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Doenças cardiovasculares são a segunda principal causa de morte em sobreviventes de câncer (menos frequente apenas que recorrência da neoplasia). O risco aumentado resulta da combinação de fatores específicos da doença e tratamento oncológico, além de fatores de risco cardiovasculares (hipertensão arterial, obesidade, tabagismo, diabetes mellitus). Um importante fator, considerado atualmente o “sexto sinal vital”, é a capacidade funcional – diretamente relacionada ao risco cardiovascular e aos desfechos oncológicos.
Por que a reabilitação é importante em cardio-oncologia?
O diagnóstico e os tratamento oncológicos evoluíram significativamente nas últimas décadas, melhorando a sobrevida dos pacientes, principalmente das 10 principais neoplasias (mais prevalentes).
Ressalta-se que entre os pacientes oncológicos que sobrevivem além de 5 anos o risco de eventos cardiovasculares que resultam em morte aumenta 1,3-3,6 vezes, enquanto a prevalência de fatores de risco cardiovasculares se eleva até 18 vezes.
Considera-se o envelhecimento associado a fatores diretos ou indiretos do tratamento oncológico como principais justificativas para estes achados:
- Toxicidade de quimioterápicos;
- Imunoterápicos ou terapia alvo;
- Sequelas da radioterapia;
- Medicações adjuvantes (corticóide);
- Bem como descondicionamento e ganho ponderal.
Sendo assim, o controle adequado de fatores de risco e estratégias de reabilitação para redução do risco cardiovascular devem ser considerados logo ao diagnóstico da neoplasia.
Capacidade funcional
A capacidade funcional (CF) dos pacientes com câncer pode estar reduzida desde antes do início do tratamento, com alguns estudos em mulheres com câncer de mama comprovando capacidade funcional 1/3 menor que controles sedentárias.
Além do impacto conhecido sobre a função sistólica ventricular causando insuficiência cardíaca em alguns pacientes, o tratamento afeta o eixo cardiovascular-musculatura esquelética com redução da CF em diversos esquemas de tratamento, sem recuperação completa após interrupção da intervenção.
Treinamento com exercício é a base da reabilitação cardiovascular, melhorando a CF e reduzindo a morbidade cardiovascular. Há extensa evidência de programas de reabilitação no contexto da insuficiência cardíaca ou de coronariopatia, porém a aplicação em cardio-oncologia é incipiente (muitos aspectos da prescrição de exercício e acompanhamento são extrapolados destas áreas).
Seleção dos pacientes com câncer para reabilitação em cardio-oncologia
Os pacientes que mais necessitam de um programa de reabilitação são, logicamente, aqueles de maior risco cardiovascular:
- Alta dose de antracíclicos (doxorrubicina > 250mg/m²)
- Alta dose de radiação (> 30Gy)
- Dose menores de antracíclicos ou trastuzumab + 2 ou mais fatores de risco cardiovasculares* ou > 60 anos ou cardiopatia (infarto, insuficiência cardíaca, FEVE limítrofe, valvopatia moderada)
- Doses menores de antracíclicos + trastuzumab
(*hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes, tabagismo e obesidade)
Outros tratamentos, como inibidores do fator de crescimento endotelial vascular (IVEGF), imunoterapia e terapia de privação androgênica, são conhecidamente relacionados a aumento do risco cardiovascular (cardiomiopatias, AVC, tromboembolismo). Porém ainda não há consenso sobre as indicações específicas deste grupo de pacientes para programas de reabilitação cardiovascular.
Avaliação de segurança pré-reabilitação em cardio-oncologia
Após a confirmação da indicação de reabilitação em cardio-oncologia, é importante avaliar a segurança dos pacientes para execução do programa. Idealmente, recomenda-se a realização de teste cardiopulmonar que fornece informações completas e valiosas sobre a capacidade funcional dos pacientes, sem sofrer prejuízos de alterações eletrocardiográficas basais por exemplo. Caso não seja disponível, o teste ergométrico pode ser utilizado na avaliação de segurança e na prescrição do nível de atividade. Considera-se segura a prática de programa de reabilitação cardiovascular:
Caso Clínico: Síndrome Coronariana com Supra de ST | Ligas – Sanar Medicina
Teste cardiopulmonar:
- PA em repouso < 160x90mmHg
- Resposta normal da PA ao exercício
- Ausência de isquemia induzida
- Ausência de arritmias atriais ou ventriculares
- Saturação de O2 normal durante a avaliação
- Ausência de sintomas
Teste de caminhada de 6 minutos:
- PA em repouso < 160x90mmHg
- Manutenção de saturação de O2 normal
Laboratório:
- Ausência de anemia significativa (Hb > 8g/Dl)
- Contagem de neutrófilos > 500/mm³
- Contagem de plaquetas > 50.000/dL
Clínica:
Ausência de:
- Náusea durante o esforço
- Vômitos nas últimas 24h
- Desorientação ou visão borrada
Complicações oncológicas ativas:
Ausência de:
- Infecção aguda;
- Alterações metabólicas agudas (tireoidopatias, DM descompensado, distúrbios eletrolíticos);
- Início aguda de linfedema;
- Impedimento físico ou mental ao exercício;
- Metástase ósseas ou SNC
Concomitantemente, os pacientes devem receber aconselhamento nutricional direcionado à neoplasia específica em tratamento. A sessão de treinamento é uma oportunidade excelente para checar a medicação em uso, o controle de comorbidades e a adesão ao tratamento como um todo (tanto farmacológico, como hábitos).
A equipe desenvolve uma prescrição personalizada de exercício para cada paciente – o tipo de atividade, a duração, a intensidade (geralmente guiada pela frequência cardíaca ou CF determinada pelo teste cardiopulmonar) e frequência.
Tratamento de manutenção em reabilitação em cardio-oncologia
Após 24-36 sessões, com tratamento supervisionado por em média 12 semanas, os pacientes recebem recomendações para manutenção da atividade física em domicílio. O ganho de capacidade funcional após o programa intensivo de reabilitação varia de 12-20%, mesmo na ausência de melhora de disfunção sistólica nos pacientes com insuficiência cardíaca (secundária a cardiopatia de base ou cardiotoxicidade).
Cardiologia: quais os caminhos a seguir? | Colunistas – Sanar Medicina
Conclusão
Considerando o elevadíssimo risco cardiovascular de pacientes em tratamento oncológico ou sobreviventes do câncer, além da perda de qualidade de vida decorrente de morbidade CV, o controle ótimo de fatores de risco e reabilitação cardiovascular são indispensáveis para redução de complicações.
O grupo de pacientes exposto a terapias notoriamente cardiotóxicas ou com cardiopatias prévias/ múltiplos fatores de risco representa a população com indicação inegável de programa de reabilitação. Enquanto evidências dos benefícios nessa população específica se acumulam progressivamente, no momento a prescrição de exercício e recomendações são análogas às recomendadas na IC ou doença coronariana.
Autora: Themissa Voss ♥
Instagram: @cardiooncologista + @drathemissavoss
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências Bibliográficas
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