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O que é a PrEP injetável de longa duração e como ela funciona?

Profissional de saúde usando máscara e luvas administra uma injeção no braço de uma paciente em ambiente clínico. A imagem representa, de forma ilustrativa, o tema PrEP injetável de longa duração. Observação: a imagem mostra uma aplicação no braço, mas o local de administração da PrEP injetável varia conforme o medicamento. Para uma publicação técnica, vale sinalizar que a foto é ilustrativa.

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A PrEP injetável é a profilaxia pré-exposição ao HIV administrada por via intramuscular com cabotegravir 600 mg (inibidor de integrase), em esquema de duas doses iniciais com intervalo de 4 semanas, seguidas de manutenção a cada 8 semanas. O cabotegravir inibe a integração do DNA viral ao genoma da célula hospedeira, bloqueando a replicação do HIV antes do estabelecimento da infecção.

Diferente da PrEP oral diária com tenofovir/entricitabina, que depende da adesão diária, a PrEP injetável desvincula a efetividade da rotina diária do usuário. Isso a torna particularmente útil para pessoas com dificuldade de adesão, exposições sexuais eventuais, problemas gastrointestinais que interferem na absorção oral, ou preferência por intervenções de menor frequência.

A incorporação ao SUS em 2026 amplia as opções de prevenção combinada ao HIV na atenção primária, especialmente para populações-chave como homens que fazem sexo com homens, mulheres trans, profissionais do sexo e pessoas com parcerias sorodiferentes.

Qual é o perfil de pessoas indicadas para PrEP injetável?

A PrEP injetável é indicada para pessoas com 15 anos ou mais, com peso ≥ 35 kg, sem infecção pelo HIV documentada, em risco aumentado de adquirir HIV por via sexual.

Critérios de priorização para a forma injetável

  1. Dificuldade de adesão à PrEP oral ou histórico de não aderência a regimes diários
  2. Barreiras para uso diário: rotina irregular, viagens frequentes, esquecimento crônico
  3. Preferência do usuário por método injetável
  4. Exposições sexuais frequentes e inconsistentes com preservativo
  5. Uso de PEP repetido (duas ou mais cursos no último ano) como marcador de exposição recorrente
  6. Pessoas com absorção gastrointestinal comprometida por condições clínicas ou uso de medicações

Quando manter a PrEP oral?

A PrEP oral com tenofovir/entricitabina (TDF/FTC) continua indicada para pessoas que preferem autonomia diária, já estão estáveis em uso contínuo, não toleram injeções, ou apresentam contraindicações ao cabotegravir. A decisão compartilhada deve considerar também o planejamento de gestação, pois os dados de segurança do cabotegravir na gravidez ainda são limitados.

Como indicar e iniciar a PrEP injetável na atenção primária?

O início da PrEP injetável exige testagem prévia, exclusão de infecção aguda e aplicação técnica adequada.

Passo a passo para indicação e início

  1. Avaliar critérios de elegibilidade: idade ≥ 15 anos, peso ≥ 35 kg, sem HIV confirmado
  2. Realizar testagem rápida para HIV com resultado negativo documentado
  3. Se exposição recente de risco (últimos 30 dias), excluir infecção aguda com teste de amplificação de ácidos nucleicos (RNA HIV) para evitar falha diagnóstica na janela imunológica
  4. Coletar sangue para avaliação de função renal, função hepática e sorologia para sífilis, hepatites B e C
  5. Avaliar contraindicações: uso de rifampicina, gestação confirmada, hipersensibilidade documentada a cabotegravir
  6. Administrar primeira dose de cabotegravir 600 mg por injeção intramuscular profunda na região glútea
  7. Agendar segunda dose para 4 semanas após a primeira
  8. Oferecer aconselhamento sobre prevenção combinada: preservativos, testagem regular, PEP de resgate se houver falha contraceptiva
  9. Discutir efeitos adversos esperados e quando procurar o serviço

Esquema posológico da PrEP injetável

PeríodoMedicaçãoVia e localDoseIntervalo
Dose inicial 1CabotegravirIM glúteo direito ou esquerdo600 mgDia 0
Dose inicial 2CabotegravirIM glúteo (alternar lado)600 mg4 semanas após 1ª dose
ManutençãoCabotegravirIM glúteo (alternar lado)600 mgA cada 8 semanas

Conduta em caso de atraso:

  • Atraso até 7 dias: administrar dose imediatamente e retomar o calendário original
  • Atraso de 8 a 30 dias: aplicar dose e reavaliar risco de exposição no período; considerar PEP se houve exposição de risco nos últimos 72 horas
  • Atraso superior a 30 dias: considerar reinício com esquema de dose de ataque ou transição para PrEP oral com TDF/FTC até restabelecer a sequência

Qual é o esquema de monitoramento durante o uso da PrEP injetável?

O monitoramento garante detecção de infecção por HIV, avaliação de segurança e controle de possíveis exposições desprotegidas.

Testagem periódica de HIV

  • Realizar testagem rápida para HIV antes de cada aplicação agendada ou a cada 3 meses, alternadamente
  • Em suspeita de infecção aguda (sintomas sugestivos, exposição recente de risco documentada), solicitar RNA HIV para evitar resultado falso-negativo na janela imunológica
  • Se resultado positivo for obtido, interromper PrEP e encaminhar para confirmação com teste de Western Blot ou RNA HIV e vinculação ao serviço de tratamento
  • Orientar que a PrEP não substitui a testagem regular para diagnóstico

Avaliação de efeitos adversos

Os eventos adversos mais frequentes da PrEP injetável são reações locais em 40-50% dos usuários:

Efeito adversoFrequênciaManejoQuando encaminhar
Dor no localMuito frequenteAnalgésicos simples, compressa fria por 10-15 minutosDor persistente após 72 horas
Nódulo subcutâneoFrequenteObservação, desaparece em semanasAumento progressivo ou sinais de infecção
Eritema ou hematomaFrequenteCompressa fria, elevação, AINE se necessárioSinais de celulite ou abscesso
CefaleiaLeve a moderadaAnalgésicos, hidratação, repousoCefaleia persistente ou alteração visual
Febre ou pirexiaLeve, transitóriaAntitérmicos, observaçãoTemperatura > 38,5°C por mais de 24 horas
FadigaLeveRepouso, hidrataçãoFadiga incapacitante

Avaliação laboratorial

Não há necessidade de monitoramento de função renal especificamente para cabotegravir, diferentemente da PrEP oral com tenofovir, que pode causar nefrotoxicidade. Entretanto:

  • Avaliar função hepática a cada 12 meses em pessoas com hepatopatia prévia ou hepatites virais
  • Verificar status vacinal para hepatite B e oferecer vacinação se suscetível
  • Rastreamento de IST (sífilis, gonorreia, clamídia, HPV) a cada 3 meses, conforme protocolo de prevenção combinada

Quais são as contraindicações e limitações da PrEP injetável?

Contraindicações absolutas

  • Infecção pelo HIV confirmada (HIV positivo)
  • Hipersensibilidade conhecida ao cabotegravir ou componentes da formulação
  • Uso concomitante de rifampicina: reduz a concentração plasmática de cabotegravir em até 50%, comprometendo efetividade
  • Peso corporal inferior a 35 kg: dose pode ser insuficiente
  • Gestação confirmada: dados de segurança em primeiro trimestre ainda são limitados

Precauções e limitações práticas

  • Hepatopatia grave: requer monitoramento de função hepática mais frequente
  • Doença renal crônica avançada: avaliar segurança antes de indicar
  • Uso de medicações que induzem metabolismo hepático (além de rifampicina): fenitoína, carbamazepina, fenobarbital podem reduzir cabotegravir
  • Dificuldade de acesso repetido ao serviço: a necessidade de retorno a cada 8 semanas pode ser barreira em populações com mobilidade reduzida ou em áreas com fluxo rígido de agendamento

A organização do serviço de atenção primária deve prever horários flexíveis, aplicação por enfermeiros devidamente treinados e possibilidade de telefonemedicina para orientação entre doses.

Como integrar a PrEP injetável à prevenção combinada no SUS?

A PrEP injetável é um componente isolado de uma estratégia mais ampla de prevenção que inclui testagem regular, profilaxia emergencial, tratamento de infecções e proteção com preservativos.

Componentes da prevenção combinada com PrEP injetável

ComponenteObjetivoFrequência de implementação com PrEP injetável
Testagem regular HIV e ISTDiagnóstico oportuno, identificação de coinfecçõesA cada 3 meses ou antes de cada aplicação
Oferecimento de preservativosPrevenção de IST e gravidez não planejadaA cada consulta e aplicação
PEP (profilaxia pós-exposição)Proteção emergencial até 72 horas pós-exposiçãoConforme demanda; validar atraso na manutenção
ImunizaçãoCobertura para hepatite B e HPVAvaliar e completar no início e durante acompanhamento
Tratamento de PVHA (pessoa com HIV em TARV)Supressão viral (indetectável = intransmissível)Fortalecer vínculo com SAAE e adesão
Aconselhamento comportamentalRedução de risco, comunicação com parceirosIntegrado em cada atendimento

Fluxo de integração prático na APS

  1. No agendamento da aplicação: confirmar adesão, questionar exposições de risco no período, oferecer preservativos
  2. Antes da aplicação: realizar testagem rápida para HIV
  3. Após a aplicação: orientar sobre próximo agendamento, oferecer contato para dúvidas, agendar coleta de IST conforme protocolo
  4. Em caso de ausência: busca ativa por telefone ou mensagem SMS em até 3 dias do atraso
  5. Em caso de exposição de risco documentada: oferecer PEP imediatamente, independente do atraso

O que fazer em caso de atraso, exposição de risco ou suspeita de falha preventiva?

Condutas conforme o tempo de atraso

Tempo de atrasoCondutaRisco residual
Até 7 diasAplicar dose imediata, manter calendárioMínimo
8 a 30 diasAplicar dose, reavaliar exposição no período, considerar PEP se exposição comprovadaModerado
> 30 dias (até 90 dias)Reiniciar dose de ataque ou transição para TDF/FTC oral; considerar PEP se exposição recenteAlto
> 90 diasReavaliação clínica completa; reafirmar testagem negativa; considerar PEP; possível reinício com dose de ataqueMuito alto

Quando oferecer PEP junto à PrEP injetável?

  • Atraso na manutenção superior a 8 semanas com exposição sexual de risco documentada
  • Ruptura de preservativo durante relação sexual
  • Suspeita de infecção por strain resistente (raro, mas possível)
  • Exposição ocupacional em profissional de saúde
  • Reexposição repetida em contexto de uso de drogas injetáveis (integração com redução de danos)

A PEP deve ser iniciada em até 72 horas da exposição, com esquema de TDF/FTC/dolutegravir por 28 dias. O aconselhamento deve enfatizar que PEP não substitui PrEP contínua em pessoa com exposição recorrente.

Como reorganizar o fluxo da atenção primária para ofertar PrEP injetável?

A incorporação da PrEP injetável exige ajustes na organização do serviço de atenção primária para garantir acesso equitativo, acompanhamento contínuo e manejo adequado de efeitos adversos.

Mudanças necessárias no fluxo

  1. Garantia de abastecimento: articular com gestão municipal para disponibilidade contínua de cabotegravir 600 mg; verificar cadeia de frio adequada (2-8°C)
  2. Capacitação de equipe: treinar enfermeiros e técnicos em enfermagem para aplicação IM profunda, reconhecimento de reações adversas, manejo local e encaminhamento quando necessário
  3. Agendamento flexível: criar slots específicos para PrEP injetável; oferecer horários estendidos (manhã, tarde, final de tarde) para populações-chave; considerar agendamento por demanda programada
  4. Testagem rápida integrada: garantir teste rápido de HIV disponível no dia da aplicação; ter profissional responsável pela execução e interpretação
  5. Busca ativa: implementar sistema de aviso por SMS, WhatsApp ou telefone 48 horas antes do agendamento; busca ativa em até 3 dias de atraso; registro no prontuário eletrônico para rastreamento
  6. Educação permanente: discussão de casos em reuniões de equipe; apresentação de cenários clínicos reais; revisão periódica de protocolos
  7. Aconselhamento estruturado: treinar médicos e enfermeiros para aconselhamento sobre prevenção combinada; oferecer material educativo sobre preservativos, IST, PEP e tratamento
  8. Encaminhamento articulado: protocolizar fluxo para SAE/SAAE (serviço de atenção especializada em AIDS); definir critérios de encaminhamento (infecção por HIV, reações adversas graves, dificuldade de manejo em APS)

Pontos-chave

  • A PrEP injetável com cabotegravir 600 mg IM é indicada para prevenção ao HIV em pessoas com risco aumentado por via sexual, com duas doses iniciais (intervalo de 4 semanas) seguidas de manutenção a cada 8 semanas
  • Indicar PrEP injetável preferencialmente em pessoas com dificuldade de adesão à PrEP oral, barreiras de rotina, exposições recorrentes ou uso repetido de PEP
  • Antes de iniciar, confirmar HIV negativo com teste rápido e excluir infecção aguda com RNA HIV se exposição recente
  • Realizar testagem de HIV a cada 3 meses ou antes de cada aplicação; em suspeita de infecção aguda, usar RNA HIV para evitar janela diagnóstica
  • PrEP injetável é contraindicada em gestação, peso < 35 kg, uso de rifampicina e HIV confirmado
  • Atrasos na manutenção até 7 dias não comprometem proteção; atrasos > 30 dias exigem reavaliação e possível reinício de dose de ataque ou transição para PrEP oral
  • Integrar à prevenção combinada: testagem regular de IST, preservativos, PEP em caso de exposição desprotegida, imunização e tratamento de PVHA
  • Reorganizar o fluxo de APS com capacitação de equipe, agendamento flexível, busca ativa, testagem integrada e aconselhamento estruturado.

Referências bibliográficas

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