Definição
A rinite alérgica é uma inflamação no tecido do nariz e de estruturas adjacentes, decorrente da exposição a alérgenos. Ela é clinicamente caracterizada por um ou mais dos seguintes sintomas: rinorreia, espirros, prurido e congestão nasal. Essas manifestações podem ser intermitentes ou persistentes e apresentam caráter hereditário, sem preferência por sexo ou etnia, podendo se iniciar em qualquer faixa etária, com pico de incidência na infância e adolescência.
Epidemiologia
A rinite alérgica é a doença crônica mais comum do mundo, sendo classificada como a sexta mais prevalente nos Estados Unidos (precedida somente pelas doenças cardiovasculares), acometendo aproximadamente 17 % da população entre 18 e 24 anos. No Reino Unido, cerca de 30% da população geral é afetada por essa condição, e, na Suécia, esse valor chega a 40%. Evidências demonstram que existe um componente genético importante na determinação de atopia nos indivíduos; contudo, os genes que controlam esse tipo de resposta ainda não foram totalmente identificados. No Brasil, a prevalência da rinite alérgica variou em diferentes regiões. Na faixa dos 6 a 7 anos, ela acomete 25,7% das crianças e entre 13 e 14 anos, 29,6% dos jovens avaliados apresentaram esse tipo de alergia.
Fisiopatologia
Após a exposição ao alérgeno, quaisquer que seja sua etiologia, ocorre dentro de minutos a fase precoce da doença. Alguns dos eventos imunopatológicos são a degranulação de mastócitos e consequente liberação de histamina e serotonina, e a formação de leucotrienos, prostaglandinas e cininas.
Após isso, por volta de quatro a seis horas após a fase precoce, ocorre em aproximadamente 50% dos pacientes o desenvolvimento da fase tardia, que se caracteriza por expressão de moléculas de adesão endotelial – ICAM-1, VCAM-1 e VLA-4 – responsável pela exsudação de eosinófilos, basófilos e linfócitos Th2. Há um consequente aumento dos níveis séricos de IgE, presente no desenvolvimento da rinite alérgica, podendo ser desencadeado por duas vias: a produção de IgE induzida pela ligação entre CD40 (presente na membrana dos linfócitos B) e CD40L (o ligante, presente na membrana de linfócitos T, mastócitos e basófilos) e produção de IL-4 por linfócitos Th2, sendo esta interleucina a principal sinalizadora para produção de IgE pelos plasmócitos. Além desta função, a IL-4 participa do recrutamento de eosinófilos (via aumento da expressão de VCAM-1) que podem causar lesões secundárias na mucosa nasal através da produção de radicais livres de oxigênio e ECP (proteína catiônica de eosinófilos).
De forma interessante, as próprias células epiteliais do revestimento da mucosa nasal participam da patogênese da rinite alérgica através da expressão de moléculas de adesão e produção de citocinas e mediadores químicos. Ainda, entre as células epiteliais da mucosa nasal encontram-se ramificações do nervo trigêmeo, mais especificamente as fibras nervosas C (não mielinizadas, menor diâmetro e menor velocidade) derivadas da primeira e segunda divisões nervosas, que possuem receptores de membrana (H1) sensíveis à histamina. Após o estímulo destes receptores devido à liberação de histamina, as células epiteliais produzem neuropeptídeos responsáveis pela vasodilatação, como a neurocinina e a substância P. Este mesmo mecanismo controla maior liberação de muco na superfície da mucosa (NACLERIO et al., 1997).
Manifestações clínicas e análise diagnóstica
Pode-se dizer que uma anamnese bem feita proporciona todas as informações para a classificação dos sintomas nasais, determinação da causa e tomada de decisões terapêuticas. Algumas informações de extrema importância que podem ser consideradas é o histórico familiar, os hábitos de vida e as condições de moradia do paciente que apresenta sintomas de rinite alérgica. A história familiar de alergia está associada ao desenvolvimento de rinite alérgica. O ambiente geralmente influencia a expressão da doença, mas a genética determina a gravidade e a especificidade dos sintomas. Quando um dos pais é alérgico, a possibilidade de os filhos também o serem aumenta muito, chegando a mais de 80%. A presença de rinite alérgica em pacientes asmáticos pode chegar a 58% ou mais. Ambas as doenças têm os fatores desencadeantes, a fisiopatologia de inflamação mucosa e a hiper-reatividade iguais. Existe associação com eczema, urticária e alergias do sistema digestivo. Consequentemente, são essenciais informações sobre alergias familiares, idade de início e o tipo dos sintomas, quando ocorrem, sua frequência, duração e gravidade, os fatores de piora e a exposição ao alérgeno. Sintomatologia A idade de início é precoce, indo dos 5 aos 20 anos, aproximadamente. O prurido não se limita ao nariz, podendo envolver palato, olhos, faringe e laringe, assim como os ouvidos. A rinorreia é normalmente clara, sendo anterior e/ou posterior. A primeira resulta em espirros e limpeza frequente do nariz, e a segunda leva a roncos, secreção pós- nasal e limpeza constante da faringe e laringe. A obstrução nasal pode ser bilateral ou apresentar-se como um aumento exagerado do ciclo fisiológico nasal, com obstrução intermitente, alternando de uma fossa nasal para outra. Quando a congestão é intensa, pode estar associada à anosmia ou hiposmia e à perda do paladar.
Conclusão
A rinite alérgica é a doença crônica mais prevalente, resultado de reação inflamatória de hipersensibilidade com participação de anticorpos IgE a alérgenos específicos decorrentes de sensibilização alérgica prévia. Inicia-se na infância e desde então se integra à asma na hipótese de vias aéreas unidas. Os sintomas e a sensibilização alérgica costumam iniciar antes mesmo de dois anos de idade.
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Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
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Referências
PILTCHER, Otavio B. et al. Rotinas em otorrinolaringologia. Artmed Editora, 2014.
LOPES FILHO, Otacílio. Tratado de otorrinolaringologia. In: Tratado de otorrinolaringologia. 1994.