A metástase é causada pelo desprendimento de células cancerígenas que migram através da corrente sanguínea ou linfática para outro sítio. Os órgãos que recebem maior fluxo sanguíneo são os mais acometidos, por isso, a metástase hepática é mais frequente, pois o fígado é um órgão muito vascularizado que recebe dupla irrigação (arterial e porta). Dessa forma, é o 2º local mais frequente de metástase.
Classificação
Existe uma classificação dos tumores hepáticos onde os classificamos em primários e secundários, sendo os secundários decorrentes de uma metástase, e 20x mais frequente que o tumor primário. Ou seja, maior parte dos tumores de fígado apresentam uma origem metastática, que ocorrem por disseminação (linfática, hematogênica ou portal).
Quando o tumor tem origem nos órgãos que drenam para o sistema porta, há chance de uma lesão exclusiva do fígado. Já em tumores com origem em órgãos que drenam para a circulação sistêmica e o sangue passa pelo coração, existe maior chance de ter lesão no fígado e em outros órgãos, diminuindo a chance de ter uma metástase exclusiva do fígado.
Os órgãos que mais frequentemente provocam esse tipo de metástase é o chamado câncer colorretal, pulmão, mama, pâncreas, estômago, rim e colo uterino.
Epidemiologia
– Os sítios mais comuns são os tumores do trato gastrointestinal superior e o câncer colorretal.
– Cerca de metade dos pacientes com câncer metastático de mama e pulmão e 1/3 dos pacientes que tumores metastáticos de bexiga irão desenvolver lesões hepáticas.
– Carcinomas de próstata e ovário não são causas comuns de metástase hepática.
– O linfoma envolve o fígado em 20% dos casos.
– Sarcoma metastático raramente se espalha para o fígado (1/20 casos), preferindo o pulmão.
Diagnóstico da metástase hepática
Podemos diagnosticar a metástase hepática em três situações:
· Antes da identificação do tumor primário: aquele paciente que não apresenta sintomas, fez uma USG e identificou um tumor no fígado, ao se investigar descobriu que era uma lesão metastática e identificou um tumor primário
· Estadiamento de um tumor primário
· Seguimento pós-operatorio
Na maioria das metástases o paciente é assintomático, muitas vezes os sintomas estão relacionados com o tumor primário, no entanto quando sintomático, pode apresentar:
– Dor; perda de peso; febre; hepatomegalia; esplenomegalia; icterícia (em tumores maiores e com grande acometimento hepático – Colestase); ascite → Sinal de CA avançado; edema de MMII (associado à pressão da VCI retrohepática pelo fígado); adenopatia; derrame pleural; hipoglicemia (em sarcomas com grandes metástases hepáticas); fenômenos vasomotores (mais frequente em pacientes com tumores neuroendócrinos, síndrome carcinoide,
diarreia, rubor, cólicas, palpitações, hipotensão, broncoespasmo).
Obs.: a presença de sintomas geralmente sugere uma doença mais avançada.
Exames laboratoriais
– Anemia
– Leucocitose → Na ausência de infecção; pelas grandes massas e possibilidade de grandes áreas necróticas
– Hiperbilirrubinemia
– Fosfatase alcalina → ↑ colestase, abscessos hepáticos e tumores hepáticos (primários ou secundários)
– Transaminases → ↑ SEMPRE que houver crescimento de tumor hepático, seja primário ou não.
Marcadores neoplásicos
A depender do tipo do tumor.
– CA 125 → Tumor de ovário de mama
– CA 15-3 → Ovário e mama
– CEA → Tumores colorretais
– CA 19-9
Tipos de metástase hepática
Circulação portal ≠ Circulação sistêmica
O paciente só tem chance de cura se a metástase hepática for exclusiva do fígado.
Metástase exclusiva do fígado
− Apenas em 4% nos sítios que drenam para a circulação portal
− Outros sítios, como tumor de mama, etc é 10x menos frequente
− Cólon/reto (12-17%) → maior chance de metástase exclusiva do fígado
Logo, a grande maior parte dos pacientes que têm metástase hepática também têm metástase em outros locais.
Tumor colorretal
- Lesões sincrônicas
– Acontece no mesmo momento do tumor primário, ou seja, é aquela que tem um tumor primário e tem a metástase hepática.
– 20-30% tem diagnóstico do tumor colorretal e do fígado no mesmo momento
Obs.: quando temos uma lesão sincrônica devemos sempre tratar o tumor primário primeiro.
- Lesões metacrônicas
– Aquela que surge depois, ou seja, você trata o tumor primário, faz o seguimento do paciente e depois surge a metástase.
– 30% desenvolvem metástase hepática em 3 anos após a ressecção
– Por isso o acompanhamento e rastreio para tentar diagnosticar metástase hepática o mais precocemente possível
Câncer colorretal
O câncer colorretal é a causa mais frequente de metástase hepática e tem uma prevalência importante. Ele é o terceiro câncer mais comum no mundo inteiro, chega a atingir cerca de um milhão de casos e provoca mais de 500 mil mortes por ano. É o que tem melhor prognóstico.

Diagnóstico e estadiamento avaliação radiológica
- Número de nódulos
- Tamanho · Localização
- Comprometimento vascular
- Natureza da lesão
Exames
USG (sensibilidade – 84%)
− Pode ser utilizado, mas geralmente se prefere exames contrastados (trifásicos → TC e RM)
USG intraoperatória (sensibilidade – 96%)
− Detecta lesões não percebidas na TC ou RM em 5-10%
− Acesso a anatomia vascular e hepatectomia segura
− Sempre que se coloca o transdutor em contato direto com a estrutura o exame passa a ter uma acurácia MUITO mais elevada
USG com doppler
− Avaliação da hipertensão portal, invasão tumoral vascular
TC de abdome e RM
− Mais indicados → com constraste e trifásicos
Laparoscopia com USG
− Leva o paciente para a sala de cirurgia e, antes de fazer uma laparotomia, faz uma videolaparoscopia
− Pode mostrar a existência de uma lesão mais avançada (e irressecável) − Diminui o grau de invasão; não precisa fazer a laparotomia
PET SCAN − Alta acurácia − Pode evidenciar pequenas lesões e contraindicar a hepatectomia
Biópsia percutânea − Casos selecionados – Se ainda houver dúvida sobre a natureza do tumor − Tumor inoperável, HNF, adenomas
Tratamento
História natural da metástase hepática sem tratamento
- Sobrevida de 4-24 meses, com mediana menor que 1 ano
- Única → 11 meses
- Múltipla → 7,5 meses
- 2 órgãos → 4 meses
Tratamento → ressecção
- Único tratamento potencialmente curativo
- Só é realizada se for realizada a eliminação do sítio primário; se não for, não tem sentido submeter o paciente ao procedimento
- Se houver possibilidade de retirada da lesão primária sempre considerar a retirada das metástases
- Ressecção – Mama, pâncreas, estômago, órgãos pélvicos e pulmões
Critérios de inclusão para ressecção hepática
- Fígado → único local (metástase exclusiva)
- Tumor primário ressecável, controlado, controlável
- PS > 60% → Bom estado de performance, que aguente uma cirurgia de grande porte
- Expectativa de vida > 2 meses
- Quando a ressecção planejada permita deixar ≥ 2 segmentos ou 1% do peso corporal do fígado → muito importante→ estimativa realizada pela tc ou rm
Indicações da ressecção hepática
| ESTABELECIDAS | DISCUTÍVEIS |
| Colorretal | Mama |
| Neuroendócrino | Adrenal |
| Rim | Útero |
| Seminoma | Ovário |
| Sarcoma | *Os resultados são mais limitados |
Tumores com maus resultados
- Melanoma
- Pâncreas
- Estômago
- Vesícula
- Cabeça e pescoço
- Sítio primário desconhecido
A ressecção nesses casos só é indicada após estudo radiológico rigoroso e em pacientes que tenham estágio geral muito bom e com ótima cirurgia de ressecção do tumor primário.
Downstaging
- Uso de terapia neoadjuvante para transformar um tumor irressecável em ressecável
- Aumenta a chance de conseguir fazer a hepatectomia
- Pode ser por quimioterapia, quimioembolização etc.
Segmentação hepática
Divisão de segmentos hepáticos que têm autonomia morfofuncional suficiente (irrigação, drenagem biliar, drenagem sanguínea própria) para se manter funcionante mesmo após a ressecção de uma outra região.
A partir desse estudo foi possível ter a certeza de que, mesmo retirando segmentos hepáticos, o restante deixado não vai sofrer isquemia – só é necessário retirar o segmento lesionado (com a margem).
Cirurgia
Exemplos de hepatectomias clássicas:
- Hepatectomia direita
Retirada dos segmentos V, VI, VII e VIII - Hepatectomia esquerda
Segmentos II, III e IV - Hepatectomia direita ampliada (antes chamada de trissegmentectomia direita)
Segmentos VI + V, VI, VII e VIII - Hepatectomia esquerda ampliada (antes trissegmentectomia esquerda)
Segmentos II, III e IV + VIII e V
OBS: Sempre com margem mínima de 1 cm. O tamanho do fígado remanescente precisa ser muito bem avaliado. É necessário deixar 2 segmentos OU 10% do peso corporal.
Embolização portal
Se a área de ressecção for muito grande, pode-se realizar uma quimioembolização da veia porta (embolização portal) do lobo que será retirado para atrofia-lo e fazer com que mais sangue rico em fatores hepatotróficos siga para o lobo hepático remanescente.
Exemplo: Trissegmentectomia direita → Embolização da veia porta direita para induzir atrofia dos segmentos que serão retirados (VI + V, VI, VII e VIII) e crescimento do lobo que permanecerá (III e IV).
Complicações e morbimortalidade
Mesmo com ótima sobrevida, ainda é uma cirurgia de grande porte e o paciente pode complicar.
- Morbidade → 44,5%
- Mortalidade → 8,4%
Obs: Insuficiência hepática → a insuficiência por ser transitória ou permanente, podendo levar o paciente a óbito. entretanto, comparando a cirurgia com todas as outras opções de tratamento, mesmo com maior mortalidade, ainda se observa melhor resultado, menor índice de reincidência e é o único com potencial de cura. praticamente todos os outros são considerados paliativos.
Prognóstico
Predicting recurrance after hepatic resection for metastatic colorectal câncer – Clinical risk score (CRS) → Annals of Surgery, 1999
O paciente tem maior risco de reincidência da doença após ressecção hepática a depender do:
Escore de risco clínico CRS:
1) Status do tumor primário (estadiamento, grau de invasão etc.)
2) Intervalo “disease-free” da descoberta do tumor primário para a metástase hepática < 12 meses
− O melhor prognóstico é para o paciente que se opera o tumor primário e após no mínimo 12 meses se aparecem/se descobre as metástases hepáticas
− Fatores de risco para pior prognóstico → Tumor sincrônico (descoberta do tumor primário junto às metástases) e metástase hepática aparecendo nos primeiros 12 meses após ressecção do tumor primário
3) Número de tumores > 1 − Quanto menos tumores, melhor o prognóstico − Ideal – 1 − A partir de 4 nódulos o prognóstico é “mais reservado”
4) Nível CEA no pré-op > 200 ng/mL − ↑ CEA, pior prognóstico
5) Maior tumor > 5 cm − Tumores > 5cm apresentam pior prognóstico
A depender da quantidade de critérios observados, a sobrevivência é alterada.
- Sobrevivência atuarial global 37% a 5 anos, 22% a 10 anos
E se: × CRS = 1 → Sobrevivência atuarial 60%
CRS = 5 → 14%
CRS 1-2: Melhor prognóstico
CRS 3-4: Terapia adjuvante agressiva
CRS 5: Sobrevivência livre de doenças é muito rara e alta incidência de doença extra-hepática → PET scan pré-operatório e avaliação laparoscópica
Tratamento não cirúrgico
- QT sistêmica ou local
- Quimioembolização
- Hipertermia
- Crioterapia
- Alcoolização
- Tx hepático
Qt sistêmica fudr (fluxuridina)
Aumenta a sobrevida resposta → não é taxa de cura; apenas controla a doença
- 5-FU (5-Fluoracil) → 20% de resposta
- FUDR (floxiuridina)
- Se associação do 5-FU + Oxaliplatina ou irinotecano → 40 a 75% de resposta
Quimioembolização arterial
Mais para tumor exclusivo do fígado porque é bem local
- Fígado → Dupla irrigação
- Quimioembolização do suprimento sanguíneo tumoral
- Redução da toxicidade → Evita o efeito sistêmico do quimioterápico porque não tem doença extrahepática; otimiza o tratamento porque potencializa o efeito quimioterápico local
- Quimioterápicos utilizados → Fluorodeoxyuridine, doxorrubicina, cisplatina e mitomicina
- Geolfoam e lipiodol − Isquemia e prolongamento do contato com o quimioterápico − Induz necrose hepática local
- Tumores neuroendócrinos (Melhor resultado com HCC)
- As drogas mais utilizadas atualmente são DOXORRUBICINA, associada ou não com mitomicina ou cisplatina, e IRINOTECANO
Radiofrequência
- Lesão térmica – 60 a 100°C
- Guiado por USG ou TC
- Mortalidade de 2%
- Indicada para tumores pequenos
Alcoolização
- Baixo custo
- Complicações – 1,7%
- Indicada para grandes tumores
- mecanismo → desidratar a célula tumoral e causar necrose
- morbidade de 4,6%
- mortalidade de 0,7%
Crioterapia
- 20°C a -30°C
- Precisa de anestesia
- Acesso tradicional ou via laparoscópica
- Mais utilizada nos tumores renais, mas está começando a ser utilizada nos tumores hepáticos
Autora: Bianca Santos
Instagram: @biancasants
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
Artigo de Metástase hepática da Biblioteca Virtual em Saúde – http://files.bvs.br/upload/S/0047-2077/2014/v102n2/a4192.pdf
Revista do colégio Brasileiro de Cirurgiões – Manejo atual das metástases hepáticas de câncer colorretal – https://www.scielo.br/j/rcbc/a/Fw5xVDvRbN7TmJq6H4bBMzS/?lang=pt
Revista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica – https://www.sbcp.org.br/revista/nbr243/P262_265.htm
I CONSENSO BRASILEIRO DE TRATAMENTO MULTIDISCIPLINAR DE METÁSTASE HEPÁTICA COLORRETAIS – https://www.scielo.br/j/abcd/a/jtQK6dGCKPrXxQDLZgkqzxH/?lang=pt&format=pdf