O líquen plano (LP) é uma condição inflamatória de origem desconhecida, que pode manifestar-se de forma aguda ou crônica, afetando pele, mucosas, unhas e outros anexos cutâneos.
Na pele, as lesões típicas são pápulas ou placas de cor vermelho-arroxeada, frequentemente pruriginosas, e localizam-se preferencialmente na região anterior dos punhos e tornozelos. Além disso, o comprometimento das mucosas é frequente, sendo a mucosa oral afetada em aproximadamente 70% dos pacientes que apresentam manifestações cutâneas.
Do ponto de vista histológico, a doença caracteriza-se por um infiltrado linfocitário na camada superficial da derme, associado à degeneração vacuolar da camada basal do epitélio de revestimento.
Epidemiologia do Líquen Plano
Estima-se que o líquen plano cutâneo apresente uma prevalência de aproximadamente 0,5 a 1% da população. O líquen plano oral, por sua vez, é a forma mais comum, acometendo 1 a 4% da população.
No geral, essa condição é mais frequente em mulheres (proporção 1,5:1) e normalmente se desenvolve na faixa etária de 30 a 60 anos. Além disso, o líquen plano é uma condição rara em crianças, correspondendo a menos de 5% do total de casos.
Embora, em geral, o líquen plano não se associe a uma predisposição étnica, pesquisas recentes indicam uma maior prevalência entre afro-americanos e pessoas de ascendência indiana e árabe. Ademais, há indícios de um fator hereditário, uma vez que até 10% dos parentes de primeiro grau dos pacientes podem apresentar a doença.
Etiologia e patogênese do Líquen Plano
Evidências científicas indicam que o líquen plano resulta de uma resposta autoimune contra queratinócitos basais, os quais apresentam alterações antigênicas na sua superfície e são atacados por linfócitos T. No entanto, a origem dessas alterações antigênicas ainda não é completamente compreendida, embora acredite-se que fatores como infecções virais, doenças autoimunes e determinados medicamentos possam estar envolvidos no seu desenvolvimento.
Principais sintomas do Líquen Plano
O início do líquen plano pode ser agudo, manifestando-se em dias, ou mais lento, ao longo de várias semanas. As lesões apresentam caráter autolimitado, tendendo a regredir espontaneamente em meses ou anos.
A forma clássica da doença caracteriza-se pelo surgimento de pápulas e/ou placas de formato poligonal ou ovalado, superfície achatada, coloração violácea e contornos bem definidos, com tamanho variando entre 1 e 10 mm de diâmetro. A distribuição é geralmente bilateral, com predomínio nas extremidades.

Um achado característico são as estrias de Wickham, linhas finas esbranquiçadas visíveis na superfície da lesão, especialmente ao exame dermatoscópico, sendo um sinal altamente sugestivo da condição, ainda que raramente observado em outras doenças dermatológicas.
Além disso, as lesões podem agrupar-se, formando placas lineares ou anulares, ou dispersar-se por toda a pele. Podem também surgir como resposta a traumatismos cutâneos, caracterizando o fenômeno de Koebner.
Embora algumas lesões possam ser assintomáticas, o prurido intenso é uma queixa frequente. Com a evolução da doença, é comum que as lesões deixem hiperpigmentação residual, que pode variar do tom rosado ao cinza-azulado. Essas alterações pigmentares são mais comuns nas formas hiperqueratósicas e tendem a ser mais intensas em pessoas com fotótipos elevados.
O líquen plano pode afetar diversas áreas da pele, mas tem predileção pelas extremidades, principalmente a face anterior dos punhos e tornozelos e a região lombar.
Subtipos de líquen plano
Os subtipos de líquen plano relacionam-se com a morfologia das lesões:
- Hipertrófico/Verrucoso – Desenvolve-se gradualmente, formando lesões espessas, verrucosas e extremamente pruriginosas, com predomínio dos membros inferiores, especialmente na região das tíbias e tornozelos, além das mãos. Pode deixar pigmentação residual e, em alguns casos, evoluir para carcinoma espinocelular, especialmente em indivíduos imunocomprometidos.
- Linear – Ocorre normalmente devido ao fenômeno de Koebne. Embora raro, pode afetar um membro inteiro, sendo mais comum na infância, geralmente com resolução espontânea.
- Actínico – Afeta preferencialmente mulheres, surgindo sazonalmente no verão, em áreas expostas ao sol, como face e dorso das mãos. Manifesta-se por lesões pigmentadas e é mais comum em indivíduos de fotótipo alto.
- Anular – Forma incomum, caracterizada por lesões dispostas em anel, com um bordo ativo e centro atrófico. Nos homens, tende a localizar-se no pênis e escroto, sendo rara sua distribuição extensa.
- Atrófico – Lesões pouco numerosas, surge geralmente nos membros inferiores e pode resultar da regressão de formas hipertróficas ou anulares.
- Pigmentar – Caracteriza-se por máculas hiperpigmentadas bem delimitadas que podem confluir em placas extensas. Afeta preferencialmente áreas expostas ao sol ou intertriginosas, sendo pouco pruriginosas.
- Erosivo – Forma dolorosa, predominante em mucosas, mas que pode ocorrer nos dedos dos pés e nas regiões interdigitais.
- Agudo – Variante rara e eruptiva, associada a sintomas sistêmicos, como febre, e a lesões cutâneas variadas. Evolui com o desaparecimento dos sintomas gerais e a consolidação das lesões características do LP. Está frequentemente ligado a reações medicamentosas.
- Bolhoso – Caracteriza-se pela presença de bolhas sobre lesões de LP ou pele aparentemente saudável, resultado da separação entre epiderme e derme observada em biópsias.
- Penfigóide – Corresponde à coexistência de LP e penfigóide bolhoso, podendo ocorrer na mesma região anatômica.
- Invisível – Manifesta-se apenas com prurido sem lesões visíveis, sendo detectado apenas por exame com lâmpada de Wood e confirmado por estudo histológico.
Líquen plano mucoso
Pacientes com líquen plano cutâneo podem apresentar envolvimento de mucosas, sendo a mucosa oral a mais frequentemente atingida. Entretanto, outras superfícies mucosas também podem ser afetadas, como as mucosas genital, trato urinário, trato gastrointestinal, laringe, nasal e conjuntivas.

Diagnóstico do Líquen Plano
O diagnóstico baseia-se na avaliação clínica e na confirmação histopatológica.
Durante avaliação clínica, a dermatoscopia geralmente possibilita a observação das estrias de Wickham. O principal achado caracteriza-se por uma rede de linhas esbranquiçadas, acompanhadas de glóbulos vermelhos distribuídos na periferia.
Além disso, a biópsia de pele com análise microscópica são ferramentas essenciais para confirmar o diagnóstico de líquen plano. Os principais achados incluem:
- Espessamento do estrato córneo sem preservação de núcleos (hiperceratose sem paraceratose);
- Espessamento irregular do estrato granuloso;
- Destruição da camada basal;
- Alteração ou desaparecimento das cristas da rede, conferindo um padrão em dente de serra;
- Infiltrado denso de linfócitos ao longo da junção dermoepidérmica, caracterizando a dermatite de interface.
Ademais, enquanto o líquen plano idiopático raramente apresenta eosinófilos, a variante induzida por fármacos pode exibir essas células inflamatórias.
Curso natural do Líquen Plano
O curso natural do líquen plano é bastante variável. Na maioria dos casos, as lesões cutâneas desaparecem espontaneamente dentro de um a dois anos, embora possam reaparecer e frequentemente deixem hiperpigmentação residual.
Em contrapartida, o líquen plano oral costuma ter um caráter crônico, podendo persistir indefinidamente ou apresentar remissões ocasionais.
Por fim, quando a condição é provocada por medicamentos, tende a melhorar progressivamente após a suspensão da substância responsável.
Tratamento do Líquen Plano
Líquen plano cutâneo
Como já mencionado, o líquen plano cutâneo geralmente se resolve de forma espontânea dentro de 1 a 2 anos, sendo que o tratamento visa aliviar o prurido e proporcionar o tempo necessário para a resolução das lesões.
Para formas limitadas da doença, a primeira linha de tratamento consiste em esteroides tópicos superpotentes (como clobetasol 0,05%) aplicados duas vezes ao dia por 2 a 4 semanas. Caso não haja resposta satisfatória ao uso dos esteroides descritos, as injeções intralesionais de esteroides (como triancinolona 5 a 10 mg/mL) podem ser consideradas.
Em casos de líquen plano difuso, o tratamento inicial envolve o uso de corticosteroides orais diários (prednisona 30 a 60 mg), com redução gradual da dose ao longo de 2 a 6 semanas. Caso não haja melhora, o tratamento de segunda linha deve ser considerado, com o uso de medicações como:
- Metronidazol (500 mg duas vezes ao dia por 3 a 8 semanas);
- Sulfassalazina (500 mg duas vezes ao dia, aumentando a dose gradualmente até 2,5 g por dia, por 3 a 6 semanas);
- Isotretinoína (10 mg duas vezes ao dia por 2 meses);
- Acitretina (30 mg por dia durante 8 semanas);
- Fototerapia com psoraleno e UVA ou UVB;
- Inibidores tópicos de calcineurina ou metotrexato (15 mg por semana para adultos, 0,25 mg/kg por semana para crianças).
A terapia de terceira linha pode envolver o uso de trimetoprima-sulfametoxazol, griseofulvina, terbinafina, antimaláricos, tetraciclinas, ciclosporina, micofenolato de mofetila, azatioprina, etanercepte, adalimumabe ou heparina de baixo peso molecular.
Líquen plano oral
O líquen plano oral, por sua vez, pode se resolver de forma espontânea em até 5 anos, mas muitos casos apresentam caráter crônico e não desaparecem. Mesmo quando ocorre remissão após o tratamento, as recidivas são frequentes.
Por isso, o líquen plano oral assintomático não necessita de tratamento, devido aos efeitos adversos que os tratamentos podem causar. Por outro lado, o tratamento do líquen plano oral sintomático tem como objetivo a cicatrização de lesões erosivas, redução da dor e melhoria na ingestão de alimentos. Além disso, recomenda-se que os pacientes evitem alimentos picantes ou ácidos, além de álcool e tabaco, pois esses fatores podem piorar os sintomas.
O tratamento inicial envolve a aplicação de esteroides tópicos de altíssima potência, três vezes ao dia, até alcançar a remissão. Caso não haja melhora após 6 semanas, o tratamento deve ser intensificado. A segunda linha de tratamento inclui corticosteroides orais ou o uso de inibidores tópicos de calcineurina. Por fim, o tratamento de terceira linha pode envolver o uso de ciclosporina, azatioprina, micofenolato de mofetila ou metotrexato.
Líquen plano induzido por medicamentos
Sempre deve ser considerada a possibilidade de líquen plano induzido por medicamentos antes de iniciar a terapia. A retirada da medicação suspeita, com a subsequente melhora das lesões, confirma o diagnóstico, embora possa levar algum tempo para que as lesões se resolvam completamente.
Conheça a nossa pós em Dermatologia
Você sabia que o Líquen Plano é uma das condições cutâneas mais desafiadoras para diagnosticar e tratar? E que sua abordagem exige uma formação especializada?
Se você quer se tornar um expert no diagnóstico, manejo e tratamentos mais eficazes para essa e outras doenças dermatológicas, a Pós-graduação em Dermatologia da Sanar é o seu caminho!

Sugestão de leitura recomendada
- Líquen escleroso e atrófico: como conduzir casos na prática?
- Casos Clínicos: Líquen Escleroso e Atrófico
Referências
- ARNOLD, D. L.; KRISHNAMURTHY, K. Lichen Planus. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK526126/. Acesso em: 15 mr 2025.
- LARRONDO, I. G.; ARES-BLANCO, S; Liquen plano: a propósito de un caso, revisión de la literatura y su influencia en la calidad de vida. Aten Primaria. 2022. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8938873/. Acesso em: 15 mar 2025.
- MACHADO, A. I. M. Líquen plano: clínica e aspectos etiopatogênicos. Faculdade de Medicina de Coimbra: 2012.