A diabetes mellitus tipo 2 é caracterizada pela deficiência na secreção ou ação da célula beta que é responsável por liberar a insulina, desencadeando um metabolismo anormal da glicose, o que desencadeia o quadro de hiperglicemia.
Esta é uma doença silenciosa e muitas vezes pode ocorrer uma subnotificação da doença.
Epidemiologia da diabetes tipo II
A prevalência de diabetes vem aumentando no mundo, isso associado ao envelhecimento populacional. No ano de 1980 a prevalência de DM tipo 2 padronizada a idade era de 4.3%, 37 anos após (2017) a prevalência estima-se em 8.6%, ocorrendo isto devido ao crescimento da obesidade, sobrepeso e sedentarismo. Anos antes do paciente ser diagnosticado com altos níveis de glicose no sangue com a doença podemos observar resistência insulínica e hiperinsulinemia. Esta é uma doença silenciosa e muitas vezes pode ocorrer uma subnotificação da doença.
Pacientes portadores de diabetes tipo 2 tem um alto risco de ter associado:
- Hipertensão (80% a 90%)
- Dislipidemia (70% a 80%)
- Sobrepeso ou obesidade (60% a 70%).
Quando o diagnóstico é feito por volta dos 40 anos, evidencia-se que os homens perdem em média 5.8 anos de vida e as mulheres em média 6.8 anos de vida, o que aponta a importância da prevenção primária. O diagnóstico de DM em idade avançada tem menos influência sobre a expectativa de vida se houver o tratamento correto com controle da glicose, pressão arterial e do colesterol.
Fisiopatologia
Os antecedentes de predisposição genética para a diabetes do tipo 2 são resistência à insulina e deficiência relativa de insulina e predisposição genética:
Resistência à insulina
Consiste na incapacidade dos tecidos de responderem normalmente à insulina essa resistência resulta em:
- Incapacidade de inibir a produção endógena de glicose no fígado o que desencadeia altos níveis de glicose no sangue em jejum
- Incapacidade de absorção da glicose e síntese do glicogênio no músculo esquelético após a refeição desencadeando altos níves de glicose pós-prandial no sangue
- Não há capacidade para inibição a lipoproteína lipase no tecido adiposo, desencadeando um excesso de ácidos graxos livres (AGLs) que aumentam o estado de resistência à insulina
Predisposição genética
Os fatores genéticos da diabetes mellitus tipos 2 estão associados aos fatores ambientais. Ou seja, parentes de primeiro grau apresentam de 5 a 10 vezes mais risco de desenvolver diabetes tipo 2 do que aqueles que não possuem o histórico familiar.
Sendo assim, se a pessoa tiver o fator genético e ainda apresentar obesidade central e visceral está terá uma maior chance de desenvolver a resistência insulínica e por conseguinte a DM tipo 2.

Figura: Resistência insulínica associada à obesidade
Agravamento da resistência insulínica na diabetes mellitus tipo 2
A resistência insulínica é agravada pelo:
- Envelhecimento
- Sedentarismo
- Sobrepeso (IMC 25-29,9 kg/m²) ou obesidade (IMC >30 kg/m²).
Caso o paciente obeso elimine o peso, pode ocorrer a redução do grau de resistência insulínica. Com isso, é possível adiar o início da diabetes ou amenizar a sua intensidade de tal modo que reduza o risco de complicações a longo prazo.
A resistência insulínica afeta principalmente o fígado, os músculos e os adipócitos.

A pressão arterial e a glicose não controladas podem levar a complicações microvasculares (retinopatia e nefropatia) e macrovasculares risco como anormalidades lipídicas associadas ao uso de tabaco.
Como é feito o diagnóstico de diabetes Mellitus tipo 2?
O diagnóstico de DM do tipo 2 se baseia nas dosagens plasmáticas de glicose. Entretanto, é importante evidenciar a história do paciente quando apresenta fatores de risco.
Os principais fatores de risco são:
- Idade avançada
- Sobrepeso/obesidade
- Histórico familiar de DM tipo 2
- Sedentarismo
- Dislipidemia
- Doenças cardiovasculares
- Estresse
- Em mulheres é bom questionar histórico de DM gestacional ou SOP (síndrome do ovário policístico).
Além disso é de suma importância questionar se o paciente apresenta os “3 polis” que são:
- Polidipsia (aumento da sede)
- Poliúria (aumento na quantidade de urina)
- Polifagia (aumento da comida).
Podemos observar ainda, noctúria, perda de peso não intencional e outros.
Exames laboratoriais
Os exames laboratoriais que podem auxiliar são:
- Glicemia de Jejum
- Glicemia após 2 horas de sobrecarga de glicose
- Hemoglobina Glicada (A1C)
Após estes podemos observar os resultados na tabela 1.
| Exames | Normoglicemia | Pré-diabetes | Diabetes |
| Glicemia de Jejum | <100 mg/dl | 100-126 mg/dl | > ou = 126 mg/dl |
| 2h após sobrecarga glicose no GTT | < 140 mg/dl | 140-200 mg/dl | > ou = 200 mg/dl |
| Hemoglobina glicada (A1C) | < 5,7% (4,5/4,2) | 5,7 – 6,5% | > 6,5% |
Tabela: Valores de exames laboratoriais que podem diagnosticar DM tipo 2
Como é feito o tratamento da diabetes mellitus tipo 2?
Para o tratamento da DM tipo 2 é preciso que ocorra a associação do tratamento medicamentoso com o tratamento não medicamentoso.
Tratamento não medicamentoso
As principais medidas não medicamentosas são:
- Educação em diabetes: informações sobre a doença, suas complicações e qual o tratamento adequado, monitorização diária da glicemia e em casos de tabagista é de suma importância que cessem o mesmo.
- Dieta: para pacientes obesos é importante incentivar a perda de 5 a 10% do peso e orientar sobre a redução da ingestão de açúcares, carboidratos e gordura e aumento da ingestão de legumes, verduras, hortaliças e fibras, sempre com uma boa ingesta hídrica.
- Atividade física: Atividade aeróbica > 3x na semana, 150 minutos por semana de resistência e flexibilidade.
Tratamento medicamentoso da diabetes mellitus tipo 2
O tratamento medicamentoso da DM2 é personalizado e pode envolver uma combinação de diferentes classes de medicamentos, dependendo das necessidades específicas de cada paciente.
O objetivo principal do tratamento é controlar os níveis de glicose no sangue, minimizar complicações relacionadas à diabetes e melhorar a qualidade de vida. Abaixo estão algumas classes de medicamentos comumente usadas no tratamento da DM2:
- Metformina: é frequentemente o medicamento de primeira escolha. Ajuda a reduzir a produção hepática de glicose e aumentar a sensibilidade à insulina nos tecidos periféricos
- Sulfonilureias: estimulam as células beta do pâncreas a liberarem mais insulina. Exemplos incluem glibenclamida, glimepirida e glipizida
- Inibidores de alfa-glucosidase: retardam a absorção de glicose no intestino delgado. Acarbose e miglitol são exemplos desta classe
- Tiazolidinedionas (TZDs): aumentam a sensibilidade à insulina nos músculos e tecido adiposo. Rosiglitazona e pioglitazona são exemplos
- Análogos de GLP-1 (agonistas do receptor de GLP-1): agem aumentando a produção de insulina e reduzindo a produção de glucagon, promovendo a saciedade. Exemplos incluem exenatida, liraglutida e dulaglutida.
Autor(a) : Mariane Capitani Fraia – @marii_fraia
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Estude DM com o SanarFlix!

Referências bibliográficas
- American Diabetes Association. Disponível em: https://www.diabetes.org/
- O‘CONNOR, MD, MPH, Patrick J.; SPERL-HILLEN, MD, JoAnn M. Diabetes do Tipo 2 em adultos. In: BMJ – Best Practice. [S. l.], 12 set. 2021. Disponível em: https://bestpractice.bmj.com/topics/pt-br/24. Acesso em: 12 out. 2021
- Endocrinologia clínica / editor responsável Lucio Vilar ; editoresassociados Claudio E. Kater … [et al.]. 7. ed. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 2021. Parte 6 – Doenças do Pâncreas Endócrino
- INZUCCHI, Silvio E.; SHERWIN , Robert S. Diabetes Melito Tipo 2. In: GOLDMAN, Lee; SCHAFER , Andrew I. Goldman Cecil Medicina. 24ª. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015. v. 3, cap. 237, p. 1711 – 1723.
- ROBINS & COTRAN, et al. Patologia: Bases Patológicas das Doenças. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. cap. 24 – Sistema Endócrino
- Tratado de endocrinologia clínica / Bernardo Léo Wajchenberg, Antonio Carlos Lerario, Roberto Tadeu Barcellos Betti. – 2. ed. – São Paulo: AC Farmacêutica, 2014. Seção III – DM tipo 2.