Que força garante que o sangue arterial vença a gravidade e irrigue o nosso cérebro? A força de contração do músculo cardíaco! E quem garante que o sangue oxigenado alcance o nosso dedão do pé? Essa é fácil: é também o coração.
Eu sei que você já está careca de saber que o coração é o responsável por criar a pressão propulsora do sangue arterial. Mas de quem é o papel de vencer a gravidade e impulsionar o sangue venoso de volta ao coração, partindo dos membros inferiores? Bom, caro colega, essa é a função da bomba muscular esquelética ou bomba venosa.
Logo, por definição, a bomba musculovenosa consiste na ação dos músculos que comprime das veias localizadas no interior ou adjacentes a eles, de modo que o sangue seja propelido contra a gravidade.
POR QUE AS ARTÉRIAS NÃO PRECISAM DE BOMBAS MUSCULARES ESQUELÉTICAS?
De maneira resumida, as paredes dos vasos sanguíneos são compostas por três camadas concêntricas de tecido, denominadas túnicas: túnica íntima, túnica média e túnica adventícia. A túnica íntima, mais interna, é composta pelo endotélio vascular e por uma membrana elástica. A túnica média é formada de músculo liso. A túnica adventícia, por sua vez, é formada por tecido conjuntivo frouxo.
Nesse aspecto, uma das principais diferenças entre as veias e artérias é que estas possuem uma túnica média mais espessa, ou seja, possuem uma maior quantidade de músculo liso em sua composição. Da mesma maneira, a túnica íntima das artérias é dotada de grande quantidade de tecido conjuntivo fibroso e elástico. Confira mais informações no Mapa Mental de Fisiologia e Histologia Vascular da Sanarflix.
A rigidez do tecido fibroso e a camada muscular fazem com que seja necessária uma quantidade significativa de energia para estirar a parede arterial. Essa energia é, portanto, armazenada pelas fibras elásticas, provocando uma retração elástica. Isso permite que elas retransmitam a onda de pressão iniciada pelo ventrículo esquerdo ao ejetar o sangue. Assim, diferentemente das veias, as artérias mantêm uma pressão direcionadora do sangue, uma vez que atuam como reservatórios de pressão.
Logo, as artérias não dependem de bombas musculares esqueléticas para que seu sangue flua, mas sim da bomba muscular cardíaca – o nosso coração.

Outro ponto importante que precisamos considerar é o fato de o fluxo sanguíneo arterial não precisar vencer longos caminhos contra a gravidade, diferentemente do sangue venoso. Perceba que, para que o sangue arterial atinja o nosso cérebro, ele precisa percorrer um caminho bem menor do que o que o sangue venoso dos nossos pés percorre para atingir o átrio direito. Dessa forma, podemos afirmar que o sangue conduzido pelas veias enfrenta maior resistência à força gravitacional.
COMO FUNCIONA A BOMBA MUSCULOVENOSA?
Conforme conversamos lá na introdução, a contração dos músculos provoca aumento de seus diâmetros, resultando numa compressão de veias localizadas internamente ao músculo ou adjacentes a ela. Consequentemente, toda vez que você, mesmo sentado na cadeira, move suas pernas ou até mesmo tensiona os músculos, certa quantidade de sangue venoso é propelida em direção ao coração.
Isso significa que, caso você fique de pé e totalmente imóvel – sem contrair os músculos da perna – por alguns minutos, a pressão venosa vai se tornar tão alta a nível dos seus pés que você pode cursar com edema. Isso ocorreria devido ao aumento abrupto da pressão hidrostática, que provocaria extravasamento de líquido para o espaço intersticial. Ficar 15 a 30 minutos nessa posição pode ocasionar até mesmo um desmaio, uma vez que 10 a 20% de seu volume sanguíneo estaria concentrado nos pés, comprometendo a perfusão cerebral.
Após essa explicação, alguns podem se perguntar: “mas como podemos garantir que esse sangue seja propelido para cima, e não para baixo?”. Bom, caro leitor, quem garante que isso não ocorra são as válvulas venosas, projeções da túnica íntima para o lúmen venoso. Elas estão dispostas de modo que o único sentido do fluxo sanguíneo seja caudo-cranial, impedindo que o sangue contido nas veias caia em direção aos pés.
Assim, a coluna de sangue venoso é sustentada em diversos níveis por essas válvulas. É importante ressaltar que essa coluna é contínua, graças ao influxo constante de sangue através de veias tributárias. Isso garante que a pressão de um dado segmento aumente gradativamente até exceder a pressão do segmento logo acima, forçando a abertura da válvula mais acima.

O QUE ACONTECE QUANDO ESSE MECANISMO FALHA?
Caso haja uma incompetência das válvulas dessas veias, estas podem se tornar veias varicosas. Isso ocorre com frequência quando há alta pressão venosa prologada, distendendo essas veias por longos períodos, provocando perda de elasticidade. Mecanismos como esse podem ocorrer na gravidez ou quando o indivíduo passa a maior parte do tempo em pé.
O aumento contínuo da secção transversa das veias é incompatível com o funcionamento adequado das válvulas, devido à incapacidade de seus folhetos aumentarem de tamanho. O nome dado a esse processo é insuficiência venosa, que corresponde ao fechamento incompleto dos folhetos valvulares. Saiba mais sobre essa condição no texto da Sanar sobre Insuficiência Venosa Crônica.

Por consequência, isso gera falência da bomba venosa, que se torna ineficaz para impulsionar o sangue para cima – já que, na ausência de válvulas, o sangue venoso é impulsionado tanto para cima quanto para baixo pela contração muscular. Com a influência da gravidade, esse sangue passa a se acumular entre as válvulas e a parede venosa.
Em virtude da falência dessa bomba, a pressão venosa continua aumentando progressivamente, gerando um processo inflamatório que pode levar à destruição total da função valvular. Dessa maneira, o indivíduo irá adquirir veias varicosas, que são protrusões bolhosas na pele de toda a perna.

A presença de veias varicosas pode predispor à trombose venosa, que corresponde à coagulação intravenosa do sangue com obstrução parcial ou total do lúmen de uma veia. Isso se deve à estase sanguínea e à lesão endotelial associada, que aumentam a coagulabilidade sanguínea. Saiba mais no texto da Sanar sobre Trombose Venosa Profunda.
Portanto, medidas comuns para prevenir eventos trombóticos nas veias são: elevação das pernas, que favorece o retorno venoso por gravidade; e uso de meias de compressão, que buscam mimetizar a ação da bomba musculoesquelética, prevenindo eventos como edema e suas sequelas.
CONCLUSÕES
Chegamos ao fim do nosso estudo sobre Bomba Muscular Esquelética! Nesse final, vamos apenas ressaltar alguns pontos. Primeiramente, é fundamental saber que essas bombas não são os únicos mecanismos que proporcionam o retorno venoso. Existem outros mecanismos que contribuem para isso, tais como diminuição inspiratória da pressão intratorácica, pressão venosa reduzida no átrio direito, e pressão propulsora do sistema arterial.
Por fim, vamos guardar uma informação com carinho: as bombas venosas não estão presentes apenas nos membros inferiores. Na verdade, qualquer músculo que impulsione o fluxo venoso pode atuar como uma bomba venosa. Nesse texto, demos enfoque ao estudo ao mecanismo presente nos membros inferiores pois essa é a região mais acometida por distúrbios na bomba muscular esquelética. Até mais!
Autora: Larissa Melo
Instagram: @larissamelot
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
REFERÊNCIAS.
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GUYTON, A.C.; HALL, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.
PORTO, Celmo Celeno. Semiologia Médica. 8ª ed. Guanabara Koogan, 2019.
SILVERTHORN, D. U. Fisiologia humana: uma abordagem integrada. 7ª ed. Artmed.