Os genes SARS-CoV-2 podem se integrar ao DNA humano? | Colunistas

Testes de PCR para SARS-CoV-2 positivos contínuos ou recorrentes foram relatados em pacientes semanas ou meses após a recuperação de uma infecção inicial. Estudos sugeriram que os casos “re-positivos” não foram causados por reinfecção. A causa dessa produção prolongada e recorrente de RNA viral, positivando os testes, é desconhecida. Será uma possibilidade de integração genômica?
De onde surgiu essa hipótese?
Em 1 de fevereiro de 2020, um homem de 44 anos foi internado em um hospital em Wuhan, com quadro de febre, mal-estar e fadiga por 11 dias. Nesse paciente, a tomografia computadorizada mostrou que a infecção se infiltrou no lobo inferior esquerdo em 23 de janeiro e se espalhou para os pulmões em 1º de fevereiro. Os ensaios para vírus influenza e um painel respiratório foram negativos, mas um esfregaço de garganta foi positivo para ensaios de RNA de SARS-CoV-2 em 3 de fevereiro. Em 20 de fevereiro, a tomografia computadorizada revelou uma melhora significativa na infecção pulmonar e o esfregaço da garganta tornou-se negativo. Como preparação para a alta, o paciente foi testado novamente para RNA viral. No entanto, um RNA positivo para SARS‐CoV‐ 2 reapareceu na lavagem de garganta em 23 de fevereiro e permaneceu alto nos quatro testes seguintes antes de 15 de março. Nesse período, a paciente permaneceu assintomática e sem sinais anormais. Em 12 de março, a tomografia computadorizada de tórax mostrou que a lesão infecciosa havia sido absorvida e os pulmões voltaram ao normal. No entanto, o RNA viral permaneceu positivo no esfregaço da garganta e saliva em 13 de março.
Após esse caso, diversos outros foram aparecendo em Wuhan, China, e em outras partes do mundo, com características similares de curso clínico. Diante desse cenário, surgiram diversas hipóteses, dentre elas, a possibilidade da integração de RNA viral do SARS‐CoV‐ 2 no DNA humano.
O que as pesquisas demonstram sobre essa hipótese?
Até o momento de produção desse artigo, somente um estudo realizou testes genômicos para testar essa hipótese, sendo apresentado a seguir. Em um preprint publicado na revista BioRxiv, Zhang e colaboradores analisaram dados de RNA publicados de células infectadas por SARS-CoV-2 para evidências de transcritos quiméricos, o que seria indicativo de integração viral no genoma e expressão.
Como vírus de RNA de fita positiva, o SARS-CoV-2 e outros beta-coronavírus, como o SARS-CoV-1 e o MERS, empregam uma RNA polimerase dependente de RNA para replicar seu RNA genômico e transcrever seus RNAs subgenômicos. Uma possibilidade é que os RNAs do SARS-CoV-2 possam ser transcritos reversamente e integrados no genoma humano, e a transcrição das cópias integradas do DNA possa ser responsável por testes de PCR positivos.
Qual foi o resultado dessa pesquisa?
A pesquisa ainda não foi concluída, no entanto, alguns dados preliminares já foram apurados. O exame desses conjuntos de dados revelou um número substancial de leituras quiméricas hospedeiras virais. A abundância de leitura quimérica foi positivamente correlacionada com o nível de RNA viral em todos os tipos de amostra. As leituras quiméricas geralmente representaram 0,004% – 0,14% das leituras de SARS-CoV-2 totais nas amostras, com um número máximo de leituras de 69,24% nas células do fluido de lavagem broncoalveolar derivadas de pacientes com COVID-19 graves. Estas análises suportam a hipótese de que o RNA do SARS-CoV-2 pode retrointegrar-se ao genoma das células infectadas, resultando na produção de transcritos virais-celulares quiméricos.
O que podemos interpretar sobre os resultados preliminares dessa pesquisa?
Uma questão de acompanhamento importante é se essas sequências integradas de SARS-CoV-2 podem expressar antígenos virais. Nesse caso, será de interesse clínico avaliar se os antígenos virais expressos a partir de fragmentos de vírus integrados podem desencadear uma resposta imunológica em pacientes que pode afetar o curso e o tratamento da doença. Portanto, uma análise cuidadosa nos locais de retrointegração do SARS-CoV-2 em amostras de pacientes e a correlação com a gravidade da doença ajudarão a elucidar as possíveis consequências clínicas.
Um ponto importante é que a confiança dos testes de PCR para avaliar o efeito dos tratamentos na replicação viral e na carga viral pode não refletir a eficácia do tratamento para suprimir a replicação viral, uma vez que o ensaio de PCR pode detectar transcritos virais de sequências virais integradas de forma estável no genoma, em vez de vírus infecciosos.
Conclusões
Até o momento, somente um estudo discorre sobre a hipótese de integração de genoma viral ao genoma humano, sendo esse estudo com resultados, ainda, inconclusivos. Não obstante, analisar somente essa hipótese para os casos de “reinfecção” seria descartar diversas possibilidades e estudos em andamento sobre essa questão, como a sensibilidade e especificidade do teste de RT-PCR para SARS-CoV-2. Portanto, mais estudos são necessários para confirmarem a possibilidade de integração de genoma viral, bem como se essa integração é capaz de produzir antígenos e se esses antígenos são capazes de desenvolver lesões nos pacientes, principalmente os que já estão vacinados.
Colunista: João Victor Lopes Lima
Instagram: @morethanstudiess
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Referências:
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- Zhang L, Richards A, Khalil A, Wogram E, Ma H, Young RA, Jaenisch R. SARS-CoV-2 RNA reverse-transcribed and integrated into the human genome. bioRxiv [Preprint]. 2020 Dec 13:2020.12.12.422516. doi: 10.1101/2020.12.12.422516