Anúncio

Hipoglicemia Neonatal: epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento

capa_Hipoglicemia_Neonatal

Índice

ÚLTIMA CHANCE | SÓ ATÉ 30/05

Você só tem +2 dias para garantir sua pós em medicina com até 54% DE DESCONTO no aniversário Sanar.

A sua aprovação no ENAMED 2026, com quem dominou a prova em 2025

A hipoglicemia neonatal é um dos principais problemas metabólicos no recém-nascido (RN), por isso a importância do controle de gestantes com diabetes mellitus prévio ou gestacional.

Após o nascimento, é comum que a glicose sanguínea do recém-nascido a termo saudável diminua nas primeiras uma a duas horas de vida, atingindo um valor mínimo médio em torno de 55 mg/dL. Essa redução faz parte da adaptação fisiológica à vida extrauterina. No entanto, é essencial distinguir essa resposta transitória normal de condições que causam hipoglicemia persistente ou recorrente, uma vez que estas podem levar a complicações neurológicas.

Definição de Hipoglicemia Neonatal

A hipoglicemia neonatal é um distúrbio do metabolismo da glicose, que caracteriza-se pela diminuição dos valores de glicose no sangue do bebê e que, muitas vezes, pode passar despercebido clinicamente.

Esse distúrbio pode ser identificado entre o período de 24 a 72 horas posterior ao nascimento e, um dos grandes problemas na sua identificação, é definir um valor limite para a glicemia nos neonatos, visto que há muitas divergências na literatura.

Todavia, nas primeiras duas horas de vida, a glicemia do recém-nascido saudável a termo atinge um valor mínimo, com mediana de cerca de 55 mg/dL, sendo que a maioria dos bebês apresenta níveis acima de 25 mg/dL. Nos primeiros dois dias, a glicemia eleva-se progressivamente, estabilizando-se entre 45 e 80 mg/dL, aproximando-se gradualmente dos valores típicos de crianças mais velhas e adultos por volta do quarto dia.

Epidemiologia da Hipoglicemia Neonatal

Estima-se uma incidência de 5-15% dessa condição entre todos os bebês, podendo chegar até metade dos recém-nascidos de risco.

Fisiopatologia da Hipoglicemia Neonatal

A hipoglicemia neonatal ocorre quando a produção de glicose é menor do que sua utilização, podendo ser causada pela diminuição do fornecimento de glicose ou pelo aumento de sua utilização.

Diminuição do fornecimento de glicose

A redução da disponibilidade de glicose pode ser consequência de reservas inadequadas de glicogênio, comuns em recém-nascidos prematuros (que ainda não acumularam glicogênio suficiente) e em bebês com restrição de crescimento fetal (RCF), que podem ter estoques reduzidos e dificuldade na adaptação metabólica ao nascimento.

Além disso, a produção de glicose pode ser prejudicada por distúrbios metabólicos hereditários, como erros no metabolismo do glicogênio e distúrbios da gliconeogênese.

Fatores hormonais também desempenham um papel importante, pois a deficiência de hormônios como cortisol e hormônio do crescimento pode comprometer a homeostase da glicose. Outras causas incluem o uso de betabloqueadores maternos na gestação, que interferem na glicogenólise, e disfunção hepática grave, que afeta tanto a glicogenólise quanto a gliconeogênese.

Aumento da utilização de glicose

O hiperinsulinismo é a principal causa de aumento no consumo de glicose. Ele ocorre, por exemplo, em recém-nascidos de mães diabéticas com controle glicêmico inadequado, levando a hiperinsulinemia fetal e neonatal transitória.

Outras condições associadas ao hiperinsulinismo incluem RCF, síndrome de Beckwith-Wiedemann, estresse perinatal, exposição intrauterina a medicamentos hipoglicemiantes e hipoglicemia hiperinsulinêmica persistente da infância, que pode ter origem genética.

Há também situações em que a utilização de glicose supera a produção sem hiperinsulinismo. Isso pode acontecer em recém-nascidos com restrição de crescimento assimétrica (que possuem cérebros proporcionalmente maiores e demandam mais glicose), condições que levam à glicólise anaeróbica (como má oxigenação tecidual e sepse), policitemia (devido ao maior consumo pelos glóbulos vermelhos), insuficiência cardíaca, asfixia perinatal e hipotermia, onde há um aumento do metabolismo para manutenção da temperatura corporal.

Quadro clínico da Hipoglicemia Neonatal

Recém-nascidos com baixos níveis de glicose no sangue muitas vezes não apresentam sintomas. Nesses casos, geralmente identifica-se a hipoglicemia por meio de exames de triagem em bebês com fatores de risco ou como um achado incidental em exames laboratoriais.

Nos bebês que apresentam sintomas, por sua vez, os sinais costumam ser inespecíficos e refletem a resposta do sistema nervoso à falta de glicose. Divide-se os sintomáticos em dois grupos: neurogênicos e neuroglicopênicos.

Os sintomas neurogênicos (autonômicos) decorrem da ativação do sistema nervoso simpático em resposta à hipoglicemia e incluem:

  • Tremores ou nervosismo;
  • Sudorese;
  • Irritabilidade;
  • Taquipneia;
  • Palidez.

Já os sintomas neuroglicopênicos resultam da disfunção cerebral causada pelo suprimento inadequado de glicose, comprometendo o metabolismo energético do cérebro. Esses sintomas incluem:

  • Dificuldade na alimentação;
  • Choro fraco ou estridente;
  • Alterações no nível de consciência (como letargia ou coma);
  • Convulsões;
  • Hipotonia inadequada para a idade gestacional.

Além disso, recém-nascidos com hipoglicemia podem apresentar sinais inespecíficos como apneia, bradicardia, cianose e hipotermia.

Fatores de risco da Hipoglicemia Neonatal

A hipoglicemia neonatal é uma condição mais comum em filhos de mães diabéticas ou com níveis alterados de glicemia e nos bebês pré-termo (ou seja, aqueles que nasceram antes das 37 semanas de gestação).

Nos próximos blocos, elencamos os principais fatores de risco associados a hipoglicemia neonatal

Maternos

Diabetes gestacional ou prévia, algumas drogas (terbutalina, diuréticos tiazídicos, e beta- bloqueadores), hipertensão arterial ou pré-eclampsia.

Neonatais

Prematuridade, restrição do crescimento intrauterino, hipóxia e isquemia, sepse, hipotermia, policitemia ou tumores produtores de insulina (nesidioblastose,adenoma).

Triagem e diagnóstico da Hipoglicemia Neonatal

Realiza-se a medição da glicose no sangue em bebês com sinais de hipoglicemia ou em bebês considerados em risco, como prematuros, bebês grandes ou pequenos para a idade gestacional, ou aqueles nascidos de mães com diabetes gestacional. Para bebês saudáveis e assintomáticos nascidos a termo, a medição de glicose não é necessária, a menos que haja complicações.

A triagem deve ser feita logo após a primeira mamada e monitorada nas primeiras 24-48 horas, especialmente em bebês em risco. Para tanto, realiza-se a medição com medidores de glicose no ponto de atendimento, mas os resultados devem ser confirmados por exames laboratoriais, já que esses dispositivos podem apresentar variações. Em casos de bebês sintomáticos, inicia-se o tratamento imediatamente, mesmo antes de confirmar os resultados laboratoriais.

A hipoglicemia neonatal patológica não pode ser definida por um valor exato de glicose no sangue devido à ausência de um limiar claramente estabelecido que justifique intervenção para evitar complicações. No entanto, estabelecer critérios clínicos para seu diagnóstico é essencial para orientar o tratamento adequado.

Com base nas diretrizes da Academia Americana de Pediatria (AAP) e da Sociedade Endócrina Pediátrica, considera-se necessária a intervenção nos seguintes casos:

  • Recém-nascidos sintomáticos:
    • Menos de 48 horas de vida: glicemia plasmática abaixo de 50 mg/dL (2,8 mmol/L).
    • Mais de 48 horas de vida: glicemia plasmática abaixo de 60 mg/dL (3,3 mmol/L).
  • Recém-nascidos assintomáticos, mas de risco:
    • Menos de 4 horas de vida: glicemia plasmática inferior a 25 mg/dL (1,4 mmol/L).
    • Entre 4 e 24 horas de vida: glicemia plasmática abaixo de 35 mg/dL (1,9 mmol/L).
    • Entre 24 e 48 horas de vida: glicemia plasmática inferior a 50 mg/dL (2,8 mmol/L).
    • Mais de 48 horas de vida: glicemia plasmática inferior a 60 mg/dL (3,3 mmol/L).

Tratamento da Hipoglicemia neonatal

O tratamento da hipoglicemia neonatal varia conforme a gravidade dos sintomas e a resposta do recém-nascido.

Para hipoglicemia sintomática grave (com letargia, convulsões ou coma), a administração imediata de dextrose intravenosa (IV) é essencial. O protocolo inclui um bolus inicial (0,2 g/kg) ao longo de 5 a 15 minutos, seguido de infusão contínua (5 a 8 mg/kg/min). Se a glicemia não for estabilizada, pode-se aumentar a taxa de infusão ou considerar o uso de glucagon.

Nos casos de hipoglicemia assintomática ou sintomática leve, recomenda-se a administração de gel de dextrose bucal seguida de alimentação oral, priorizando a amamentação para reduzir a recorrência da hipoglicemia. Reavalia-se a glicemia após 30 a 45 minutos e, se os níveis permanecerem baixos (<45 mg/dL após três alimentações), deve-se iniciar a dextrose IV.

Para recém-nascidos em risco, mas sem hipoglicemia documentada, indica-se alimentação oral precoce, preferencialmente na primeira hora de vida, em vez do uso preventivo de gel de dextrose. Após isso, monitora-se a glicemia frequentemente, começando 30 minutos após a primeira alimentação.

Nos bebês prematuros (<34 semanas), o risco de hipoglicemia é maior. Se conseguirem alimentação enteral suficiente, devem ser alimentados precocemente com monitoramento glicêmico. Caso contrário, deve-se iniciar nutrição parenteral com dextrose. Ademais, realiza-se o tratamento de episódios sintomáticos agudos com dextrose IV.

Conheça a nossa pós em Pediatria

A hipoglicemia neonatal é uma das emergências mais comuns na sala de parto e pode ter consequências graves se não for reconhecida e tratada a tempo. Como pediatra, você precisa estar preparado para agir com precisão e segurança!

A Pós-Graduação em Pediatria da Sanar oferece o conhecimento essencial para lidar com condições críticas do recém-nascido e da infância, garantindo um atendimento de excelência desde os primeiros minutos de vida.

Sugestão de leitura recomendada

Referências

  • Rozance PJ, Hay WW. New approaches to management of neonatal hypoglycemia. Maternal Health, Neonatology and Perinatology. 2016.
  • Weston PJ, Harris D, Battin M, Brown J, Hegarty JE, Harding JE. Gel de dextrose oral para o tratamento da hipoglicemia em recém-nascidos. Banco de Dados Cochrane de Revisões Sistemáticas de 2016 , Edição 5.
  • Thompson-Branch A, Havranek T. Neonatal Hypoglycemia. Pediatr Rev.
  • Rozance, P. Pathogenesis, screening, and diagnosis of neonatal hypoglycemia. UpToDate, 2025.
  • Rozance, P. Management and outcome of neonatal hypoglycemia. UpToDate, 2025.

Autor: Francisco Fernando Silva Lucas – @fernando00785

O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Compartilhe este artigo:

Cursos gratuitos para estudantes de medicina

Anúncio

Não vá embora ainda!

Temos conteúdos 100% gratuitos para você!

🎁 Minicursos com certificado + e-books