A luxação do ombro é a perda da relação anatômica normal entre a cabeça do úmero e a cavidade glenóide, sendo uma das mais antigas afecções conhecidas do ombro.
A articulação do ombro é a mais instável do corpo humano e sua instabilidade anterior de causa traumática é uma condição comum, sendo responsáveis por 50% de todas as principais luxações das articulações.
Epidemiologia da luxação de ombro
O primeiro episódio de luxação do ombro tem incidência de 1,7% na população geral. É o tipo de luxação mais comum, respondendo por cerca de 45% dos casos, sendo mais frequente na faixa etária entre 20-30 anos, com predomínio no sexo masculino.
Dentre os diferentes tipos de instabilidade dessa articulação, a luxação anterior é mais comum, sendo responsável por 95 a 97%dos casos. A luxação posterior é responsável por 2 a 4%, e a luxação inferior é responsável por 0,5%.
A recorrência é mais comum em pacientes que tiveram o primeiro episódio mais jovem. Outros fatores como o nível de atividade física do paciente e fraturas associadas também estão envolvidos.
Anatomia clínica na luxação de ombro
O ombro é uma articulação inerentemente instável. A cintura escapular é composta por três ossos, a clavícula, a escápula e o úmero, e quatro superfícies articulares harmônicas, a esternoclavicular, acromioclavicular, glenoumeral e escapulotorácica, sendo a glenoumeral a principal.
A articulação glenoumeral é a mais móvel do corpo humano, possibilitando movimentos como extensão, flexão, abdução, adução, rotação interna, rotação externa e circundação, entretanto, a contrapartida desta grande mobilidade é a perda de estabilidade intrínseca, sendo então uma articulação inerentemente instável.
A articulação glenoumeral é envolta por uma cápsula articular sinovial que apresenta três espessamentos que são os ligamentos glenoumerais superior, médio e inferior além do ligamento coracoumeral que promovem a estabilização estática primária do ombro.
O ligamento glenoumeral inferior representa a porção ântero-inferior da cápsula. Este ligamento é mais espesso que o resto da cápsula articular e fornece o impedimento mais forte à luxação anterior.
Os músculos do manguito rotador fornecem suporte adicional da articulação glenoumeral. O músculo subescapular encontra-se anterior à cápsula articular e atua como um suporte secundário resistindo ao deslocamento. Posteriormente, o supraespinhal, infraespinhal e redondo menor puxam a cabeça do úmero para dentro da glenóide e ajudam a prevenir a subluxação anterior.
Uma luxação anterior do ombro é geralmente causada por um golpe no braço abduzido, girado externamente e estendido (por exemplo, bloqueando uma tacada de basquete). Menos comumente, um golpe no úmero posterior ou uma queda em um braço estendido pode causar uma luxação anterior.
Quadro clínico da luxação de ombro
Na luxação anterior geralmente o ombro está doloroso ao exame físico com espasmo muscular e limitação funcional. Pode-se palpar a cabeça umeral anteriormente. O braço geralmente repousa em ligeira abdução e rodado externamente apresentando na face póstero-lateral uma depressão abaixo do acrômio onde deveria estar a cabeça umeral descrita como “sinal da dragona”.
A luxação posterior pode ser difícil de reconhecer pela falta de uma deformidade marcante no ombro.o exame revela a proeminência do ombro posterior com achatamento anteriormente. O processo coracóide parece proeminente. O paciente segura o braço em adução e rotação interna e é incapaz de girar externamente.
Diagnóstico da luxação de ombro
Na luxação anterior a avaliação adequada inclui um exame neurovascular, com atenção especial aos pulsos distais e à função do nervo axilar, que é mais comumente lesado. As radiografias obtidas rotineiramente incluem a visão ântero-posterior (AP), a visão escapular em “Y” e a visão axilar.
Nas luxações posteriores as evidências radiográficas em uma visão ântero-posterior padrão são sutis e frequentemente passam despercebidas. As pistas para o diagnóstico incluem o sinal de “lâmpada”, sinal de borda e sinal de linha de vale.
Pacientes com luxação do ombro inferior seguram o braço envolvido acima da cabeça e são incapazes de aduzir o braço. Aproximadamente 60% dos pacientes têm alguma disfunção neurológica, com o nervo axilar mais comumente envolvido.
Tratamento da luxação de ombro
Luxações agudas do ombro devem ser reduzidas o mais precocemente possível, preferencialmente depois de realizado a avaliação radiológica para descartar outras lesões associadas, minimizando o tempo de compressão neurovascular e o dano progressivo a cabeça umeral.
Realiza-se a redução fechada com anestesia conforme cada caso, dependendo do trauma que originou a lesão, do tempo transcorrido e da cooperação do paciente. Existem inúmeras técnicas de redução descritas. Dentre elas destacam-se a técnica de tração/contra-tração tendo como alternativas as manobra de Kocher, Stimson, Spaso e Hipócrates.
A redução das luxações posteriores pode ser mais difícil pelo atraso no diagnóstico e presença de fraturas. A redução geralmente é realizada requerendo uso de relaxantes musculares e analgésicos, inicialmente promovendo desimpactação da cabeça umeral da borda glenoidal através de suave rotação interna e tração lateral. Após efetua-se a rotação externa reduzindo a luxação do ombro.
É importante realizar novas radiografias para controle pós-redução. Além disso, é sugerido que após a redução de uma luxação de ombro o braço lesionado do paciente seja imobilizado em posição de adução e rotação interna. Uma gola e punho, tipoia e faixa ou um imobilizador de ombro disponível no mercado são igualmente eficazes.
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Referências:
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