A Síndrome consumptiva se caracteriza por um conjunto de sinais e sintomas que incluem a perda de peso progressiva não intencional, superior a 5% do peso corporal habitual em um período de 6 a 12 meses.
Em contra partida, a perda de peso intencional, se refere ao resultado de ações conscientes, como dieta e exercício físico, tendo em vista esse objetivo. Assim, pode ocorrer também nos transtornos alimentares, como anorexia nervosa e bulimia.
Já a caquexia, se caracteriza pela perda de peso causada pela perda de massa muscular, podendo ocorrer com ou sem perda de gordura. Diferentemente da sarcopenia, definida como uma síndrome geriátrica associada a perda de massa muscular, forma e desempenho.
O peso corporal se define com base em três fatores:
- Ingestão de calorias
- Gasto energético
- Taxa metabólica
Com isso, qualquer desequilíbrio desses fatores, gera perda ou ganho de peso. Avalia-se que 20 a 25% dos adultos acima de 65 anos terão queixa de perda de peso não intencional durante 5 a 10 anos. Contudo, esta porcentagem sobe para 50% em idosos residentes de asilos, onde a perda de peso é multifatorial e está associada ao declínio funcional da idade.
Além disso, a síndrome consumptiva está associada ao aumento da mortalidade na população geral, risco aumentado de fraturas e prognósticos ruins relacionados à saúde.
Causas de síndrome consumptiva
A síndrome consumptiva compõe o quadro clínico de diversas patologias e muitas vezes é o primeiro sinal percebido pelo paciente e seus familiares. Assim, as possíveis etiologias associadas à perda de peso não intencional incluem neoplasias malignas, doenças psiquiátricas, endócrinas ou infecciosas.
Neoplasias malignas
Especialmente em pacientes com cânceres pancreáticos, gastrointestinais ou de pulmão, cursam com perda de peso não intencional considerado sinal de malignidade.
Assim, a interação de fatores inflamatórios, metabólicos e hormonais, configuram a inflamação sistêmica mediada por citocinas pró-inflamatórias como TNF-alfa, IL-1 e IL-6. Com isso, a degradação proteica muscular e aumento da lipólise, levando à perda de massa muscular e gordura corporal é inevitável.
Doenças gastrointestinais não malignas
Pacientes com doenças gastrointestinais não malignas como úlcera péptica, doenças de má absorção como a doença celíaca e doenças inflamatórias intestinais, cursam com desenvolvimento da síndrome consumptiva.
Doença de Crohn
Conhecida como uma das principais doenças inflamatórias intestinais crônicas, a Doença de Crohn afeta qualquer parte do trato gastrointestinal e causa inflamação transmural.
Com isso, a inflamação crônica leva ao mecanismo de produção excessiva de citocinas pró-inflamatórias e a degradação de proteínas e lipídios, resultando em perda de massa muscular e gordura corporal.
Além disso, lesões intestinais e estenoses comprometem a absorção de nutrientes, exacerbando a desnutrição. Os sintomas como dor abdominal e diarreia reduzem a ingestão alimentar, contribuindo para a síndrome consumptiva.
Colite Ulcerativa
Já a colite ulcerativa é uma doença inflamatória intestinal que afeta principalmente o cólon e o reto, causando inflamação e ulcerações na mucosa intestinal. Bem como na Doença de Crohn, inflamação limitada à mucosa resulta degradação muscular e perda de gordura através da produção de citocinas pró-inflamatórias.
Ainda, a anemia pode estar presente nesses pacientes, devido ao sangramento e perda de sangue causados pela inflamação. Além disso, a dor abdominal e a diarreia frequente, comprometem a ingesta adequada de alimentos.
Doença Celíaca
A doença celíaca se caracteriza por uma reação imunológica desencadeada pela ingestão de glúten, que afeta diretamente as vilosidades do intestino delgado, causando inflamação.
Assim, o mecanismo de lesão e atrofia das vilosidades, resulta na redução da absorção de nutrientes essenciais, configurando em perda de peso e desnutrição. Além da má absorção de ferro e vitaminas que contribui para a anemia.
Distúrbios Endócrinos
Hipertireoidismo
O aumento do metabolismo basal devido ao excesso de hormônios tireoidianos (T3 e T4), acelera os processos metabólicos e estimula a termogênese, promovendo a degradação de proteínas e lipídios, resultando em perda de massa muscular e gordura corporal.
Assim, mesmo com apetite preservado ou aumentado, o gasto calórico dos pacientes com hipertireoidismo excede o aporte calórico consumido através da dieta.
Diabetes mellitus
A deficiência absoluta de insulina causa a síndrome consumptiva no diabetes mellitus, especialmente no diabetes tipo 1 não controlado, levando à hiperglicemia crônica.
Com isso, a falta de insulina impede a entrada de glicose nas células, gerando catabolismo excessivo de proteínas e lipídios para obtenção de energia, causando perda de massa muscular e gordura corporal. Além disso, a hiperglicemia induz poliúria, acarretando em desidratação e perda de eletrólitos.
A estimulação da gliconeogênese e a lipólise contribuem para a degradação dos tecidos e a polifagia, ou aumento do apetite, é uma tentativa de compensar a falta de energia nas células. Contudo, a má absorção da glicose e o gasto energético elevado devido ao catabolismo exacerbado resultam em perda de peso progressiva e desnutrição.
Doenças infecciosas
HIV
A infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana favorece uma complexa interação dos fatores virais, imunológicos e metabólicos. Assim, a replicação viral persistente e a ativação crônica do sistema imunológico leva à produção contínua de citocinas pró-inflamatórias, resultando em perda de massa muscular e gordura corporal.
Desta forma, a inflamação crônica, a má absorção, a alteração no metabolismo energético culminam na perda de peso progressiva, caracterizando a síndrome consumptiva no HIV.
Tuberculose
Muitos pacientes com tuberculose ativa, especialmente na reativação, experimentam perda de peso significativa, acompanhada de sintomas insidiosos como tosse, fadiga, febre e sudorese noturna. Esses sintomas podem persistir por semanas ou meses antes do diagnóstico.
Assim, a resposta inflamatória crônica e o estado catabólico causados pela infecção por Mycobacterium tuberculosis, juntamente com a ativação da cascata de citocinas pró-inflamatórias como TNF-alfa e IL-6, causam a síndrome consumptiva na tuberculose.
Endocardite
Na endocardite, a síndrome consumptiva resulta da resposta inflamatória crônica e do estado hipermetabólico induzido pela infecção persistente das válvulas cardíacas por patógenos como Streptococcus ou Staphylococcus.
Com isso, devido à infecção contínua, a produção de citocinas pró-inflamatórias é favorecida, promovendo o catabolismo proteico e lipídico. Bem como, a febre e a inflamação sistêmica crônica aumentam o gasto energético basal, exacerbando a perda de peso.
Transtornos psiquiátricos
Depressão
Pacientes com depressão possuem disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), resultando em níveis elevados de cortisol e intenso catabolismo proteico e lipídico, gerando a perda de massa muscular e gordura corporal.
Além disso, a anedonia e a perda de interesse em atividades diárias, como a alimentação, podem exacerbar as alterações no apetite e na ingestão alimentar em pacientes com depressão.
Determinar o papel isolado da depressão na perda de peso não intencional é difícil devido à sua associação com diversos fatores, como isolamento social, deficiências físicas, demência, disfagia, uso de medicamentos/drogas e múltiplas doenças crônicas.
Transtornos alimentares
A intenção de fatores psicossociais, neuroendócrinos e metabólicos determinam a síndrome consumptiva nos transtornos alimentares, particularmente na anorexia nervosa.
A restrição alimentar severa e voluntária leva a desnutrição crônica e promove uma cascata de respostas fisiológicas adaptativas, incluindo a supressão do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal. Assim, o hipogonadismo e redução dos hormônios sexuais, também contribuem para a perda de massa óssea e muscular.
Além disso, a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) aumenta os níveis de cortisol, promovendo o catabolismo proteico e lipídico.
Deve-se lembrar que a desnutrição induz a redução da termogênese adaptativa, diminuindo o metabolismo basal como mecanismo de sobrevivência, mas não compensativo para prevenir a perda de peso progressiva.
Outras Causas
Outras etiologias podem se apresentar com a síndrome consumptiva, por exemplo, pacientes com condições autoimunes e reumatológicas como a artrite reumatoide, geralmente têm perda de peso não intencional como parte dos sintomas sistêmicos.
Sintomas associados à síndrome consumptiva
Além dos sintomas gastrointestinais como dor abdominal, náuseas, vômitos, disfagia e alteração nas fezes, avalia-se o paciente quanto a outros sintomas de:
- Malignidade: A presença de suor noturno, febre e fadiga.
- Má absorção: Os pacientes podem apresentar esteatorreia, perda muscular e diarreia aquosa.
- Transtornos psiquiátricos: Os sintomas associados são variáveis, como anedonia e isolamento social ou restrição alimentar e percepção distorcida da imagem.
- Fatores funcionais e sociais: Disfagia, dentição deficiente ou a presença de demência e redução da cognição são fatores funcionais importantes. Bem como o impacto da condição social do paciente.
Avaliação da Gravidade da Perda de Peso
A avaliação da gravidade da perda de peso é crucial para o manejo da síndrome consumptiva. Com isso, deve-se investigar as possíveis etiologias em pacientes que perdem mais de 5% do peso corporal em 6 a 12 meses.
O cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC) associado a análise da composição corporal, é importante para determinar a extensão da perda de massa muscular e tecido adiposo.
Impacto na Qualidade de Vida e Funcionalidade do Paciente
Pacientes com perda de massa muscular e gordura corporal cursam com diminuição da força e resistência, resultando em fadiga, fraqueza e redução da mobilidade. Assim, há o aumento do risco de quedas e fraturas, além do comprometimento da independência e autonomia do paciente.
Além disso, pacientes com síndrome consumptiva pode desenvolver ansiedade, depressão e perda de autoestima, afetando seu estado mental e psicológico.
A intervenção precoce é crucial para reduzir esses impactos, melhorar o estado nutricional e físico, além de promover melhor qualidade de vida e funcionalidade para o paciente.
Avaliação do Paciente com Síndrome Consumptiva
Deve-se avaliar cuidadosamente o paciente caracterizado com síndrome consumptiva, devido à ampla quantidade de diagnósticos diferenciais possíveis. Contudo, não há uma abordagem diagnóstica padronizada e a investigação deve começar pela confirmação da perda de peso, seguida da história clínica e exame físico individualizados para cada paciente.
História clínica
A história precisa ser abrangente afim de direcionar o raciocínio clínico para suspeita e confirmação diagnóstica. Além da anamnese estruturado, deve-se incluir
- Caracterização da perda de peso: Incluindo obtenção de registros prévios a queixa de perda de peso, como fotos e relato de familiares. Além disso, deve-se registrar o padrão da perda, por exemplo, se a perda é progressiva ou estável.
- Avaliação para transtornos alimentares e perda de peso intencional: Questionar ao paciente se houve possível perda de peso intencional por dieta e realizar o rastreamento para transtornos alimentares, usando instrumentos como questionário SCOFF.
- Sintomas associados: Deve-se investigar os sintomas associados, como a presença de febre, disfagia, suor noturno ou alteração nas fezes.
- Passado médico e medicações em uso: Incluindo condições crônicas, infecções recentes e histórico de câncer. Além da listagem das medicações em uso que podem contribuir para perda de peso não intencional.
Exame Físico
Deve-se realizar um exame físico completo, direcionado para avaliar o estado nutricional, os sintomas associados à perda de peso e identificar sinais de doenças subjacentes. Com atenção especial para:
- Observação da aparência geral, como a apresentação do humor, fácies e distribuição corporal.
- A Cabeça e pescoço, incluindo exames para oftalmoplegia e exame odontológico
- Avaliar o aparelho cardiopulmonar, principalmente em paciente com doença cardíaca ou pulmonar crônica
- Investigar no exame abdominal desconforto abdominal, ascite, hepatoesplenomegalia, além de massas abdominais.
- Realizar o exame neurológico para identificar déficits focais e/ou cognitivos, como sinais de demência.
Caso o paciente possua perda de peso não intencional > 5% do peso habitual associado a achados positivos na história ou no exame físico, deve-se prosseguir com testes adicionais focados para confirmação da suspeita diagnóstica, como Tomografia Computadorizada ou Endoscopia Digestiva Alta.
Em contrapartida, deve-se realizar uma avaliação diagnóstica básica para um direcionamento, se a história clínica e o exame físico não indicarem um diagnóstico provável.
Exames Laboratoriais
Os exames laboratoriais podem ajudar a identificar causas subjacentes e complicações da síndrome consumptiva:
- Hemograma
- Eletrólitos
- Glicose e hemoglobina glicada
- Cálcio
- Função Hepática e renal
- Hormônios tireoidianos
- Hemocultura das fezes
- Velocidade de hemossedimentação (VHS) ou proteína C reativa (PCR)
- Sorologia para HIV, Hepatite C
- Radiografia do tórax
Manejo e tratamento da síndrome consumptiva
Para um manejo eficaz da síndrome consumptiva, é necessário a colaboração de uma equipe multidisciplinar, incluindo médicos, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos e assistentes sociais.
Contudo, cada etiologia exige uma abordagem específica, com objetivo comum de melhoria do estado nutricional, preservação da massa muscular e aumento da qualidade de vida do paciente. Assim, as intervenções nutricionais personalizadas, o tratamento farmacológico direcionado e suporte psicossocial são essenciais para o sucesso do tratamento.
Veja também:
Conheça nossa pós em Clínica Médica!
Prepare-se para sua prática clínica!

Referências bibliográficas
- Fearon, K. et al. Definition and classification of cancer cachexia: an international consensus. The lancet oncology, (2011). 12(5), 489-495.
- UpToDate. Clinical presentation, diagnosis, and prognosis of gastrointestinal stromal tumors. 2024
- UpToDate. Approach to the patient with unintentional weight loss. 2024.
