Psicofobia é o termo utilizado para caracterizar atitudes preconceituosas e discriminatórias contra portadores de deficiências ou transtornos mentais. Desde os primórdios da civilização humana as pessoas acometidas por tais condições são estereotipadas, julgadas, e em muitas ocasiões não recebem o cuidado adequado. Práticas psicofóbicas, na atualidade, causam grande impacto negativo na sociedade, uma vez que geram resistência da população em procurar ajuda profissional quando sofrem com enfermidades psíquicas, além de afetar negativamente o processo dos indivíduos já em tratamento. Então, se liga nesse texto e vamos combater a Psicofobia!
A história da “Loucura”
Há relados de pessoas com deficiência e transtornos mentais desde a antiguidade clássica. Da mesma forma que diversas outras doenças, elas eram relacionadas às práticas mitológicas, manifestação causadas pelas influências dos deuses adorado naquelas sociedades. Podemos observar claramente que as doenças mentais estavam fortemente associadas à ideologia religiosa no período medieval. a Inquisição, tribunal eclesiástico da Igreja Católica, julgou os “loucos” como pessoas possuídas por entidades malignas, fazendo com que fossem perseguidos e executados.
Em meados da primeira revolução industrial, possuir um transtorno ou deficiência mental tornou-se critério de exclusão social. Foram criadas diversas instituições de internação, que abrigavam todos aqueles considerados improdutivos ou uma ameaça à moral e valores da sociedade. Fica evidente que a Psicofobia vem sendo praticada ao longo dos séculos em diferentes locais e culturas. Na atualidade, mesmo com os avanços como a não utilização do termo “Louco” ou “Loucura” para se referir aos pacientes psiquiátricos, na tentativa de se afastar o estigma que acompanha a palavra, ainda há muito preconceito e desinformações a respeito das enfermidades da mente.
O “Holocausto Brasileiro”
No dia 12 de outubro de 1903, na cidade mineira de Barbacena, foi fundado o hospital Colônia. A princípio tratava-se de um gigantesco hospital psiquiátrico voltado para internação de pacientes com deficiências e transtornos mentais, cujo as famílias não tinham mais condições de cuidá-los. É importante ressaltar que o hospital rapidamente tornou-se uma referência e era procurado por diversas pessoas, em uma época que assuntos relacionados à saúde mental era mau vistos.
Colônia foi planejado para alocar cerca de 300 pacientes, entretanto na década de 40 já havia mais de 5 mil pessoas. Isso aconteceu devido ao descaso do governo em relação ao que estava acontecendo no local. Negros, profissionais do sexo, homossexuais, moradores em situação de rua e diversas outras classes marginalizadas eram considerados doentes mentais incapazes e por isso despachadas, por diferentes localidades, para o dito hospital, no qual acabavam internados contra sua vontade.
Com a superlotação e não regulamentação de órgãos governamentais a situação em Barbacena tornou-se palco de um show de horrores. Os internos eram submetidos a condições torturantes, Médicos e enfermeiras realizavam procedimentos como banhos escaldantes e a chamada “Terapia de choque”. Além disso, os pacientes passavam fome, diversos não tinham roupas e nem local para dormir, o que levou à morte de muitos por hipotermia. O hospital Colônia só foi fechado na década de 80, após fazer milhares de vítimas. Durante todo seu tempo de vigência a sociedade sabia das atrocidades que eram cometidas ali, mas a Psicofobia impedia que as pessoas fossem capazes de tomar atitudes para combater os absurdos.

Fonte: https://pensarbemviverbem.com.br/holocausto-brasileiro-um-lado-sombrio-da-historia-brasileira-hospital-colonia-de-barbacena/
Prevalência das deficiências e transtornos mentais na atualidade
Estima-se que mais de 450 milhões de pessoas no mundo inteiro sofram de algum transtorno mental. Essa informação demonstra a importância da saúde mental, uma vez que 14% desse número total, representa doenças de natureza crônica e incapacitante, como a depressão. Os transtornos e deficiências geram sintomas que interferem na autonomia, independência e qualidade de vida dos pacientes. Além disso são acompanhados de um estigma social, que interfere diretamente no tratamento, recuperação e reabilitação do indivíduo. E causa um impacto econômico, já que muitas vezes quando não ocorre o devido tratamento profissional, os enfermos não conseguem trabalhar e mover a economia.
No brasil, no atual contexto de pandemia, o transtorno generalizado de ansiedade é o mais prevalente, seguido do transtorno do estresse pós-traumático e transtorno depressivo. O combate a Psicofobia é essencial tanto na esfera social, quanto econômica. Os impactos gerados pelo preconceito e não procura de tratamento afetam negativamente e em grandes proporções o indivíduo e o regime capitalista como um todo, já que a economia depende da produção do trabalhador.
Como combater a Psicofobia
A principal causa desse fenômeno é a desinformação. Sendo assim, a principal forma de combater a Psicofobia é fornecendo informações claras, proporcionando diálogos a respeito da saúde mental, dar voz aos pacientes psiquiátricos. É necessário alinhar o conhecimento dos profissionais da saúde mental com a disseminação de conteúdo nas grandes mídias e redes sociais. Dessa forma, as pessoas passam a enxergar a doença mental sem o olhar repleto do preconceito enraizado na sociedade há séculos.
A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) criou uma campanha contra a Psicofobia. Após o humorista Chico Anysio fazer uma declaração falando a respeito de seu tratamento psiquiátrico para depressão há mais de 24 anos. “Se não fosse o tratamento psiquiátrico, não teria feito nem 20% do que fiz em minha vida”. Ele afirmou em uma entrevista ao Dr. Antônio Geraldo. Estabeleceu-se o dia 12 de abril como Dia Nacional de Enfrentamento à Psicofobia e a Campanha da ABO conta com depoimento de diversas figuras públicas falando sobre suas relações com a própria saúde mental. Uma excelente ferramenta para trazer ao grande público que todos estão sujeitos a sofrerem com transtornos e deficiências mentais e falar sobre isso, não apenas faz bem, como é necessário para que possamos progredir como sociedade.
Conclusão
A Psicofobia está presente na história há séculos, de execuções e torturas à perda de oportunidades de emprego e piadas ofensivas. Mesmo com os avanços das últimas décadas, ainda há um longo caminho a ser percorrido no combate às práticas preconceituosa e discriminatórias contra o paciente psiquiátrico. Por isso é importante debater sobre saúde mental, desmitificar as doenças que podem acometê-la, demonstrar os impactos que ela pode causar para o indivíduo e para comunidade em geral. Deixando claro a importância do tratamento.
Autora: Gabrielle Ferreira
Instagram: @gabrielle.ifs
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
Psicofobia: Seu preconceito causa sofrimento – https://www.psicofobia.com.br/
Medicina dia a dia – https://medicinadiaadia.com.br/psicofobia-um-grande-desafio-da-psiquiatria/
Revista de Extensão – http://periodicos.unesc.net/revistaextensao/article/view/3767
Revista Multidisciplinarhttp://revistas.famp.edu.br/revistasaudemultidisciplinar/article/view/81