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Miastenia Gravis | Colunistas

miastenia-gravis-Amanda Miranda

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Definição

A Miastenia Gravis é uma doença neuromuscular autoimune da junção neuromuscular, que leva a um defeito na transmissão dos impulsos nervosos à membrana muscular para que o músculo possa contrair.

É causada pela presença de auto-anticorpos que bloqueiam os receptores da acetilcolina (neurotransmissor liberado pelo nervo).

Caracteriza-se por fraqueza e fadiga da musculatura esquelética, após seu uso repetitivo, seguida de recuperação parcial com o repouso. Isso é decorrente da diminuição na disponibilidade dos receptores pós-sinápticos à acetilcolina, através de sua inativação ou destruição por anticorpos circulantes.

Fonte: https://www.spneurologia.com/files/pdf/7_miastenia-gravis_1574163869.pdf

Fisiopatologia

O mecanismo da doença ainda é desconhecido, mas parece existir uma disfunção do sistema imune.

Em geral, associa-se a anormalidades no timo, sendo que 20 a 50% dos pacientes miastênicos apresentam timoma, cuja incidência é maior nos

pacientes acima de 30 anos, que apresentam melhora da sintomatologia após a timectomia. 

Como etiologia, tem-se sugerido influência ambiental e de agentes microbianos, e há relatos de casos da associação da doença com o vírus da hepatite C. Ainda é possível registrar reações cruzadas entre os anticorpos de pacientes com miastenia gravis com o vírus do herpes simplex, além de outras doenças virais. Igualmente importante é a predisposição genética para a doença.

Epidemiologia

Trata-se de uma doença rara, cuja incidência aumentou nas últimas décadas e passou de 2-5/1.000.000 para 9-21/1.000.000, porém, sem haver aumento proporcional na mortalidade.

Cerca de 85% dos pacientes apresentam anticorpos anti-AChR (anti-receptor de acetilcolina). Quando esses são negativos, 40% apresentam anticorpos anti-MuSK e 20% anticorpos anti-LRP4. E 2-5% dos pacientes são soronegativos, não apresentando anticorpos específicos.

A idade de aparecimento é bimodal, com 2 picos de maior frequência: 20-40 anos (mais comum no sexo feminino) e 70-80 anos (mais comum no sexo masculino).

Quadro Clínico

O sintoma principal é a fatigabilidade, ou seja, diminuição progressiva da força muscular com o esforço repetitivo. Pode ser observada nos músculos oculares e das pálpebras, e também nos músculos da mastigação, fonação, deglutição ou dos membros.

* Miastenia ocular = secundária à fraqueza dos músculos oculares e palpebrais, pode surgir queda de uma ou ambas as pálpebras de forma assimétrica e/ou visão dupla.
* Miastenia generalizada = ocorre por envolvimento dos músculos extra-oculares, podendo existir diminuição da mímica facial por fraqueza dos músculos da face, dificuldade em articular as palavras, na mastigação e na deglutição.

A sintomatologia pode limitar-se aos músculos oculares ou apresentar um quadro generalizado de caráter leve ou grave, com exacerbação no final do dia, após atividades extenuantes, ou com o uso contínuo da musculatura extra-ocular. Outros músculos bulbares podem ser afetados, causando disartria, disfagia, regurgitação nasal e comprometimento dos nervos cranianos, o que leva a uma limitação dos movimentos faciais. Esta sintomatologia torna-se mais evidente após atividade contínua dos músculos afetados ou quando o paciente está cansado.

Pode ser agravada por estresse emocional, infecções, gravidez e alguns fármacos contraindicados, como aminoglicosídeos, macrolídeos, beta-bloqueadores, dantroleno e toxina botulínica.

Anormalidades oculares

Frequentemente há queixa de ptose palpebral, visão borrada ou diplopia, particularmente após uma sessão de leitura ou ao final do dia. O envolvimento da musculatura ocular externa estará presente em 90%-95% dos casos em algum momento da doença. Uma maneira de aumentar a sensibilidade da detecção deste achado é pedir ao paciente que olhe para cima de forma sustentada ou abra e feche ambos os olhos repetidamente. Após a manobra, oftalmoplegia completa e nistagmo também podem ser vistos, embora menos frequentes.

Anormalidades de musculatura bulbar e facial

Um terço dos pacientes apresenta dificuldade de mastigação e deglutição, podendo haver, inclusive, emagrecimento associado. Regurgitação nasal de líquidos ou sólidos pode resultar do acometimento dos músculos faríngeos e palatais. Caso haja fraqueza concomitante da língua, disartria e voz anasalada podem sobrevir. Embora menos frequente, a fraqueza facial pode ser detectada, ao se solicitar aos pacientes que fechem os olhos contra resistência.

Envolvimento apendicular

Fraqueza muscular dos membros e do pescoço é encontrada em até 30% dos pacientes, sendo que em apenas 3% o predomínio é distal.

Anormalidades respiratórias

Ocasionalmente, os pacientes podem apresentar-se com insuficiência respiratória por fraqueza diafragmática e de músculos respiratórios assessórios, configurando crise miastênica. Uma maneira eficaz de

avaliar disfunção respiratória à beira do leito é solicitar aos pacientes que contem em voz alta até 20 após uma inspiração máxima. 

Classificação de Osserman

Fonte: https://www.scielo.br/j/rba/a/86BPFXBTrKgJLmVDzVddKJK/?lang=pt&format=pdf

Crise miastênica

Ocorre quando um paciente com miastenia apresenta insuficiência respiratória grave, necessitando de suporte ventilatório.

Pode ser a manifestação inicial ou complicação da doença.

A fraqueza respiratória isolada ou combinada com a paralisia da deglutição é a complicação mais temida, sendo comum na crise miastênica.

15-20% dos pacientes miastênicos podem ter uma crise miastênica ao longo da vida.

Diagnóstico

A história clínica e o exame neurológico (para testar a fatigabilidade muscular) são a chave do diagnóstico, que é, fundamentalmente, clínico.

Sensibilidade e reflexos usualmente são normais.

Uma história detalhada dos sintomas de fraqueza muscular e de fatigabilidade é imprescindível para o esclarecimento de queixas vagas associadas a miastenia gravis. É importante questionar sobre a progressão dos sintomas miastênicos que usualmente afetam os músculos oculares na fase inicial, mas tendem a generalizar-se dentro de 2-3 anos após o diagnóstico.

Um teste altamente específico é a pesquisa dos anticorpos antirreceptor de acetilcolina (anti-AchR). Sua sensibilidade é de 50% na forma ocular e 85% na generalizada.

Os testes neurofisiológicos também são úteis:
– Estudo eletroneuromiográfico: estimulação elétrica repetitiva, realizada durante eletromiografia, é o teste de escolha para avaliação de pacientes com potencial disfunção da junção neuromuscular. O teste será positivo (75% de

sensibilidade) se houver decremento do potencial de ação muscular composto evocado > 10% quando comparados o primeiro e o quarto ou quinto estímulo.

Caso o exame seja normal e ainda permaneça a suspeita diagnóstica, recomenda-se a realização de eletromiografia de fibra única, que apresenta uma sensibilidade de 99%, excluindo virtualmente a miastenia gravis caso sua análise seja normal.

Uma vez confirmado o diagnóstico, deve-se investigar a ocorrência concomitante de outras doenças frequentemente associadas a miastenia. Para tal, recomenda-se a realização de tomografia computadorizada de tórax para investigar aumento de volume do timo (hiperplasia/timoma) e planejar cirurgia se indicada.

Hemograma, função renal e hepática, eletrólitos, velocidade de eritrossedimentação, provas de função tireóidea e de atividade reumática são exames necessários para excluir outras doenças comumente associadas, como outras afecções autoimunes.

Tratamento

O tratamento da Miastenia gravis consiste em: 

1. Melhorar a transmissão neuromuscular com o uso de anticolinesterásicos; 

2. Supressão do sistema imunológico com o uso de corticóides e/ou ciclosporina

3. Diminuição do nível de antígenos circulantes por plasmaférese

– Inibidor da acetilcolinesterase (neostigmina, piridostigmina): tratamento sintomático. Age preservando a acetilcolina da degradação pela colinesterase, conseguindo atingir uma concentração eficaz para a estimulação da membrana pós-sináptica. A dose ótima é determinada de forma empírica, através de aumentos graduais até remissão da sintomatologia.

– Corticoide: imunoterapia de primeira linha. Geralmente levam a uma

melhora ou remissão em aproximadamente 80% dos casos, sendo a

prednisolona o corticosteroide de escolha.

– Outros imunossupressores: azatioprina, micofenolato de mofetil, ciclofosfamida e ciclosporina. São muito eficazes, mas apresentam início de ação mais tardio. Permitem reduzir a dose de corticoide, o qual apresenta muitos efeitos colaterais quando usado a longo prazo.

– Rituximab: anticorpo monoclonal contra uma molécula na superfície das células que produzem os anticorpos. Muito útil em caso de miastenia gravis refratária, isto é, sem resposta à terapêutica imunossupressora convencional.

– Timectomia: geralmente é indicado quando ocorre fraqueza generalizada, em pacientes com menos de 55 anos, embora pacientes mais velhos possam se beneficiar com a cirurgia.

Na crise miastênica, o tratamento é plasmaférese, a qual remove os anticorpos circulantes, ou imunoglobulina humana intravenosa, a qual neutraliza os anticorpos. Ambas são técnicas eficazes e de rápida ação, disponíveis apenas em ambiente hospitalar.

Prognóstico

A mortalidade desses pacientes é baixa, embora as respostas clínicas completas (ausência de sintomas durante 1 ano sem tratamento específico) sejam raras. Muitos pacientes só conseguem o controle dos sintomas com terapia imunossupressora.

Referências

https://www.spneurologia.com/files/pdf/7_miastenia-gravis_1574163869.pdf

https://www.scielo.br/j/rba/a/86BPFXBTrKgJLmVDzVddKJK/?lang=pt&format=pdf

https://www.bjan-sba.org/article/5e498bc40aec5119028b47bd/pdf/rba-43-6-373.pdf

https://www.saudedireta.com.br/docsupload/1339885163pcdt_miastenia_gravis_livro_2010.pdf


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


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