A neuralgia do trigêmeo, uma das condições mais dolorosas conhecidas na medicina, é uma neuropatia craniana que causa dor facial extrema, que afeta o nervo trigêmeo, quinto nervo craniano responsável pela sensibilidade da face.
Portanto, essa condição pode ser debilitante, influenciando negativamente a qualidade de vida dos pacientes, que devido à sua natureza paroxística e intensa, o diagnóstico e tratamento precoce são fundamentais para o manejo eficaz dessa condição.
Apesar de debilitante, a neuralgia do trigêmeo (NT) é uma condição rara, com prevalência inferior a 0,1% na população geral e uma incidência anual de 4 a 13 casos por 100.000 pessoas. Embora seja rara, a NT é uma das neuralgias mais comuns em idosos.
A condição afeta mais frequentemente as mulheres do que os homens, sendo a predominância feminina relacionada à maior longevidade das mulheres. A incidência de NT aumenta com a idade, sendo que a maioria dos casos ocorre após os 50 anos, embora possa se manifestar em pessoas mais jovens e, raramente, em crianças.
O que é a Neuralgia do Trigêmeo?
A neuralgia do trigêmeo é caracterizada por episódios de dor facial severa e unilateral, que são breves, mas intensamente dolorosos, muitas vezes descritos como “choques elétricos”. Essa condição está associada ao nervo trigêmeo, que possui três ramos principais:

- Nervo oftálmico (V1),
- Nervo maxilar (V2)
- Nervo mandibular (V3).
Cada ramo inerva diferentes áreas do rosto e, dependendo do ramo afetado, a dor pode ser localizada na testa, bochechas, mandíbula, ou até mesmo no interior da boca.
Fisiopatologia Neuralgia do trigêmeo
Diversos mecanismos podem levar ao desenvolvimento da neuralgia do trigêmeo (NT), sendo que o mais comum é a compressão da raiz nervosa do nervo trigêmeo.
Assim, esse tipo de compressão geralmente ocorre devido ao contato de uma artéria ou veia com o nervo, o que pode resultar em desmielinização focal e disparos anormais de impulsos nervosos, provocando os episódios de dor intensa característicos da condição.
Embora a compressão nervosa seja o mecanismo mais frequentemente identificado, há outros fatores que podem contribuir para a NT. Lesões no tronco encefálico, embora raras, são responsáveis por uma pequena proporção dos casos. Essas lesões podem resultar de doenças como esclerose múltipla, onde a perda da bainha de mielina afeta a condução normal dos impulsos nervosos.
Em alguns pacientes, a causa da NT permanece idiopática, ou seja, sem uma causa estrutural identificável mesmo após a realização de exames de imagem avançados ou intervenção cirúrgica.
Nesses casos, a sensibilização central do sistema nervoso, que envolve uma resposta aumentada a estímulos devido a alterações nos circuitos neurais, pode desempenhar um papel importante. Além disso, a predisposição genética pode aumentar a vulnerabilidade de alguns indivíduos à NT, sugerindo que fatores hereditários também podem influenciar o desenvolvimento da condição.
Tipos de Neuralgia do Trigêmeo
Classifica-se a neuralgia do trigêmeo em duas categorias principais, de acordo com as causas subjacentes:
- Neuralgia do trigêmeo clássica: Essa é mecanismo mais comum, correspondendo a cerca de 75% dos casos. Assim, frequentemente, a compressão do nervo trigêmeo por uma artéria ou veia causa a desmielinização do nervo, o que leva à dor. A desmielinização é o processo de perda da bainha de mielina, a camada protetora dos nervos, que resulta na condução anormal de sinais nervosos e, consequentemente, na dor.
- Neuralgia do trigêmeo secundário: É causada por uma condição estrutural subjacente, como esclerose múltipla, tumores ou lesões cerebrais. Na esclerose múltipla, por exemplo, a inflamação e a desmielinização dos nervos podem afetar o nervo trigêmeo, causando neuralgia.
- Neuralgia do trigêmeo idiopática: Aproximadamente 10% dos casos são classificados como idiopáticos, onde os pacientes atendem aos critérios diagnósticos, mas os exames de imagem e outros testes não identificam uma causa clara.
Fatores de risco para Neuralgia do trigêmeo
A causa mais comum da neuralgia do trigêmeo é a compressão vascular. No entanto, há outras causas que incluem doenças desmielinizantes, como a esclerose múltipla, e lesões estruturais, como tumores. Fatores de risco incluem:
- Idade avançada: A maioria dos casos ocorre em pessoas com mais de 50 anos.
- Histórico familiar: Existe uma predisposição genética em alguns casos.
- Hipertensão: Pode contribuir para a compressão vascular do nervo trigêmeo.
Manifestações Clínicas
A dor da neuralgia do trigêmeo é a característica clínica mais marcante, e a sua natureza paroxística é um dos aspectos mais debilitantes da condição. Os pacientes geralmente descrevem a dor como lancinante, em “choques” ou “facadas”, desencadeada por estímulos triviais, como falar, mastigar, escovar os dentes ou até mesmo pelo vento que sopra no rosto.
Sintomas característicos
- Episódios de dor: A dor ocorre em episódios que podem durar desde alguns segundos até dois minutos, raramente ultrapassando essa faixa. Esses episódios podem se repetir várias vezes ao longo do dia, possuindo grande variedade, podendo ir de 0 a mais de 50 vezes ao dia.
- Unilateralidade: A dor é quase sempre unilateral, afetando apenas um lado da face. Contudo, ocasionalmente, a dor torna-se bilateral ao longo do tempo, embora raramente em ambos os lados simultaneamente
- Desencadeantes: Atividades cotidianas, como escovar os dentes, mastigar, falar ou tocar levemente o rosto, podem desencadear episódios dolorosos.
- Padrão episódico: A neuralgia do trigêmeo pode entrar em remissão, com períodos sem dor que duram semanas, meses ou até anos. No entanto, os episódios geralmente retornam e podem se tornar mais frequentes e intensos com o tempo.
Impacto na qualidade de vida
A intensidade e a imprevisibilidade da dor causam um impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes. A dor crônica pode levar à ansiedade, depressão e isolamento social. Portanto, muitos pacientes desenvolvem fobia de desencadear a dor, o que pode resultar em alterações no comportamento e evitar atividades diárias normais.
Diagnóstico da Neuralgia do trigêmeo
O diagnóstico da neuralgia do trigêmeo é primariamente clínico, baseado na descrição característica da dor e nos fatores desencadeantes. No entanto, exames de imagem são frequentemente necessários para excluir outras causas de dor facial e confirmar a etiologia da neuralgia.
Critérios diagnósticos
Os critérios diagnósticos, conforme estabelecidos pela International Classification of Headache Disorders (ICHD), incluem as características clínicas compatíveis:
- Dor paroxística unilateral: Episódios recorrentes de dor facial unilateral que ocorrem dentro de uma ou mais divisões do nervo trigêmeo, sem se espalhar para áreas além dessas, atendendo aos critérios B e C
- A dor apresenta as seguintes características: 1) Dura de frações de segundo até dois minutos. 2) É de intensidade severa. 3) É descrita como semelhante a um choque elétrico, disparo, facada ou com uma sensação aguda
- Desencadeantes: A dor é desencadeada por estímulos não dolorosos dentro da área afetada do nervo trigêmeo.
- Não é melhor explicado por outro diagnóstico de ICHD-3
Exames complementares
Recomenda-se que todos os pacientes com diagnóstico clínico de Neuralgia do Trigêmeo realizem exames de imagem, especialmente a ressonância magnética e a angiografia.
- Ressonância magnética: A RM é a modalidade de imagem preferida para avaliar a neuralgia do trigêmeo, sendo particularmente útil para identificar compressões vasculares e excluir tumores ou outras anomalias estruturais que possam estar comprimindo o nervo trigêmeo.
- Angiografia por RM: Pode ser usada para visualizar vasos sanguíneos em relação ao nervo trigêmeo, identificando possíveis compressões vasculares.
- Tomografia Computadorizada (TC): A TC é utilizada como modalidade alternativa a RM e com angiografia por TC, para avaliar anomalias ósseas ou outras estruturas que possam estar contribuindo para a condição.
Diagnóstico diferencial: É crucial distinguir a neuralgia do trigêmeo de outras causas de dor facial, como neuropatia do trigêmeo, cefaleia em salvas, neuralgia pós-herpética, disfunção da articulação temporomandibular e enxaquecas.
Tratamento da Neuralgia do trigêmeo
O tratamento da neuralgia do trigêmeo pode ser desafiador e envolve uma combinação de terapias farmacológicas e cirúrgicas, dependendo da gravidade dos sintomas e da resposta do paciente.
A terapia farmacológica preventiva diária é a base do tratamento para pacientes com NT clássica ou idiopática. Além disso, a terapia de resgate adjuvante é necessária para alívio da dor em curto prazo em crises graves.
Abordagem farmacológica preventiva
Anticonvulsivantes:
A carbamazepina é o tratamento de primeira linha e é eficaz na no controle da dor em até 90% dos pacientes. A oxcarbazepina, um derivado da carbamazepina, amplamente utilizada devido ao seu perfil de efeitos colaterais mais favorável. Esses medicamentos agem estabilizando as membranas nervosas e reduzindo a excitabilidade neuronal, o que diminui os episódios de dor.
Outros Medicamentos:
A gabapentina e a pregabalina são frequentemente usadas como terapias adjuntas, especialmente em pacientes que não toleram os anticonvulsivantes primários. Assim, os antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina, também podem ser eficazes em casos selecionados.
Monitoramento dos Efeitos Colaterais: É essencial monitorar os pacientes para efeitos colaterais, como tontura, fadiga, náusea e visão turva, que são comuns com o uso prolongado desses medicamentos.
Abordagem farmacológica de resgate
Para paciente com dores frequentes, geralmente inicia-se o aumento temporário da dose de medicamentos preventivos, se o paciente ainda não estiver na dose máxima.
Evidências limitadas indicam que lidocaína intranasal ou intravenosa, sumatriptano subcutâneo, fenitoína, fosfenitoína ou lacosamida intravenosa podem aliviar a dor em pacientes com NT.
Tratamento cirúrgico
Indica-se a cirurgia para pacientes que não respondem ao tratamento farmacológico com um ou mais agentes, que possuem sintomas refratários ou que apresentam efeitos colaterais intoleráveis.
Microdescompressão vascular:
Este procedimento envolve a colocação de uma almofada entre o nervo trigêmeo e o vaso sanguíneo que está comprimindo-o, sendo considerado o tratamento cirúrgico mais eficaz para a neuralgia do trigêmeo clássica.
Assim, oferece uma alta taxa de sucesso e alívio duradouro da dor, especialmente indicado para pacientes que possam suportar procedimentos de grande porte.
Radiofrequência
A lesão por radiofrequência do nervo trigêmeo é um procedimento minimamente invasivo que utiliza calor para lesionar seletivamente as fibras nervosas, reduzindo a transmissão da dor. Este método é eficaz, mas pode resultar em perda sensorial em algumas áreas da face.
Radiocirurgia Gama Knife:
Este é um tratamento não invasivo que utiliza radiação focada para lesionar o nervo trigêmeo, aliviando a dor. É uma opção para pacientes que não são bons candidatos à cirurgia tradicional.
Novas terapias e abordagens
Abordagens emergentes, como a neuromodulação e a terapia com toxina botulínica, estão sendo estudadas para o manejo da neuralgia do trigêmeo. A neuromodulação, que envolve a estimulação elétrica de nervos específicos, pode oferecer uma nova abordagem para pacientes com dor refratária. A toxina botulínica, que bloqueia a liberação de neurotransmissores, tem mostrado promissoras em estudos iniciais.
Prognóstico e seguimento
A neuralgia do trigêmeo (NT) tem um curso variável, com episódios de dor que podem durar semanas ou meses, seguidos por períodos de remissão que, geralmente, não ultrapassam alguns meses.
A maioria dos pacientes requer tratamento contínuo para controlar os sintomas, já que a condição tende a oscilar em gravidade e frequência. Estudos indicam que uma pequena porcentagem de pacientes pode interromper o uso de medicamentos após dois anos, mas a maioria permanece em manejo sintomático.
Repercussões a longo prazo
Pacientes com neuralgia do trigêmeo podem enfrentar complicações emocionais e psicológicas devido à natureza crônica e dolorosa da condição. Portanto, a dor constante pode levar à depressão, ansiedade, e isolamento social, aumentando a necessidade de apoio psicológico.
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Referências bibliográficas
- UpToDate. Trigeminal neuralgia. 2024
- Cruccu, G., et al. Trigeminal Neuralgia: New Classification and Diagnostic Grading for Practice and Research. Neurology, 2016.
- Burchiel, K.J. Neurosurgical Treatment of Trigeminal Neuralgia. Clinical Neurosurgery, 2008.