Oreochromis niloticus, popularmente conhecida como Tilápia do Nilo, serviu de experimento de estudo para três brasileiros que desenvolveram uma nova alternativa de baixíssimo custo, e alta efetividade no tratamento de queimaduras, que vem se mostrando cada vez mais eficaz.
Ao demonstrar eficiência cicatricial e extensas camadas de colágeno tipo I, bom grau de umidade e resistência à tração, alem de ser utilizada em queimaduras passou a ser aderida em cirurgias ginecológicas de forma experimental, sendo elas cirurgia de redesignação sexual, síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser e câncer de vagina.

A Tilápia do Nilo (Oreochromis Niloticus)
A tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus), é um peixe de origem africana, pertence a falimia dos Ciclídeos, chegou ao Brasil por volta da década de 1970 e estão distribuídos por quase todas as bacias hidrográficas do Brasil, principalmente em regiões de clima tropical e subtropicais.
No Ceará, a piscicultura da tilápia encontra-se difundida em diversos reservatórios, nas principais bacias hidrográficas do Estado, sendo o açude Castanhão, localizado nos municípios de Jaguaribara, Alto Santo, Jaguaribe e Jaguaretama, seu principal produtor.
Obtenção e processamento das amostras
As amostras da pele do peixe são obtidas através da piscicultura no açude Castanhão (Jaguaribara-CE). Os peixes são cultivados em tanque, com peso entre 800 e 1000 gramas, são insensibilizados por choque térmico (caixas isotérmicas com gelo moído e água), para, que em seguida seja realizada a sangria.
As peles são removidas, submetidas a lavagem em água corrente, posteriormente são colocadas me uma solução fisiológica NaCl a 0,9% para a limpeza final. Para os testes de microtração são submetidas a esterilização em etapas de imersão em clorexidina em glicerol .
Após algumas etapas, a pele é armazenada em dupla selagem e então levada ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo. Lá, é feita uma radioesterilização complementar e depois retorna ao Ceará. Depois de todo o processo, a pele coletada é mantida em refrigeração a 3°C e pode ser utilizada em até dois anos.

Utilidades inovadoras da pele de tilápia
Tratamento de queimaduras
O desenvolvimento do curativo biologioco com a pele da tilápia é uma alternativa moderna sendo a primeira pele de animal no Brasil, e a primeira pele de animal aquatico do mundo ultilizado com essas finalidades.
O peixe surge como uma nova alternativa de curativo biológico temporário usado na cicatrização das queimaduras, possibilitando maior chance de reabilitação e de reduz as complicações das injúrias térmicas (FRANCO et al, 2013).
Estudos pré-clínicos mostraram que a pele da tilápia possui uma epiderme revestida por um epitélio pavimentoso estratificado, seguido de extensas camadas de colágeno principalmente colágeno tipo I, que proporciona resistência à tração e possui um bom grau de umidade.
O colágeno configura-se como um dos principais componentes dos biomateriais, devido à sua característica de orientar e de definir a maioria dos tecidos além de possibilitar biodegradabilidade e biocompatibilidade, que favorecem a sua aplicação (CEN et al., 2008).
O colágeno tipo I da pele da tilápia estimula Fatores de Crescimento de Fibroblastos (FGF), os quais expressam e liberam Fator de Crescimento de Queratinócitos (KGF), duas citocinas importantes e imprescindíveis para o fechamento das feridas (TANG; SAITO, 2015).
Pode-se observar que a pele desse peixe é uma excelente alternativa terapêutica nas lesões por queimaduras, utilizando os curativos biológicos temporários , diminui as trocas de curativos, acelerando o processo de cicatrização da lesão e diminuindo a dor do paciente, amenizando o sofrimento físico e psicológico durante o tratamento da lesão.
Em meio a tantos avanços é necesserio mais pesquisas nessa area para que haja uma disseminação do tratamento por todo o pais.
Cirurgias ginecológica
Cirurgia de redesignação sexual
Em abril de 2019, o Centro de Atenção Integral a Saúde da Mulher, nascido de uma proposta de docentes da Faculdade de Ciências Médicas UNICAMP, realizou um procedimento experimental onde cirurgiões utilizaram pele primeira vez pele de tilapia na reconstrução do canal vaginal de uma paciente transexual submetida a uma cirurgia malsucedida.
Utilizar a pele do peixe permite uma operação mais simples, rápida e menos invasiva. O epitélio da pele do peixe serve como um suporte para o desenvolvimento do epitélio vaginal.
Realizada a cirurgia as pacientes ficam por volta de uma semana com um molde de acrílico envolto na pele de tilapia dentro do canal vaginal. Após o prazo de uma semana o acrílico é retirado ficando apenas a pele do peixe no local.
“O colágeno da pele de tilapia vai sendo destruído, as moléculas são ‘quebradas’ e a pele do animal é incorporada ao tecido. Isso faz com que células presentes no canal vaginal se diferenciem em outras, formando o epitélio vaginal”, explica o médico Manoel Odorico de Moraes, coordenador do NPDM e professor da Faculdade de Medicina da UFC. Não há necessidade de medicar os pacientes com drogas imunossupressoras, pois o material biológico não é colocado dentro da cavidade abdominal, mas na vagina, que é uma extensão da pele humana. “Até hoje não houve nenhum caso de rejeição”, diz Moraes.
Sobre
a cirurgia realizada a expectativa é que a pele de tilapia realmente vai se
transformar em epitélio vaginal. Pois não se sabe se a cicatrização ocorrera do
mesmo modo que nas pacientes com Síndrome de Mayer Rokitansky-Kuster-Hauser.
Síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser
Síndrome
de Mayer Rokitansky-Kuster-Hauser (SMRKH) :consiste
na aplasia do ducto Mülleriano (útero e dois terços superiores da vagina),
havendo um desenvolvimento rudimentar ou ausência da formação do útero e da
vagina. A sua incidência é de cerca de 1/5.000
mulheres nascidas. Aproximadamente 40% a 60% das pacientes apresentam
alterações renais, podendo apresentar alterações esqueléticas concomitantes.
O
tratamento geralmente é realizado com moldes ou cirurgias, que são realizadas
com a própria pele da paciente.
A
inovação do procedimento caracteriza-se por
haver uma incisão na região perianal introduzindo um molde de acrílico
revestido pela pele de tilapia, aderida ao corpo essa pele é absorvida formando
o canal vaginal.
Câncer de vagina
Em
meio a tantas utilidades em cirurgias ginecológicas, surge um novo uso ,, a reconstrução
do canal vaginal em mulheres que devido ao
câncer de vagina tiveram como complicação a ressecção do canal vaginal
ao realizar secções de radioterapia. O
procedimento cirúrgico realizado pela primeira vez na historia, aconteceu em
Fortaleza na Maternidade
Escola Assis Chateaubriand, em dezembro de 2019.
O
cirurgião Leonardo Bezerra detalha a cirurgia, “Nesse caso em particular, nós precisamos
individualizar os órgãos, porque estava tudo literalmente muito grudado devido
a radioterapia. Precisamos primeiro desse tempo abdominal através da
laparoscopia, onde separamos as estruturas bexiga e reto, e no segundo momento,
fizemos o canal vaginal”.
Ao todo uma paciente com câncer de vagina e dez mulheres com Síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser já foram submetidas a processos cirúrgicos com pele de tilapia no Brasil. Todas as pesquisas foram realizadas no NPDM da UFC e na Maternidade Escola Assis Chateaubriand.
Pele de tilápia no sistema único de saúde (sus)
A
pele de tilapia poderá ser incorporado no Sistema Único de Saúde (S.U.S), para
o tratamento de queimaduras de segundo e terceiro graus.
Terminando
suas últimas fases clinicas passara pela aprovação da Anvisa, sendo o primeiro
tramite necessário para que o material biológico seja aderido ao SUS.
O
projeto já foi apresentado ao atual presidente Jair Bolsonaro, mas ainda não
foi confirmado pelo Ministério da saúde. Futuramente acredita-se na implantação
dessa nova técnica no tratamento de queimados, que tem apresentado baixo culto
e alta efetividade.
Estima-se que um milhão de casos de queimaduras ocorram por ano no Brasil, dentre elas cerca de 97% das pessoas são de baixa renda, que precisam de atendimento publico. Se o governo aprovar o projeto, todos os centros de queimados do pais terão acesso ao tratamento.
O futuro da pele de tilápia
Nasa
Em meio a tantos avanços nos estudos e
utilizações da pele de tilapia a Agencia Espacial Norte-americana levara
amostras da pele de tilapia ao espaço para observar seu comportamento ao ser submetido
a radiações, gravidade é diferentes
condições de pressão. A ação faz parte do projeto Cubes in Space.
A expectativa dos pesquisadores com esse
estudo é obter informações para futuras utilizações da pele de tilapia como por
exemplo em próteses internas para o corpo humano e como as amostras reagem as
variações do ambiente externo.
Medicina regenerativa:
A pele de tilapia é um promissor biomaterial na medicina regenerativa, devido a suas características microscópicas serem semelhantes as estruturas da pele humana tento resistência á tração. A derme desta pele é composta por feixes de colágeno, predominantemente do tipo I, de considerável importância para seu uso clínico. No entanto, novos estudos são necessário.