Entropia é um termo usado na física para determinar o grau de desordem de um sistema. Em outras palavras, equivale a dizer que tudo tendência ao caos. E quando em um país, em meio a uma pandemia, se aceita negacionismos e “achismos” por parte dos que governam, se fomenta a crença no uso de medicamentos sem comprovação científica, se incentiva a aglomeração e o não uso de máscaras, e acima de tudo, se negligencia o sistema de saúde… o resultado é uma tragédia anunciada, ou seja, caos.
Passo 01: Falsa segurança
Quando 2021 começou e o mundo se voltava para o Brasil como epicentro da pandemia, a Índia exportava vacinas e reduzia constantemente seu número de casos, desde o ano anterior. Em dezembro de 2020, afirmou-se que o país estava “derrubando a curva de infecções” e que com isso, a economia estava “surgindo em meio às sombras cada vez mais longas do inverno em direção a um lugar ao sol”. Foi considerado um feito tão grandioso, um país daquele tamanho ter controlado de forma tão ilibada a pandemia em seu território, que poderíamos dizer se tratar quase que de… um milagre. O problema, é que com este otimismo exacerbado, não demorou muito para que logo surgisse uma falsa sensação de segurança na população, a qual se disseminaria mais rapidamente que o vírus.
No final de fevereiro, foi anunciado eleições importantes em cinco estados indianos, onde 186 milhões de pessoas poderiam votar para cargos em 824 assentos. A partir de 27 de março, as pesquisas eleitorais se estenderiam por mais de um mês e, no caso do estado de Bengala Ocidental, seriam realizadas em oito fases. Tudo ia às mil maravilhas. Sem protocolos de segurança, sem distanciamento social, sem máscaras…
No início de março, Harsh Vardhan, o ministro da saúde da Índia, veio a público para declarar que o país se encontrava na “fase final” da pandemia, apesar dos inúmeros sinais de advertência quanto à possibilidade de uma nova onda e das novas variantes da Covid-19 na Índia e em outros países. Em seu discurso, também elogiou o primeiro-ministro Narendra Modi, que logo se tornaria o “guru da vacina” e reforçou a ilusão ter ganhado a guerra contra o vírus. Imediatamente após seu pronunciamento, autoridades políticas, legisladores e boa parte da imprensa passaram a acreditar que a Índia estava de fato fora de perigo.
Em meados de março, ocorreram duas partidas clássicas de críquete, um esporte bastante popular na Índia. As partidas entre Índia e Inglaterra aconteceram no estádio Narendra Modi, em Gujarat, e foram assistidas por mais de 130 mil torcedores, que é claro, em sua maioria não usavam máscara.
Menos de um mês depois, o país entrou em frenesi e a Índia, antes admirada pelos seus esforços, agora passou a se destacar como um novo epicentro.
Passo 02: Projeto “genocida”
Quando a falsa sensação de segurança vem daqueles que deveriam liderar um país… não é de se esperar algo bom. A ilusão nos confunde e engana, bagunça nossos sentidos, e nos leva a acreditar em mentiras, até que uma hora ou outra, tudo vem à tona.
Na Índia, na primeira oportunidade que tiveram, os governantes indianos incentivaram a aglomeração. Permitiram a reabertura de templos religiosos, a realização de casamentos, reuniões sociais e comícios políticos, e até participar do festival hindu de Kumbh Mela. Negaram as previsões epidemiológicas, ignoraram evidências das mutações virais, acharam que com a queda de infecções, não era mais necessário se vacinar porque, afinal, o pior já havia passado. Acontece que quando se junta uma população vulnerável, um amontoado de gente, com um vírus circulante altamente transmissível, a conta simplesmente é assustadora.
Os números de contaminados e de mortos deram um salto. Passou de 100 mil o número de novos casos diários no país, e uma média de quase 2000 mortos em 24 h. Os cemitérios estão lotados. O sistema de saúde em colapso. Falta leito, oxigênio, remédios para intubação. Sem contar na exaustão física e psíquica dos funcionários.
Não bastasse isso, a Índia ainda tem um sistema sanitário bastante precário em algumas regiões, os corpos das vítimas da pandemia vêm sendo jogados no Ganges ou cremados coletivamente em piras funerárias. Além disso, crenças místico-religiosas, impulsionadas por fake news, tornaram-se um gigantesco problema. Boa parte dos indianos passou a desacreditar da vacina e substituí-la por uma bebida local chamada de kadha e um medicamento de nome Coronil, fabricado pela Patanjali, ambos sem certificação, comercializados como kit covid indiano.
Como de praxe de governos despreparados e incompetentes, culpar a oposição é sempre a melhor saída. E com o governo indiano não é diferente. Ataques aos grupos contra partidários e aos estados não controlados pelo BJP (Bharatiya Janata Party) estão sendo realizados com a intenção de exercer uma espécie de cortina de fumaça sobre os recentes acontecimentos. Esse grau de política inescrupulosa coloca em perigo a vida de todo indiano, mesmo daqueles que votaram para eleger o governo atual.
Passo 03: A economia por um fio
O cenário é de guerra. O país está em frangalhos. Uma semana após aumento recorde de casos que sobrecarregou o sistema de saúde da capital, Nova Délhi decidiu impor lockdown assim como outras cidades. Porém, lockdowns tardios e sem nenhum preparo trazem graves consequências. Com isso, a economia indiana afunda um pouco a cada dia.
A Índia, que tem sua população urbana composta por maioria de trabalhadores informais necessitando de renda diariamente, sofre ainda mais. Cerca de 100 milhões de indianos tentam fugir da extrema pobreza e se arriscam em perigosas viagens para retornar aos seus vilarejos. Boa parte deles, sem comida, sem água, exaustos, acabam ficando pelo caminho. A miséria só aumenta.
Com a economia afetada e a falta de recursos financeiros suficientes para expandir a capacidade de produção das vacinas, o Serum Institute of India, maior fabricante de vacinas do país – e do mundo – disse não ser capaz de ampliar o fornecimento antes de junho. Dessa forma, a Índia teve de suspender temporariamente todas as exportações da vacina da Oxford com AstraZeneca, devido a demanda urgente dentro do país.
A história é cíclica:
Quando o ser humano é egoísta, ele fecha os olhos para o que acontece ao redor dele, importando-se só consigo mesmo (empatia não é o forte desta pessoa). Quando o ser humano é arrogante, ele não permite ser contrariado, sendo ele autoritário e comandando sempre do seu jeito (mesmo que seja o jeito errado). Quando o ser humano é orgulhoso, ele não assume seus erros, estando ele sempre certo (mesmo que para isso ele tenha que levar aos extremos a fim de provar seu ponto de vista). Mas quando se juntam todas essas características em uma única pessoa, vemos alguém débil, desprezível, ignorante e despreparado.
Este tipo de pessoa, surge na história de tempos em tempos, para nos ensinar a como não ser, porque este tipo de pessoa não se importa com sua educação, com seu crescimento profissional, com sua segurança e muito menos com sua saúde. A história é cíclica e sendo aqui ou na Índia ou em qualquer outro lugar do mundo, o resultado é sempre o mesmo: caos.
Fique em casa se puder, use máscara cobrindo boca e nariz, higienize as mãos, evite aglomerações e use álcool em gel.
Autora: Narjana Rösler Stamborowski
Instagram: @narjannaa
Referências
Covid: Por que infecções pelo coronavírus explodiram na Índia – BBC News Brasil
Índia relata aumento de infecções por fungo em pacientes com covid – Notícias – BOL (uol.com.br)
Com Índia no epicentro da pandemia, Brasil busca autonomia para produzir vacinas (cnnbrasil.com.br)
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