Na maioria das vezes, a pancreatite crônica é secundária a episódios repetidos de pancreatite aguda, que inicia uma sequência de fibrose perilobular, distorção ductal e alterações nas secreções pancreáticas. Desse modo, longo do tempo e com episódios múltiplos, pode levar à perda de parênquima pancreático e à fibrose.
A lesão pancreática crônica leva à produção local de mediadores inflamatórios que causam fibrose e perda de células acinares. O TGF-β e o PDGF induzem a ativação e a proliferação de miofibroblastos periacinares, as chamadas células estreladas pancreáticas, resultando na deposição de colágeno e fibrose.
Outros exemplos de causas são:
- Pancreatite autoimune
- Pode existir associação com outras doenças autoimunes como Síndrome de Sjögren, doença inflamatória intestinal, colangite esclerosante primária, cirrose biliar primária e hepatite autoimune.
- Idiopática
- Genética
- Fibrose cística é a principal causas em crianças
Manifestações Clínicas
O quadro clínico da pancreatite aguda é composto por:
- Esteatorreia
- Evento tardio decorrente da má digestão dos triglicerídeos pela lipase e colipase pancreáticas que estão deficientes na fase mais avançada da doença.
- Diabetes Mellitus
- Dor abdominal
- Pode se tornar contínua com a progressão da doença, o que leva ao emagrecimento em muitos pacientes, principalmente porque aparece ou é acentuada 15 a 30 minutos após as refeições.
- O início da dor na pancreatite crônica alcoólica aparece apenas 2 a 3 dias após o consumo.
Diagnóstico
- Com a evolução do processo inflamatório e a destruição progressiva do parênquima pancreático, os níveis séricos da amilase e lipase são normais ou até baixos, mesmo nos casos de agudização e com clínica de pancreatite aguda;
- Raio-X ou TC de abdome apresentando calcificações pancreáticas;
- Ultrassonografia endoscópica com o aspecto heterogêneo, identificação de calcificações e alterações dos ductos pancreáticos são os achados encontrados na pancreatite crônica;
- CPRM ou CPRE apresentando irregularidades dos ductos pancreáticos, como dilatações, estenoses;
- Testes laboratoriais
- Maior sensibilidade e especificidade:
- Secretina-colecistoquinina: o suco pancreático é coletado por um cateter duodenal após a infusão venosa de secretina e colecistoquinina, sendo possível analisar a secreção de enzimas pancreáticas e de bicarbonato.
- Indiretos da função exócrina:
- Determinação da gordura fecal
- Determinação da elastase fecal pancreática (que deverá estar diminuída)
- Ingestão de bentiromida e do dilaurato de fluoresceína – avaliar metabolização das substâncias e dosar seus metabólitos na urina após clivagem pelas enzimas pancreática.
- Maior sensibilidade e especificidade:
Tratamento
Tratamento da dor para todos inclui abstinência alcoólica, fracionamento das refeições, suplementos enzimáticos orais com tripsina, analgesia escalonada de acordo com a resposta clínica. Em casos selecionados, pode ser feita a intervenção cirúrgica.
Tratamento do diabetes é insulinoterapia, como nos casos de DM tipo 1.
Tratamento da esteatorreia é a reposição das enzimas pancreáticas, essencialmente a lipase e adequação da dieta para redução de alimentos gordurosos.
Complicações
- Ascite pancreática é secundária a fístula de ducto pancreático com a cavidade intestinal e o tratamento é conservador com dieta zero, paracentese de alivio e uso de Octreotide, que inibe a secreção pancreática e ajuda no fechamento da fístula.
- Pseudocisto pancreático: varia de acordo com a presença ou não de comunicação com o ducto pancreático principal, que pode ser uma aspiração percutânea/drenagem endoscópica ou cistogastrostomia/cistoenterostomia, respectivamente.
- Obstrução do colédoco terminal: CPRE ou CPRM.
- Pseudoaneurisma: Ligamento cirúrgico do vaso ou embolização por arteriografia.
- Trombose de veia esplênica: Esplenectomia
Referências bibliográficas
- Kumar V, Abbas A, Aster J. Robbins. Bases patológicas das doenças. 9th ed. Elsevier, 2016.
- Goldman, L.; Schafer, AI. Goldman’s Cecil Medicine. 25th ed. Philadelphia: Elsevier Saunders, 2016.
- Kumar V, Abbas A, Aster J. Robbins patologia básica. 9th ed. Elsevier, 2013.
- Townsend CM et al. Sabiston Textbook of Surgery. 20th ed. Philadelphia: Elsevier Saunders, 2016.