Tente encontrar algum
assunto mais tabu que a morte… E falhe miseravelmente. O tema, por si só, já
vem carregado de um peso absurdo nos ocidentais – com algumas exceções! – e a “solução”
prática para lidar com ele vem sendo o silêncio. Na realidade de Cuidados
Paliativos, além do paciente vivenciar o luto do seu processo de adoecimento,
há uma outra visão: a daqueles que estão na perspectiva da perda de alguém
amado.
O trinômio da comunicação em Cuidados
Paliativos: equipe-paciente-família
Nas enfermarias das
maternidades, ouve-se sobre o binômio mãe-filho: eles têm pulseiras que
combinam, seus leitos – sempre que possível! – são juntinhos e é bem
estabelecido que a saúde de um é diretamente proporcional a do outro.
A partir de hoje, é
assim que você vai pensar na comunicação em Cuidados Paliativos: um trinômio
envolvendo a equipe, o paciente e os seus familiares. Isso é fundamental pois,
apesar do cuidado ser centrado no paciente, os familiares representam parcela
imensurável da saúde e do suporte dele. Sem a comunicação adequada, não há como
investir na saúde física e emocional do paciente, sendo a famosa “conspiração
do silêncio” a maior vilã nesse processo.
“Doutor, meu pai vai morrer? Quanto tempo ele
tem?”
De forma geral, essa
pergunta é feita às escondidas, com o pai/paciente em outro cômodo, acompanhada
do medo de que ela, por si só, atraia a morte… E a forma que respondemos a isso
muda o vínculo que você terá com a família. Se o que você tem a dizer é “Veja
bem, em algum momento, todos vamos…”, foi perdida uma chance de diálogo sobre
o processo de luto através do desmerecimento da dor real – e, muitas vezes,
iminente! – da perda de alguém querido.
O “sim”, quando
pertinente, abre espaço para a conversa sobre esse momento que irá acontecer e
é esta conversa que possibilita um processo menos doloroso. Perguntar o porquê
da pergunta abre espaço para outras definições… É o medo da dor física? De se
despedir de alguém? Da participação de um evento próximo? Às vezes, há uma
viagem, um casamento ou mesmo um testamento a ser feito. Outras tantas, é o
sintoma do enfrentamento de uma das fases do luto: a barganha. No livro “Sobre
a morte e o morrer”, da psiquiatra americana Elizabeth Kubler-Ross, ela traz a
barganha como um mecanismo com potencial saudável para alguns pacientes… Mas,
raramente para os familiares. Como eu disse, o diálogo permite a procura de
soluções de situações que, sem ele, não entenderíamos como problemas.
Cuidados Paliativos e a continuidade do cuidado
Esse talvez seja o
diferencial mais bonito dos Cuidados Paliativos: o cuidado não termina na morte
do paciente, ele se estende ao processo de luto do núcleo familiar de quem
partiu. Ao redor do mundo, mesmo nos centros mais avançados em Cuidados
Paliativos, este ainda é um grande desafio logístico, principalmente pela
desproporcionalidade entre o número destes especialistas e o de pacientes
necessitando de seus cuidados. No entanto, a identificação dessa necessidade,
por si só, já é uma revolução no cuidado em saúde e um resgate do entendimento
do médico como cuidador de um núcleo, não de uma doença pontual.
Você pode ver um pouquinho mais sobre Cuidados Paliativos e Comunicação de Más Notícias, em minha aula sobre o assunto no Sanarflix.
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