A medicina é
uma arte. E uma arte, necessariamente, é o domínio de um fazer e um saber
porque faz.
Hoje vamos
falar de um tema bastante interessante para a nossa prática: como se dá a
relação médico-paciente com os adolescentes. Tenho a impressão de sempre ser
mais fácil caracterizar ou lidar com os pensamentos e hábitos esperados dos
adultos, idosos, crianças… do que dos adolescentes! Então, vamos discorrer um
pouco a esse respeito, aqui.
A adolescência
é uma fase lembrada por nós, quase sempre, como um estágio de maturação sexual
e reprodutiva, na qual o indivíduo transita entre a infância e a adolescência.
Isso não deixa de ser verdade, mas não sintetiza de todo as mudanças que
ocorrem nesse período. O adolescente, frequentemente, é o sujeito que adquire
marcadamente seus próprios interesses, atenta muito para a forma de se
apresentar no meio social e a aprovação dos pares. Além disso, em geral, está
começando a tomar algumas responsabilidades próprias do adulto, se depara com
uma tendência a iniciação sexual cada vez mais cedo e se expõe de forma
quantitativamente elevada nas mídias sociais. Essas questões devem ser levadas
em consideração.
Existe, ainda,
uma série de características epidemiológicas típicas desse grupo, como a maior
exposição a comportamento sexual de risco, uso de drogas lícitas e ilícitas,
maior exposição a situações que possam culminar em morte traumática, como
afogamentos e acidentes de trânsito. Isso deve ser levado em conta, porque
também é nosso papel – inclusive, um dos
mais nobres – a prevenção de agravos aos nossos pacientes.
Ao falar de
relação médico-paciente, nos deparamos com um impasse que transcende esse saber
epidemiológico, clínico e técnico, sim! Estar com o paciente faz parte da dimensão artesanal do
fazer médico. Esta dimensão artesanal é tanto única, quanto irrepetível e
demanda uma busca constante do médico por aperfeiçoar sua habilidade de atender, de prestar atenção na
pessoa a sua frente, de absorver algo dela e devolver doce e
confortavelmente… O médico deve ir além da técnica, sem prescindir dela.
Durante a
consulta, muitas vezes o adolescente demonstra que pouco se apropria do
conhecimento sobre si, ainda permanece relegando essa posição aos pais –
principais acompanhantes em consultas. Ao perguntarmos sobre a queixa
principal, comumente há o desvio do olhar para a mãe, pai ou familiar em
posição de autoridade ali presente. Daí em diante, se inicia uma conversa
basicamente estabelecida entre o médico e o acompanhante, isso é comum mesmo no
atendimento de adolescentes grávidas. O protagonista da conversa (o
adolescente) pouco se expressa e, muitas vezes, se sente inibido.
O adolescente
frequentemente se encontra em uma posição de recusa, afinal, em grande parte
das vezes, ele é a terceira pessoa da consulta e que está sob responsabilidade
de um outro sujeito – de forma que o próprio adolescente pouco se vê como
responsável pelos seus cuidados médicos. Nesse ponto, podemos nos deparar com
recusa a terapêutica, ao diálogo, a narrativa da história clínica e das
impressões do doente sobre ela. A boa condução do caso pode ficar comprometida.
O que podemos
fazer em relação a isso? Como buscar ativamente fundar o vínculo com aquele adolescente?
Atitudes simples, como penetrar na esfera pessoal de gostos e hábitos de vida,
demonstrando interesse pela pessoa, podem ajudar. Além disso, pode-se
introduzir a pergunta “você faz questão da presença da sua
mãe/pai/acompanhante?”. Esse questionamento, assim colocado, tende a fazer o
adolescente refletir se sente segurança para aquele momento e demonstrar isso
para o seu responsável, minimizando possíveis conflitos.
A medicina em
sua dimensão mais artesanal, mais detalhista, necessita de um desejo de
transcender por parte do médico, de buscar o que há fora de si mesmo e de todo
o seu aparato científico habitual. Busquemos essa habilidade em cada
oportunidade de atender alguém.