Fisiologia da Circulação Fetal
A circulação fetal difere da extrauterina anatômica e funcionalmente. Ela é estruturada para suprir as necessidades de um organismo em crescimento rápido num ambiente de hipóxia relativa. A única conexão entre o feto e o meio externo é a placenta. Antes do nascimento, o sangue proveniente da placenta, com cerca de 80% de saturação de oxigênio, retorna para o feto pela veia umbilical.
Quando chega ao fígado, a maior parte desse sangue flui pelo ducto venoso diretamente para a veia cava inferior, sem passar pelo fígado. Um volume menor de sangue entra nos sinusóides hepáticos e se mistura com o sangue da circulação porta. O mecanismo de esfíncter no ducto venoso fecha a entrada da veia umbilical e regula o fluxo sanguíneo umbilical pelos sinusóides hepáticos. Esse esfíncter se fecha quando a contração uterina faz com que o retorno venoso seja muito alto, evitando sobrecarga para o coração.
Após um pequeno percurso na veia cava inferior, onde o sangue placentário se mistura com o sangue não oxigenado que retorna dos membros inferiores, ele entra no átrio direito. Após a entrada, é levado para o forame oval pela veia cava inferior, de modo que um volume maior do sangue passa diretamente para o átrio esquerdo. Um pequeno volume de sangue não consegue fazer isso por causa da extremidade inferior do septo secundário, a crista dividens, e permanece no átrio direito. Ali, ele se mistura com o sangue pobre em oxigênio que retorna da cabeça e dos braços através da veia cava superior.
No átrio esquerdo, onde ele se mistura com um pequeno volume de sangue pobre em oxigênio que retorna dos pulmões, o sangue entra no ventrículo esquerdo e na aorta ascendente. Uma vez que, as artérias coronárias e carótida são as primeiras ramificações da aorta ascendente, a musculatura cardíaca e o cérebro são abastecidos com sangue rico em oxigênio.
O sangue pouco oxigenado da veia cava superior flui através do ventrículo direito para o tronco pulmonar. Durante a vida fetal, a resistência nos vasos pulmonares é alta, de modo que, boa parte desse sangue passa diretamente pelo ducto arterioso para a aorta descendente, onde se mistura com o sangue da aorta proximal. Após sua passagem pela aorta descendente, o sangue flui para a placenta pelas duas artérias umbilicais. A saturação de oxigênio nas artérias umbilicais é de aproximadamente 58%. Ao longo de seu percurso desde a placenta até os órgãos do feto, o sangue na veia umbilical perde gradualmente seu alto teor de oxigênio à medida que se mistura com o sangue pobre em oxigênio.
Teoricamente, a mistura sanguínea ocorre nos seguintes locais:
- Fígado, pela mistura com um pequeno volume de sangue que retorna do sistema porta.
- Veia cava inferior, que carrega sangue desoxigenado que retorna dos membros inferiores, da pelve e dos rins.
- Átrio direito, pela mistura com o sangue da cabeça e dos membros superiores.
- Átrio esquerdo, pela mistura com o sangue que retorna dos pulmões.
- Entrada do ducto arterioso na aorta descendente.
Transição para a Circulação Neonatal
Alterações no sistema vascular ao nascimento são causadas pela cessação do fluxo sanguíneo placentário e pelo início da respiração. Depois que o ducto arterioso se fecha pela contração muscular de sua parede, o volume de sangue que flui pelos vasos pulmonares aumenta rapidamente. Isso, por sua vez, aumenta a pressão no átrio esquerdo. Simultaneamente, a pressão no átrio direito diminui como resultado da interrupção do fluxo sanguíneo placentário.
O septo primário é, então, aposto ao secundário, e o forame oval se fecha funcionalmente. Em resumo, ocorrem as alterações a seguir no sistema vascular após o nascimento. O fechamento das artérias umbilicais, acompanhado pela contração da musculatura lisa em suas paredes, é provavelmente causado por estímulos térmico e mecânico e pela variação na tensão de oxigênio. Funcionalmente, as artérias se fecham alguns minutos após o nascimento, embora a obliteração final do lúmen por proliferação fibrosa leve entre 2 e 3 meses. As partes distais das artérias umbilicais formam os ligamentos umbilicais médios, e as partes proximais permanecem abertas, assim como as artérias vesicais superiores.
O fechamento da veia umbilical e do ducto arterioso ocorre logo após o fechamento das artérias umbilicais. Assim, o sangue da placenta pode entrar no recém-nascido por algum tempo após o nascimento. Após a obliteração, a veia umbilical forma o ligamento redondo hepático na margem inferior do ligamento falciforme. O ducto venoso, que segue do ligamento redondo até a veia cava inferior, também é ocluído e forma o ligamento venoso.
O fechamento do ducto arterioso ocorre pela contração da sua parede muscular quase imediatamente após o nascimento e é mediado pela bradicinina, uma substância liberada pelos pulmões durante a insuflação inicial. Acredita-se que a oclusão anatômica completa pela proliferação da íntima leve entre 1 e 3 meses. No adulto, o ducto arterioso ocluído forma o ligamento arterioso.
O fechamento do forame oval é causado pelo aumento de pressão no átrio esquerdo combinado com diminuição da pressão do lado direito. A primeira respiração pressiona o septo primário contra o septo secundário. Entretanto, durante os primeiros dias de vida, esse fechamento é reversível. O choro do recém-nascido cria um desvio da direita para a esquerda, que é responsável por episódios cianóticos dos recém-nascidos. A aposição constante leva gradualmente à fusão dos dois septos em cerca de 1 ano. Contudo, em 20% dos indivíduos, um fechamento anatômico perfeito nunca ocorre havendo assim, a persistência do forame oval.
Resumo das principais características que diferenciam a circulação fetal e neonatal
| Circulação Fetal | Circulação Neonatal | |
| Pulmão | Não é funcional. Logo, o feto não respira | É funcional, substituído pela placenta |
| Orifício oval, ducto arterioso e ducto venoso | Funcionam | Param de funcionar |
| Vasos umbilicais | Necessários | Não necessários |
| Esfíncter do ducto venoso | Não contraído | Contraído |
| Pressão sanguínea na veia cava inferior e no átrio direito | Alta em relação a extrauterina | Baixa em relação a fetal |
| Fluxo sanguíneo pulmonar | Alto | Baixo |
| Paredes das artérias | Menos delgadas | Mais delgadas |
| Orifício oval | Aberto | Fechado |
| Aorta | Menor pressão | Maior pressão |
Sugestão de leitura complementar
- Parto livre no mar: quais os riscos desse procedimento?
- O que é o programa de especialização em ultrassonografia do Cetrus?
- Aborto induzido: o que é, legislação e polêmicas
- Candidíase vulvovaginal: causas, sintomas, diagnóstico e tratamento
- Qual a relação entre diabetes mellitus e candidíase?
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
- Elderstone DI, Rudolph AM, Heyman MA – Effects of hypoxemia and decreasing umbilical flow on liver and ductus venosus blood flow in fetal lambs. Am J Physiology 1980; 238: H656.
- Johnson P, Sharland G, Allan LD, Tynan MJ, Maxwell DJ – Umbilical venous pressure in nonimmune hydrops fetalis: correlation with cardiac size. Am J Obstet Gynecol 1992; 167: 1309
- MATTOS, Sandra S. Fisiologia da Circulação Fetal e Diagnósticos das Alterações Funcionais do Coração do Feto. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, São Paulo, v.69, n.3, 1997.
- Tortora, Gerar J. Corpo Humano Fundamentos de Anatomia e Fisiologia. Artimed Edtografia, São Paulo, 1997.
- KEITH L. MOORE/ T.V.N. PERSAUD. Embriologia Clínica- 8° edição- Elsevier Editora Ltda. Rua Sete de Setembro, 111 – 16° andar 20050-006 – Centro – Rio de Janeiro – RJ – Brasil
- Confira nosso Box de Fisiologia
- Querendo estudar mais sobre Pediatria? Confira o Yellowbook Pediatria e o Manual de Urgências e Emergências em Pediatria
- Querendo estudar mais sobre G.O.? Confira o Yellowbook G.O. e o livro de Casos Clínicos em Ginecologia e Obstetrícia