A Macroglobulinemia de Waldenstrom (MW) representa uma neoplasia linfoproliferativa rara que surge a partir de uma expansão clonal de linfócitos B com diferenciação linfoplasmocitária. Esses linfócitos secretam imunoglobulina monoclonal IgM em excesso e, por causa disso, provocam uma variedade de distúrbios clínicos que envolvem desde alterações hematológicas até fenômenos de hiperviscosidade.
Como a doença evolui de forma lenta e heterogênea, muitos pacientes chegam ao diagnóstico apenas quando as manifestações clínicas começam a interferir no funcionamento orgânico ou quando um exame de rotina identifica a paraproteína.
Epidemiologia e fisiopatologia da macroglobulinemia de Waldenstrom
A MW ocorre predominantemente em adultos mais velhos. Geralmente, o diagnóstico acontece após os 60 anos e afeta mais homens do que mulheres. Ainda que a etiologia permaneça desconhecida, estudos genéticos revelam que mutações em MYD88 comparecem em grande parte dos casos e contribuem para o crescimento clonal sustentado. Logo depois, outras mutações, como CXCR4, aparecem em subgrupos de pacientes e se associam a apresentações clínicas específicas, principalmente neuropatias e maior carga tumoral.
Do ponto de vista fisiopatológico, o infiltrado linfoplasmocitário ocupa a medula óssea e, com menor frequência, linfonodos, fígado e baço. Contudo, a principal consequência funcional da doença surge pela produção exagerada de IgM. Como essa imunoglobulina tem grande peso molecular, ela altera o fluxo plasmático e aumenta a viscosidade, principalmente quando ultrapassa determinados limiares séricos. Portanto, à medida que a IgM aumenta, as manifestações relacionadas à perfusão tecidual tornam-se mais evidentes.
Além disso, a IgM pode interagir com fatores de coagulação, interferir na adesão plaquetária e precipitar em ambientes frios, o que resulta em crioglobulinemia e vasculopatia. Frequentemente, o conjunto desses fenômenos produz sintomas multifacetados que exigem raciocínio clínico atento e correlação estreita entre achados laboratoriais e queixas do paciente.
Manifestações clínicas
A MW apresenta comportamento clínico diverso. Alguns indivíduos permanecem assintomáticos durante anos enquanto outros desenvolvem manifestações progressivas logo no início.
Para organizar adequadamente o raciocínio diagnóstico, torna-se útil dividir as manifestações entre aquelas que surgem pelo infiltrado tumoral e aquelas provocadas pela própria IgM em excesso.
Manifestações relacionadas ao infiltrado tumoral
Os linfócitos clonais substituem progressivamente a hematopoese normal, o que provoca anemia, leucopenia e trombocitopenia. Como regra geral, a anemia surge como o achado hematológico mais frequente e, muitas vezes, representa a porta de entrada para a investigação. Além disso, muitos pacientes relatam fadiga intensa, fraqueza e intolerância a esforços. À medida que o infiltrado se expande, o báculo esplênico e o parênquima hepático aumentam, o que explica quadros de esplenomegalia e hepatomegalia palpáveis no exame físico. Alguns pacientes também desenvolvem linfadenomegalias, principalmente cervicais e axilares.
Outra consequência do infiltrado tumoral envolve sintomas constitucionais, como:
- Febre
- Sudorese noturna
- E perda ponderal.
Embora esses sinais não ocorram em todos os casos, eles aparecem sobretudo em apresentações mais volumosas e podem sugerir transformação histológica ou atividade tumoral significativa. Por isso, o médico deve monitorar essas manifestações mesmo quando elas parecem inespecíficas.
Manifestações relacionadas à IgM monoclonal
Síndrome da hiperviscosidade
O aumento expressivo da IgM define boa parte do fenótipo clínico da MW. A síndrome da hiperviscosidade aparece como expressão mais emblemática desse excesso. Como a IgM circula em concentrações elevadas, o plasma adquire maior resistência ao fluxo e compromete a perfusão microvascular. Consequentemente, sintomas como:
- Cefaleia
- Zumbido
- Tontura
- Visão turva
- Alterações retinianas
- E confusão mental surgem com certa frequência.
Em casos mais severos, pode ocorrer sangramento mucoso, pois a IgM interfere diretamente na função plaquetária.
Na imagem abaixo é possível visualizar a fotografia de retina de um paciente com macroglobulinemia de Waldenstrom evidenciando múltiplas hemorragias e veias retinianas dilatadas, segmentadas e tortuosas.

Neuropatia periférica
A neuropatia periférica representa outro achado importante. Como a IgM pode se ligar a componentes nervosos, especialmente glicoproteínas da mielina, muitos indivíduos desenvolvem parestesias, perda de sensibilidade distal e, progressivamente, desequilíbrio. Em alguns casos, a neuropatia assume caráter doloroso e afeta a qualidade de vida.
Além disso, a correlação com mutações de CXCR4 indica que certos perfis moleculares tendem a apresentar neuropatia mais acentuada.
Crioglobulinemia tipo I
A crioglobulinemia tipo I surge quando a IgM precipita em baixas temperaturas. Esse fenômeno desencadeia vasculopatia cutânea, livedo reticular, fenômeno de Raynaud, púrpura, úlceras e, em situações graves, necrose. Dessa forma, o médico deve investigar crioglobulinas sempre que houver dano cutâneo associado a alterações de IgM.
Por fim, alguns pacientes desenvolvem acometimento renal ou cardíaco, especialmente quando ocorre depósito de cadeias leves ou formação de amiloide. Embora esses casos apareçam com menor frequência, eles exigem atenção porque podem levar a disfunção orgânica grave, principalmente quando a progressão acontece de maneira silenciosa.
Avaliação clínica e estratégia diagnóstica
O diagnóstico da MW exige correlação entre clínica, exames laboratoriais e avaliação morfológica da medula óssea. Portanto, o processo diagnóstico deve seguir uma sequência estruturada que permita excluir outras causas de IgM monoclonal e confirmar a presença do infiltrado linfoplasmocitário.
Exames laboratoriais iniciais
A investigação geralmente inclui:
- Hemograma completo,
- Dosagem de IgM sérica
- Eletroforese de proteínas séricas
- Imunofixação
- E quantificação de cadeias leves.
Em seguida, o médico deve solicitar avaliação da função hepática e renal, além de testes de coagulação quando houver suspeita de sangramento. O nível de viscosidade plasmática pode ajudar quando o paciente apresenta sintomas sugestivos de hiperviscosidade. Contudo, o diagnóstico clínico de hiperviscosidade não depende exclusivamente da viscosidade plasmática, já que a correlação entre valores laboratoriais e sintomas não é linear.
Para pacientes que desenvolvem neuropatia, torna-se fundamental solicitar estudos neurofisiológicos. Esses exames revelam padrão desmielinizante ou axonal, dependendo do mecanismo fisiopatológico. Além disso, a dosagem de crioglobulinas e complemento sérico contribui para diferenciar causas vasculíticas em apresentações cutâneas.
Avaliação da medula óssea
O diagnóstico definitivo de MW requer identificação de infiltrado linfoplasmocitário na medula óssea. O exame histológico mostra população mista de linfócitos pequenos, células plasmocitoides e plasmócitos maduros. A biópsia confirma o padrão infiltrativo e permite avaliar percentual de células clonais, grau de substituição da medula e presença de fibrose. Em paralelo, a imunohistoquímica identifica expressão de marcadores como CD19, CD20 e CD138, além de confirmar restrição de cadeia leve.
Em muitos casos, o estudo molecular para MYD88 L265P auxilia na distinção entre MW e outras gamopatias. A presença dessa mutação favorece o diagnóstico de MW, enquanto sua ausência exige análise rigorosa de outras possibilidades diagnósticas.
Diagnóstico diferencial
O diagnóstico diferencial inclui mieloma múltiplo IgM, linfoma de zona marginal, gamopatia monoclonal de significado indeterminado IgM e linfomas indolentes com componente plasmocitário. A diferenciação torna-se essencial porque o manejo terapêutico e o prognóstico variam significativamente.
Como regra, a presença de infiltração linfoplasmocitária, produção de IgM e mutação MYD88 compõem o tripé que orienta o diagnóstico de MW.
Avaliação de complicações
Além de identificar a doença, o médico deve reconhecer precocemente complicações associadas. A hiperviscosidade exige atenção imediata, pois a deterioração neurológica pode evoluir rapidamente. A neuropatia periférica precisa de acompanhamento regular, já que sua progressão afeta funcionalidade e capacidade laboral. A crioglobulinemia requer abordagem precoce para evitar lesões cutâneas graves. Por isso, o acompanhamento multidisciplinar se torna essencial, principalmente quando a doença começa a comprometer órgãos vitais.
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Referências bibliográficas
- UPTODATE. Epidemiology, pathogenesis, clinical manifestations, and diagnosis of Waldenström macroglobulinemia. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/epidemiology-pathogenesis-clinical-manifestations-and-diagnosis-of-waldenstrom-macroglobulinemia. Acesso em: 28 nov. 2025.
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