Introdução sobre mastologia benigna
A queixa mais comum nos consultórios de mastologia é a descoberta de um nódulo mamário causado por alterações funcionais benignas das mamas que pode ser caracterizada pelo espessamento e a nodularidade do tecido mamário.
O termo “alterações funcionais benignas das mamas (AFBM)” foi recomendado pela Sociedade Brasileira de Mastologia, em 12 de março de 1994, numa reunião de consenso, em São Paulo.
Embora ainda imperfeita, esta denominação representa melhor a verdadeira natureza do processo e, aos poucos, vai se introduzindo na cultura médica brasileira.
De maneira simplista e excludente, poderíamos definir as AFBM como um conjunto de alterações benignas, não neoplásicas e não inflamatórias, que acomete o lóbulo mamário, de natureza hormonal. Trata-se da queixa mamária mais comum em consultórios de mastologia e ginecologia.
Fisiopatologia
Os nódulos de mama benignos mais comuns são os fibroadenomas, que podem ocorrer em qualquer faixa etária, porém sendo mais prevalente em mulheres com idade entre 15 e 25 anos.
Os fibroadenomas representam lesões benignas de formato nodular que possuem crescimento limitado, geralmente medem entre 2cm a 3cm. Podem ser localizados geralmente no quadrante superior lateral, mas podem ocorrer em qualquer quadrante. Tem característica dura (sólido), móvel, liso e indolor. Na maioria das vezes é único e além da forma clássica pode se apresentar mais raramente nas formas juvenil, gigante, complexa e extramamária.
A fisiopatologia é desconhecida, porém existe associação com as alterações hormonais, alterações do balanço eletrolítico aquoso das mamas e até mesmo fatores alimentares (dieta rica em cafeínas e metilxantinas – estimula a proliferação epitelial, provavelmente formando cistos e fibrose, e causando sintomatologia dolorosa)
As características histológicas do fibroadenoma podem influenciar no risco de câncer de mama. O risco subsequente é ligeiramente elevado somente se o fibroadenoma for complexo, se o tecido adjacente incluir doença proliferativa ou se a paciente tiver histórico familiar de câncer de mama.
No entanto, para a maioria das mulheres, a presença de fibroadenoma simples não aumenta o risco de desenvolver doença maligna.
Formas clínicas
As alterações funcionais benignas das mamas (AFBM) podem se apresentar de quatro formas distintas ou mescladas:
- Mastalgia cíclica;
- Mastalgia acíclica;
- Mastalgia não mamária;
- Derrame ou descarga papilar;
- Adensamento-nodularidade difusa;
- Cistos.
Diagnóstico de mastologia benigna
No exame clínico das mamas, o fibroadenoma apresenta-se como um tumor fibroelástico, móvel, não aderido ao tecido que o rodeia, delimitado com dimensões que podem ser de aproximadamente 2 a 3 cm. O fibroadenoma gigante pode alcançar até 6 a 7cm.
Geralmente, os nódulos são assintomáticos, exceto durante a lactação e gravidez, essas condições podem estimular o seu crescimento rápido e causar dor por infarto. Além disso, o uso de estrogênio também pode gerar desconforto ou aumento de tamanho.
O diagnóstico é essencialmente clínico, porém a ultrassonografia das mamas pode ser realizada, assim como a punção aspirativa por agulha fina (PAAF) sendo bem indicada nos casos em que será adotada conduta expectante ou em pacientes de idade mais avançada.
Outros métodos complementares também podem ser utilizados como:
- Mamografia;
- Citologia;
- Biópsia.
Tratamento de mastologia benigna
Nas pacientes jovens, com menos de 25 anos e portadoras de tumores pequenos, pode ser feito o acompanhamento clínico, com exame físico e/ou ultrassonografia a cada 6 meses
O tratamento utilizado para as alterações funcionais benignas das mamas (AFBM) podem ser:
- Cistos: a punção é considerada diagnóstica e terapêutica, é realizada uma aspiração com agulha fina. Em casos de cistos simples e assintomáticos não é necessário nenhum tipo de tratamento;
- Derrame papilar: a técnica mais utilizada de tratamento é a retirada dos ductos principais da mama por meio de uma incisão periareolar;
- Adensamentos-nodulares: não precisam de nenhuma terapêutica, se não apresentar problema oncológico e desacompanhado de sintomatologia dolorosa.
- Mastalgia (cíclica, acíclica, não mamária): a maioria não há necessidade de tratamentos medicamentosos, algumas medidas não medicamentosas podem ser úteis. Apenas os casos de mastalgia muito intensa que causam prejuízo na qualidade de vida devem ser tratados com medicamentos.
Considerações finais
Esse artigo tinha como objetivo dissertar sobre a mastologia benigna de forma clara, objetiva e ampla. Afins de dissertar sobre doenças mamárias benignas que compõem a grande maioria das queixas mamárias do dia-a-dia do ginecologista. É importante saber distingui-las com acurácia, evitando iatrogenias, ao indicar procedimentos cirúrgicos desnecessários e dispendiosos para pacientes com nódulos sólidos à ecografia. Por meio dos métodos diagnósticos atuais, seja por mamografia, ultrassonografia, citologia ou biópsia com agulha grossa, pode-se propor com segurança o acompanhamento clínico da grande maioria destas afecções e indicar com precisão os casos que deverão ser excisados cirurgicamente.
Autora: Lígia Soares Tissi
Instagram: @ligiatissi_
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
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Referências:
https://scielosp.org/article/sausoc/2020.v29n3/e180753/pt/
https://www.scielo.br/j/rbgo/a/WNYzrcNtfVfCYWhRnCpT45m/?lang=pt
Rotinas em mastologia / Carlos H. Menke … [et al]. 2. ed. – Porto Alegre: Artmed, 2007.
Franco, Josélio Martins. Mastologia: formação do especialista / Josélio Martins Franco. – São Paulo: Editora Atheneu, 1997.
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