Quem não conhece alguém que já foi a um pronto atendimento e ouviu a seguinte frase do médico “ Isso é uma virose! ”. Mas será que toda diarreia associada à náusea e vômitos é uma virose? O que significa esse termo “virose”? Isso e muito mais é o que abordarei neste texto.
Pois bem, vamos começar pelo início, o que é uma virose? Conforme o Dicionário Ilustrado de Saúde, virose é toda doença provocada por um vírus. O que isso significa? Significa que qualquer doença cujo agente etiológico seja viral configura uma virose, ou seja, a COVID-19 é uma virose, a infecção pelo HIV é uma virose, a infecção por Norovírus, Adenovírus e Rotavírus é uma virose.
Já temos, então, uma conclusão pertinente, o termo “virose” agrupa um amplo conjunto de doenças. Por isso, dizer ao paciente que ele está com “virose” pode não ser tão adequado.
Ótimo! Agora que já sabemos o termo correto, vamos direcionar nossa abordagem para as viroses mais prevalentes que causam a diarreia aguda. Define-se diarreia aguda como a modificação no hábito intestinal com diminuição da consistência das fezes junto ao aumento da frequência (três ou mais evacuações por dia), aumento do volume fecal e com duração inferior a duas semanas.

As etiologias da diarreia se dividem em infecciosas e não infecciosas. Essas geralmente se associam às doenças prévias como: doenças inflamatórias intestinais, diabetes, síndrome do intestino irritável. Dentro do grupo das causas infecciosas, existem as causas não inflamatórias, as quais cerca de 60% são virais (Norovírus, Adenovírus e Rotavírus), 20% bacteriana (Campylobacter, Shigella, Salmonella, Escherichia Coli, Clostridium) e 5% protozooses (Cryptosporidium, Giardia e Ameba). A fisiopatologia se resume por duas causas: aumento de enterotoxina e lesão intestinal com redução da absorção alimentar mediada por agressão direta pelo patógeno ou por citotoxina.
Para a avaliação do quadro é importante saber o início, a consistência e a frequência da diarreia bem como se há ou não febre, náusea, vômitos, anorexia, dor abdominal, sangue ou pus nas fezes e uso medicamentos laxativos. Nas causas por viroses são comuns as náuseas e vômitos serem mais intensos do que a própria diarreia. Deve-se, também, avaliar o consumo de alimentos de procedência duvidosa. O exame físico deve conter a avaliação do quadro de desidratação, a presença de toxemia, icterícia, alteração do estado mental, insuficiência respiratória, oligúria e arritmias. A ausculta, descompressão brusca e palpação devem compor o exame abdominal.
Apesar de todo o cuidado com as queixas de diarreia, o que se nota na maioria dos prontos atendimentos é a Gastroenterocolite Aguda conhecida como “GECA”. A GECA se caracteriza por uma diarreia com ou sem acometimento gástrico (náusea ou vômito), com duração menor do que duas semanas. A GECA, em 90% dos casos, tem como principal agente etiológico os vírus (Norovírus, Adenovírus e Rotavírus).
Por isso, quando o médico identifica esses sintomas, ele diz “Isso é uma virose!”. Nesse caso, ele tem 90% de chance de estar certo. E por ser um quadro bem específico, alguns protocolos nem recomendam solicitar exames para a comprovação do quadro viral.
Então, quando solicitar exames? Conforme o Protocolo Assistencial Pronto Socorro: Gastroenterocolite Aguda, do HCor, só se deve solicitar exames em casos de alarme como: a) Sepse ou choque séptico (protocolo de sepse); b) distúrbios hidroeletrolíticos ou desidratação grave (eletrólitos e função renal); c) idade maior do que 70 anos, pacientes imunossuprimidos, presença de comorbidades, febre persistente, dor abdominal importante e hospitalização recente (investigação etiológica com coproculturas, pesquisa de rotavírus e adenovírus nas fezes) e d) uso recente de antibiótico (pesquisa de toxina A e B).
Lembre-se de que nem toda diarreia é uma virose. É importante fazer o diagnóstico diferencial com as causas bacterianas e as protozooses. A Cólera, por exemplo, causada pela bactéria V. cholerae é muito comum em países subdesenvolvidos. A principal via de transmissão é a água e os alimentos contaminados. As fezes se assemelham à “água de arroz”, com perda líquida de até 1L/h, levando ao quadro de desidratação grave e morte em até três horas, sem um tratamento adequado. O diagnóstico é confirmado pela coprocultura. O tratamento, aqui, deve ser a reposição agressiva de cristaloides e antibióticos (tetraciclinas e as quinolonas).
Como outros exemplos temos: a Enterocolite por Clostridium difficile que está relacionada com o uso de antibióticos (principalmente, clindamicina e cefalosporina); a Entamoeba histolytica que também é causada pela ingestão de água e alimentos contaminados com o cisto da ameba.
Como tratar? Nas crianças, conforme orienta o Guia Prático de Atualização: Diarreia aguda, avalia-se o estado de desidratação observando (condição, olhos, lágrimas, boca e língua e sede) e examinando (sinal da prega, pulso e enchimento capilar) para, a partir disso, escolher um dos três planos: A, B ou C.
Plano A: oferecer mais líquido do que o habitual (tomar líquidos caseiros, soro caseiro, chá, suco); manter a alimentação habitual para prevenir desnutrição (continuar aleitamento, por exemplo); administrar zinco uma vez ao dia, durante 10 a 14 dias (para seis meses de idade: 10mg/dia; já para maior de seis meses: 20mg/dia); se o paciente não melhorar em dois dias ou apresentar sinais de alarme, deve-se solicitar retorno ao serviço de saúde.
Plano B: administrar soro de reidratação oral sob supervisão médica (50 a 100 ml/Kg durante 2 a 4 horas). Manter cuidados semelhante ao Plano A.
Plano C: contempla duas fases pela via endovenosa: 1º) Fase de expansão (menores de 5 anos – Soro fisiológico (SF) 0,9% (20ml/kg) em 30 minutos com reavaliação da hidratação. Em cardiopatas e recém-nascidos o volume é de 10ml/Kg) (maiores de 5 anos – SF 0,9% (30ml/kg em 30 minutos) ou Ringer Lactato (70 ml/Kg em 2,5 horas). 2º) Fase de manutenção para todas faixas etárias – Soro Glicosado 5% + SF 0,9% (4:1) – usar fórmula de Holliday e Segar para reposição. Fornecer líquido oral após 2 a 3 horas.
O que muda no adulto? Conforme o livro “Pronto-Socorro: Medicina de Emergência”, da editora Manole, modifica-se apenas o tempo de administração do SF 0,9% na fase de expansão, sugerindo 20ml/Kg de SF 0,9% em 10 a 15 minutos com repetição da mesma quantidade de volume até estabilização clínica.
Além disso, o uso de sintomático é recomendado conforme a necessidade.
A alta pode ser dada após a melhora clínica com prescrição de sintomáticos, antidiarreico, probiótico (se houver critério clínico) e, por fim, considerar antibióticos (se sinais de alarme).
Por fim, entendemos o que é uma virose e, também, compreendemos que, apesar de ser a grande maioria dos casos, nem todos os quadros de diarreia no pronto atendimento é uma virose. Além disso, compreendemos a GECA e a forma mais adequada para o tratamento. Lembre-se sempre: nem tudo é uma virose!
Autor: Edy Alyson Costa Ribeiro
Instagram: @e.alysonribeiro
Referências:
DEPARTAMENTO CIENTÍFICO DE GASTROENTEROLOGIA. Sociedade Brasileira de Pediatria. Diarreia aguda: diagnóstico e tratamento. Guia Prático de Atualização, [s.l], p.1-15, mar. 2017. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/2017/03/Guia-Pratico-Diarreia-Aguda.pdf. Acesso em: 22 dez. 2021.
LUIZ CARLOS VALENTE DE ANDRADE. Hcor. Protocolo Assistencial Pronto Socorro Gastroenterocolite Aguda. Disponível em: https://www.hcor.com.br/area-medica/protocolos-medicos/. Acesso em: 19 dez. 2021.
MARTINS, Herlon. S.; DAMASCENO, Maria.Cecília.de. T.; AWADA, Soraia. B. Pronto-Socorro: Medicina de Emergência. São Paulo: Editora Manole, 2013. 9788520437087
SILVA, Carlos Roberto Lyra da; SILVA, Roberto Campos Lyra da; VIANA, Dirce Laplaca. Compacto Dicionário Ilustrado de Saúde. 6. ed. São Caetano do Sul: Yendis, 2011.
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