inflamatórias que podem comprometer essa região incluem: aracnoidite espinhal, polineuropatia desmielinizante inflamatória crônica e sarcoidose.
Diversos agentes infecciosos também são capazes de desencadear a síndrome, como os vírus citomegalovírus, herpes simplex, herpes zoster, Epstein-Barr, além de bactérias e microrganismos como o Mycoplasma e o Mycobacterium tuberculosis, este último causador da tuberculose. Essas infecções, ao atingirem as estruturas nervosas da região lombossacra, podem levar à inflamação e compressão das raízes nervosas, culminando no quadro clínico característico da síndrome.
Ademais, lesões expansivas, como tumores metastáticos ou neoplasias primárias do sistema nervoso, também figuram entre as causas, assim como traumas na coluna vertebral em que fragmentos ósseos projetam-se para dentro do canal vertebral.
Por fim, situações mais incomuns relatadas incluem manipulações quiropráticas, uso de dispositivos interespinhosos e até tromboses da veia cava inferior, que, ao alterarem o ambiente anatômico ou hemodinâmico, contribuem para o surgimento da compressão neural.
Epidemiologia da síndrome da cauda equina
A síndrome da cauda equina apresenta-se como uma condição neurológica rara, com prevalência anual estimada entre 1 em cada 30.000 a 100.000 indivíduos. Sua incidência também é baixa, situando-se entre 1,5 e 3,4 casos por milhão de pessoas a cada ano.
Aproximadamente 3% das hérnias de disco evoluem com esse tipo de complicação. Além disso, observa-se maior frequência da síndrome entre homens jovens, possivelmente por estarem mais expostos a traumas compressivos na região toracolombar.
Sinais e sintomas da síndrome da cauda equina
A síndrome da cauda equina apresenta um conjunto variado de sinais e sintomas que, embora isoladamente não sejam específicos, quando reunidos devem acender o alerta clínico.
Os pacientes frequentemente relatam dor lombar associada à ciática, presente em até 97% dos casos. Outros sintomas comuns incluem:
- Fraqueza.
- Alterações de sensibilidade nas pernas.
- Alterações no funcionamento da bexiga, como retenção urinária ou incontinência.
- Disfunção intestinal.
Além disso, a anestesia em sela (perda de sensibilidade na região perineal) ocorre em aproximadamente 93% dos casos e pode ser acompanhada por disfunção sexual, como impotência em homens.
Ademais, sinais de neurônio motor inferior, como arreflexia, hipotonia e atrofia muscular, também podem estar presentes, especialmente em casos de compressão prolongada. A perda de tônus retal, a ausência do reflexo bulbocavernoso e a presença de bexiga palpável (indicando retenção urinária) são indicativos importantes.
Por fim, vale lembrar que a retenção urinária indolor tem alto valor diagnóstico, mas geralmente representa uma fase tardia da doença, com danos muitas vezes irreversíveis.
Diagnóstico da síndrome da cauda equina
A investigação começa por uma anamnese minuciosa, incluindo questionamentos sobre quedas, traumas recentes, uso de anticoagulantes, histórico de procedimentos espinhais, injeções intravenosas, neoplasias, manipulações quiropráticas e sintomas sistêmicos como febre e calafrios.
A ressonância magnética (RM) da coluna lombossacra, com sequências T1 e T2 nos planos sagital e axial, é o exame de escolha. Embora não exista um tempo-padrão definido para a realização da RM após a chegada do paciente ao pronto-socorro, recomenda-se que ela ocorra idealmente dentro da primeira hora de atendimento, seguida de avaliação rápida por neurocirurgia ou ortopedia.

Nos casos em que a RM é contraindicada, como em pacientes com dispositivos metálicos incompatíveis, o mielograma por tomografia computadorizada (TC) surge como alternativa. No entanto, essa técnica apresenta limitações, pois envolve a injeção de contraste através de punção lombar para delinear a medula e suas estruturas.
Além dos exames de imagem, é importante também avaliar a função vesical do paciente. Para isso, a ultrassonografia vesical é útil na quantificação do volume urinário residual pós-miccional, ajudando a identificar a presença de retenção urinária, um achado frequente e clínico importante na síndrome.
Classificação da síndrome da cauda equina
Classifica-se a síndrome da cauda equina de diferentes formas com base na apresentação clínica.
Inicialmente, uma classificação simples pode ser dividida em três tipos: o
- Tipo 1, que caracteriza-se pelo aparecimento súbito dos sintomas sem antecedentes de dores nas costas;
- Tipo 2, que envolve sintomas agudos da bexiga ou da síndrome da cauda equina em pacientes com histórico prévio de dores lombares e ciática;
- Tipo 3, que ocorre em pacientes com problemas crônicos na coluna e um quadro de síndrome da cauda equina de progressão lenta, frequentemente associado à estenose espinhal.
Na prática clínica, o tipo 2 é o mais comum, o tipo 1 é raro, e o tipo 3 geralmente acomete pessoas mais velhas, com sintomas menos urgentes.
Além dessa divisão em três tipos, outra proposta mais detalhada classifica a síndrome em quatro estágios:
- Pré-clínico, com dor lombar e alterações apenas nos reflexos bulbocavernoso e isquiocavernoso, mas sem sintomas típicos da síndrome da cauda equina;
- Inicial, com alterações sensoriais na região da sela e ciática bilateral;
- Intermediário, com comprometimento sensorial, disfunção intestinal e urinária, fraqueza motora e redução da função sexual;
- Tardio, que caracteriza-se pela perda total da sensibilidade da sela, disfunção sexual e intestinal grave.
Abordagem da síndrome da cauda equina
Nos casos de síndrome da cauda equina, é essencial encaminhar o paciente imediatamente para avaliação neurocirúrgica ou ortopédica.
O tratamento principal consiste na descompressão cirúrgica da medula e das raízes nervosas afetadas, geralmente realizada por meio de laminectomia, que pode ser acompanhada ou não de discectomia ou sequestrectomia, dependendo da causa da compressão.
Diversos estudos indicam que a realização precoce da descompressão cirúrgica em casos de síndrome da cauda equina está ligada a melhores resultados clínicos, especialmente quando a cirurgia ocorre nas primeiras 48 horas após o início dos sintomas. Portanto, quanto maior o tempo de compressão nervosa, maior o risco de danos estruturais e funcionais permanentes, prejudicando o prognóstico.
Além disso, pacientes que já apresentam disfunção vesical antes da cirurgia tendem a ter um desfecho menos favorável, independentemente do tempo até a descompressão. Mesmo assim, a intervenção cirúrgica rápida continua sendo recomendada para melhorar as chances de recuperação, independentemente do quadro inicial do paciente.
Complicações da síndrome da cauda equina
As complicações da síndrome da cauda equina são comuns e frequentemente persistem mesmo após o tratamento cirúrgico.
Problemas relacionados à micção, como retenção urinária que exige autocateterismo ou uso de cateteres permanentes, além de incontinência, são as principais complicações associadas à síndrome. Embora a função intestinal apresente melhora após a cirurgia, muitos pacientes ainda persistem com dificuldades na evacuação.
Por fim, a disfunção sexual, a anestesia na região da sela e a persistência da dor ciática são outras complicações que podem ocorrer em pacientes com síndrome da cauda equina.
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A síndrome da cauda equina é uma emergência neurológica que exige conhecimento rápido e preciso para evitar sequelas graves.
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Referências
- EISEN, A. Anatomy and localization of spinal cord disorders. UpToDate, 2025.
- HSU, P. S.; ARMON, C.; LEVIN, K. Acute lumbosacral radiculopathy: Etiology, clinical features, and diagnosis. UpToDate, 2025.
- LAVY, C. et al. Cauda equina syndrome—a practical guide to definition and classification. Int Orthop. 2021
- RIDER, L. S.; MARRA, E. M. Cauda Equina and Conus Medullaris Syndromes. National Library of Medicine, 2023. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK537200/. Acesso em: 08 jun 2025.