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Mamografia aos 40 ou aos 50 anos? Por que as diretrizes divergem

Uma mulher segurando um laço rosa para conscientização sobre o cancer de mama

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Ministério da Saúde, sociedades médicas brasileiras e diretrizes internacionais apresentam recomendações diferentes sobre quando iniciar a mamografia de rastreamento.

Entender por que essas orientações divergem ajuda o médico a avaliar riscos e benefícios e a conduzir uma decisão compartilhada com a paciente.

Mamografia aos 40 anos: uma situação comum no consultório

Ana tem 43 anos, é assintomática e não apresenta história familiar relevante. Durante uma consulta na Unidade Básica de Saúde (UBS), conta que leu que “agora pode fazer mamografia aos 40 anos” e pergunta se deve realizar o exame.

Ao consultar diferentes documentos de referência, o médico pode encontrar recomendações distintas.

Isso acontece porque as diretrizes consideram de maneiras diferentes fatores como redução da mortalidade, risco de falso-positivo, sobrediagnóstico, exposição à radiação e características epidemiológicas da população.

Por isso, a questão não se resume apenas a escolher entre 40 ou 50 anos.

O que as principais diretrizes recomendam sobre mamografia?

Ministério da Saúde

Segundo a Nota Técnica nº 626/2025, o rastreamento populacional do câncer de mama no SUS é indicado para mulheres de 50 a 74 anos, com mamografia a cada dois anos.

Para mulheres de 40 a 49 anos, sem sinais ou sintomas, o SUS não restringe o acesso à mamografia de rastreamento por demanda, desde que a paciente seja orientada por um profissional de saúde sobre os possíveis riscos e benefícios do exame.

A nota também informa que, em 2024, mais de 1 milhão de mamografias de rastreamento foram registradas em mulheres com menos de 50 anos, correspondendo a 28,1% dos exames.

O documento permanece como orientação até a publicação de novas diretrizes nacionais.

CBR, SBM e Febrasgo

A recomendação conjunta do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) é diferente.

As entidades recomendam mamografia anual dos 40 aos 74 anos para mulheres com risco habitual.

A Sociedade Brasileira de Mastologia informa que defende o início do rastreamento aos 40 anos, com periodicidade anual, desde 2008.

USPSTF

A US Preventive Services Task Force (USPSTF) recomenda, desde 2024, a realização de mamografia a cada dois anos dos 40 aos 74 anos, com grau de recomendação B.

Na recomendação anterior, o rastreamento entre os 40 e 49 anos era tratado como uma decisão individual.

Força-Tarefa Canadense

A Força-Tarefa Canadense sugere não realizar rastreamento sistemático com mamografia entre os 40 e 49 anos.

Entretanto, mulheres que, depois de receberem informações sobre benefícios e possíveis danos, desejarem realizar o rastreamento devem ter acesso ao exame a cada dois ou três anos.

Trata-se de uma recomendação condicional, baseada em evidências classificadas como de certeza muito baixa.

Segundo o documento, nessa faixa etária os potenciais danos do rastreamento podem superar seus benefícios.

Diretrizes europeias

A European Commission Initiative on Breast Cancer (ECIBC) recomenda fortemente o rastreamento bienal para mulheres entre 50 e 69 anos.

Para mulheres entre 45 e 49 anos, a orientação é condicional. Pode-se considerar a realização da mamografia em intervalos de um a três anos, de acordo com a adaptação da recomendação.

Embora analisem grande parte da mesma literatura científica, essas organizações atribuem pesos diferentes aos benefícios e aos possíveis danos do rastreamento. É daí que surgem muitas das divergências.

Por que as recomendações sobre mamografia divergem?

As diferenças entre as diretrizes não significam necessariamente que uma esteja correta e outra errada.

Cada organização considera aspectos distintos da evidência e estabelece diferentes limites para avaliar a relação entre benefício e dano.

O benefício existe, mas é pequeno em termos absolutos

O ensaio UK Age randomizou 160.921 mulheres de 39 a 41 anos para realizar mamografia anual até os 48 anos ou seguir o rastreamento habitual a partir dos 50 anos.

Após seguimento mediano de 22,8 anos, houve redução significativa da mortalidade por câncer de mama nos primeiros dez anos:

  • 83 mortes no grupo submetido à intervenção;
  • 219 mortes no grupo controle;
  • RR de 0,75;
  • IC 95% de 0,58 a 0,97.

Após esse período, entretanto, a diferença deixou de ser estatisticamente significativa:

  • 126 mortes no grupo de intervenção;
  • 255 mortes no grupo controle;
  • RR de 0,98;
  • IC 95% de 0,79 a 1,22.

Os autores interpretaram que a redução relativa da mortalidade diminuiu depois dos primeiros dez anos, embora a redução absoluta tenha permanecido constante.

As diretrizes favoráveis ao início do rastreamento aos 40 anos tendem a valorizar o benefício observado inicialmente. Já as recomendações mais cautelosas atribuem maior peso à redução desse efeito ao longo do tempo.

Os possíveis danos têm maior impacto nas mulheres mais jovens

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta entre os possíveis danos relacionados ao rastreamento mamográfico:

  • resultados falso-positivos;
  • resultados falso-negativos;
  • sobrediagnóstico;
  • sobretratamento;
  • exposição à radiação ionizante.

Na prática, um dos impactos mais perceptíveis para a paciente é a necessidade de realizar exames complementares após um resultado inconclusivo ou suspeito, além da ansiedade associada a essa investigação.

A epidemiologia brasileira também influencia as recomendações

A Febrasgo cita que mulheres entre 40 e 49 anos representam aproximadamente 23% dos casos de câncer de mama no Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde.

Essa característica epidemiológica ajuda a explicar por que sociedades médicas brasileiras defendem o início do rastreamento mais cedo.

O mesmo dado pode levar a interpretações diferentes

O Institute for Quality and Efficiency in Health Care (IQWiG), da Alemanha, concluiu que existem indícios de benefício da mamografia entre mulheres de 45 e 49 anos e que os possíveis danos são superados pelo benefício relacionado à sobrevida específica.

Ao mesmo tempo, o instituto ressalta que a vantagem comprovada nos estudos é pequena do ponto de vista individual.

Por isso, a avaliação dos possíveis benefícios e danos continua fazendo parte da decisão clínica.

Como decidir sobre a mamografia com a paciente?

Diante das diferentes recomendações, uma pergunta mais útil do que simplesmente “40 ou 50 anos?” é:

Qual estratégia de rastreamento faz sentido para esta paciente?

Alguns passos podem ajudar nessa decisão.

1. Confirme se realmente se trata de rastreamento

Antes de discutir a idade para iniciar a mamografia, confirme que a mulher está assintomática.

Achados como:

  • nódulo mamário;
  • alteração da pele;
  • alteração do mamilo;
  • descarga papilar suspeita;
  • linfonodo axilar aumentado;

mudam a abordagem.

Nessas situações, deixa-se de falar em rastreamento e passa-se para uma investigação diagnóstica, com outra prioridade de acesso e avaliação.

2. Avalie o risco individual de câncer de mama

Considere fatores como:

  • história familiar;
  • grau de parentesco;
  • idade do familiar no momento do diagnóstico;
  • história familiar de câncer de ovário;
  • antecedentes pessoais;
  • radioterapia torácica prévia.

A diretriz brasileira conjunta aborda separadamente mulheres consideradas de risco aumentado, como aquelas com:

  • mamas densas;
  • hiperplasia atípica;
  • tratamento prévio para câncer de mama;
  • radioterapia torácica antes dos 30 anos;
  • mutação genética associada ao câncer de mama;
  • história familiar significativa.

3. Explique benefícios e possíveis danos

Sempre que possível, apresente benefícios e riscos em números absolutos.

Explicar apenas que a mamografia “detecta o câncer mais cedo”, sem abordar a possibilidade de falso-positivo, exames adicionais e sobrediagnóstico, apresenta apenas uma parte da discussão.

A decisão informada depende da compreensão dos dois lados.

4. Considere as preferências da paciente

As pacientes podem atribuir pesos diferentes aos mesmos riscos.

Algumas aceitam uma maior possibilidade de serem convocadas para novos exames em troca da chance de detecção precoce.

Outras preferem evitar intervenções adicionais e aguardar a idade recomendada pelo programa populacional.

Essas preferências devem fazer parte da decisão.

5. Defina a periodicidade e registre a decisão

Além da idade de início, é importante estabelecer o intervalo entre os exames.

O Ministério da Saúde recomenda rastreamento a cada dois anos entre 50 e 74 anos.

Já a recomendação conjunta das sociedades médicas brasileiras orienta mamografia anual a partir dos 40 anos para mulheres de risco habitual.

É importante registrar qual recomendação foi considerada na decisão compartilhada com a paciente.

6. Combine o seguimento do resultado

A solicitação da mamografia não encerra o cuidado.

Defina:

  • quem acompanhará o resultado;
  • como a paciente será informada;
  • qual será a conduta caso haja alguma alteração.

Esse planejamento reduz o risco de perda de seguimento após o exame.

Mamografia aos 40 anos: o que evitar na prática clínica?

Algumas condutas e interpretações podem gerar confusão.

“Agora o SUS recomenda mamografia aos 40 anos”

Essa afirmação deve ser evitada.

O Ministério da Saúde mantém a recomendação de rastreamento populacional entre 50 e 74 anos.

Para mulheres de 40 a 49 anos, o SUS não restringe o acesso à mamografia de rastreamento por demanda após orientação profissional.

Permitir o acesso e recomendar o rastreamento populacional são conceitos diferentes.

Usar mamografia de rastreamento para investigar sintomas

Uma paciente com nódulo palpável ou outro sinal suspeito não está em uma situação de rastreamento.

Ela precisa de investigação diagnóstica apropriada.

Solicitar o exame sem planejar o acompanhamento

O cuidado não termina com a emissão do pedido.

O resultado precisa ser acompanhado e, caso seja alterado, a paciente deve ter um fluxo claro para investigação complementar.

Afinal, a mamografia deve começar aos 40 ou aos 50 anos?

Não existe uma única resposta aplicável a todas as mulheres.

As diretrizes respondem a perguntas diferentes.

Uma política pública precisa avaliar o que deve ser oferecido sistematicamente para toda uma população. Sociedades médicas podem avaliar o que consideram adequado recomendar individualmente. E o médico precisa adaptar essas informações ao risco e às preferências da paciente que está diante dele.

Na Atenção Primária à Saúde, o papel do profissional é justamente conectar esses dois níveis: o que as recomendações dizem para uma população e o que faz sentido para aquela mulher individualmente.

Referências

  1. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 626/2025-CGCAN/DECAN/SAES/MS. gov.br/saude, 2025.
  2. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Detecção precoce do câncer de mama. gov.br/inca.
  3. Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem; Sociedade Brasileira de Mastologia; Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Recomendações para o rastreamento do câncer de mama no Brasil. Radiologia Brasileira, SciELO.
  4. Sociedade Brasileira de Mastologia. Ministério da Saúde amplia acesso à mamografia a partir dos 40 anos. sbmastologia.com.br, 2025.
  5. Febrasgo. Ministério da Saúde recomenda mamografia a partir dos 40 anos. 24 set. 2025.
  6. US Preventive Services Task Force. Breast Cancer: Screening. 2024.
  7. Canadian Task Force on Preventive Health Care. Breast Cancer (Update): Draft Recommendations. 2024.
  8. European Commission Initiative on Breast Cancer (ECIBC). Recomendações para rastreamento.
  9. IQWiG. Mammography screening programme: IQWiG recommends also including younger and older women.
  10. Duffy SW et al. Effect of mammographic screening from age 40 years on breast cancer mortality (UK Age trial): final results of a randomised, controlled trial. Lancet Oncol. 2020;21(9):1165-1172. doi:10.1016/S1470-2045(20)30398-3.

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