Saiba tudo sobre o hemangioma hepático: fatores de risco, diagnóstico, sintomas e mais!
Define-se os hemangiomas como tumores benignos, geralmente pequenos e que geralmente não apresentam sintomas associados. Por isso, são usualmente descobertos em consultas rotineiras. Entretanto, em casos mais raros, podem chegar a 20 cm (gigantes) e apresentar-se com diversos sintomas.
Caracterizam-se pelo aumento do número de vasos sanguíneos e podem ocorrer em qualquer parte do corpo, sendo mais comum na face, no couro cabeludo, no peito e nas costas. Além disso, podem desencadear complicações, sendo mais comum as ulcerações, que chegam a ser bem dolorosas, com sangramentos e até infecções secundárias.
No geral, os hemangiomas aparecem com mais frequência em mulheres, porém, podem ocorrer em qualquer sexo ou faixa etária. Além disso, como já mencionado, são geralmente pequenos, sem sintomas e de crescimento lento ou nenhum crescimento. É raro, mas há casos em que crescem rapidamente, e nestes há o crescimento e propagação das células endoteliais e angiogênese, o que leva ao desenvolvimento rápido dessas lesões. Ademais, quando superficiais, apresentam cor avermelhada, e, quando mais profundos, apresentam cor azulada.
Hemangioma hepático
Os hemangiomas hepáticos, também conhecidos como hemangiomas cavernosos devido à presença de espaços vasculares cavernosos observados histologicamente, são as lesões benignas mais comuns no fígado. A maioria dos indivíduos com hemangiomas hepáticos não apresenta sintomas e tem um excelente prognóstico.
A causa exata dos hemangiomas hepáticos ainda não é totalmente esclarecida, mas supõe-se que sejam malformações vasculares ou hamartomas congênitos, que crescem por ectasia, ao invés de por hiperplasia ou hipertrofia.
Os hemangiomas hepáticos variam de tamanho e, a partir de 4 cm (variável de acordo com a literatura), são considerados hemangiomas gigantes e associam-se a diversos sintomas, com necessidade de tratamento.
Embora possam apresentar-se como uma única lesão, também é possível encontrar múltiplas lesões em alguns pacientes. Dentre os pacientes acometidos, 10 a 30% apresentam mais de uma lesão, podendo exigir mais atenção. Podem ocorrer alterações inflamatórias, fibrose (causando enrijecimento de algumas lesões) ou trombose, que, neste caso, pode vir a calcificar. Além disso, a depender do crescimento da lesão, existe a possibilidade do aparecimento da síndrome de Kasabach-Merrit, caracterizada por trombocitopenia, coagulopatia e anemia hemolítica microangiopática.
Epidemiologia e fatores de risco do hemangioma hepático
Detecta-se os hemangiomas hepáticos em qualquer fase da vida, mas são mais comumente identificados em pacientes entre 30 e 50 anos de idade, com uma predominância de mulheres.
Em relação à exposição aos estrogênios, esse tipo de tumor pode aumentar de tamanho durante a gravidez ou com o uso de terapias hormonais No entanto, nem todos os hemangiomas possuem receptores de estrogênio, e também observou-se o crescimento das lesões em pacientes na pós-menopausa e na ausência de terapia estrogênica.
Causas do hemangioma hepático
Os hemangiomas apresentam relação com hereditariedade, sendo comuns em pessoas da mesma família. Mulheres são afetadas com mais frequência que homens, por causa dos hormônios.
Além disso, alguns estudos relatam a origem dessa lesão ainda na formação do feto, sendo considerado, então, uma enfermidade congênita.
De todo modo, não há explicação específica para justificar o acontecimento dos hemangiomas hepáticos, sendo consideradas as causas, estudos.
Características patológicas do hemangioma hepático
Macroscopicamente, os hemangiomas apresentam-se como lesões bem definidas, planas e de coloração vermelho-azulada escura, geralmente envoltas por uma cápsula fina. Ao serem cortados, apresentam uma aparência marrom-avermelhada e consistência esponjosa, podendo apresentar áreas de hemorragia, cicatrização ou calcificação.
Microscopicamente, a lesão caracteriza-se pela presença de espaços vasculares cavernosos de diferentes tamanhos, revestidos por uma única camada de células endoteliais e ocupados com sangue. Esses espaços são separados por finos septos fibrosos e pode haver presença de trombos. Nos hemangiomas gigantes, por sua vez, pode ocorrer formação de cicatrização colagenosa ou nódulos fibrosos devido a trombose.
Características clínicas do hemangioma hepático
Normalmente, detecta-se os hemangiomas hepáticos de forma incidental em exame de imagem abdominal ou, ainda, durante a investigação de anomalias em exames bioquímicos do fígado, sendo a maioria dos pacientes assintomáticos.
Os sintomas associam-se mais frequentemente a hemangiomas grandes, acima de 10 cm de diâmetro. Em pacientes sintomáticos, portanto, esse tipo de tumor manifesta-se por dor ou sensação de plenitude no quadrante superior direito. Sintomas menos frequentes, como, por exemplo, náusea, anorexia e saciedade precoce, podem ocorrer em casos de hemangiomas grandes, devido à compressão de órgãos próximos.
Em alguns casos, a dor abdominal aguda pode surgir devido a trombose ou sangramento no hemangioma, resultando em distensão da cápsula hepática. Além disso, essa complicação pode associar-se a febre e alterações nos testes bioquímicos do fígado.
Ademais, em casos mais raros, pode haver relação da lesão com icterícia obstrutiva, alteração de enzimas hepáticas, obstrução gástrica, torsão e ruptura espontânea.
Por fim, ao exame físico, o paciente geralmente não apresenta-se com alterações, embora, em alguns casos, possa ser detectado um fígado ou massa palpável.
Diagnóstico de hemangioma hepático
Suspeita-se de hemangioma hepático em pacientes sem cirrose que apresentem lesão sólida no fígado durante os exames de imagem.
O diagnóstico de hemangioma hepático é feito por meio de exames de imagem, como a ultrassonografia (USG) sem contraste, desde que certos critérios sejam atendidos, entre eles:
- A lesão deve ter margem homogênea, hiperecóica, bem delimitada e com menos de 2 cm.
- O paciente não deve ter histórico de cirrose, hepatite B crônica ou câncer extra-hepático.
Todavia, caso esses critérios não sejam cumpridos, confirma-se o diagnóstico por exames de imagem com contraste, como a ressonância magnética (RM) ou a tomografia computadorizada (TC).
Por fim, pacientes com cirrose, infecção crônica por hepatite B ou malignidade extra-hepática apresentam-se com maior risco de desenvolver câncer no fígado e, nesses casos, é necessário realizar exames de imagem com contraste para confirmar que a lesão é um hemangioma benigno.
Ultrassonografia sem contraste
No USG sem contraste, o hemangioma hepático apresenta-se como uma massa hiperecóica, uniforme e bem definida. Em pacientes com esteatose hepática, um hemangioma pode aparecer como uma massa hipoecóica devido ao brilho do parênquima ao redor.
Ademais, visualiza-se o fluxo sanguíneo dentro do hemangioma por Doppler colorido em alguns casos.

Ultrassonografia com contraste
Os achados típicos de hemangioma na USG com contraste incluem realce nodular periférico na fase arterial, seguido por um preenchimento centrípeto parcial ou total. Esse realce é interrompido durante a fase posterior do exame.

Ressonância magnética (RM)
O hemangioma geralmente apresenta-se como uma massa lisa, bem definida e homogênea na RM, com baixa intensidade de sinal nas imagens ponderadas em T1 e hiperintensa em T2. Além disso, a presença de fibrose intralesional pode levar a áreas de baixa intensidade nas imagens ponderadas em T2.
Por fim, o uso de contraste e técnica multifásica proporciona realce na fase arterial da periferia da lesão, que pode apresentar margens internas onduladas, enquanto o centro mantém-se hipodenso.

Tomografia computadorizada (TC)
Em exames com contraste, os hemangiomas apresentam-se com realce nodular periférico na fase inicial, seguido por um padrão centrípeto ou “preenchimento” na fase tardia. As lesões costumam opacificar após um atraso de três minutos ou mais, permanecendo isodensas ou hiperdensas em exames tardios. Hemangiomas maiores, por sua vez, podem não opacificar completamente no centro.
Por fim, em tomografias sem contraste, um hemangioma geralmente aparece como uma massa hipodensa bem delimitada, mas pode ser hiperdensa em pacientes com infiltração gordurosa ao redor.

Diagnóstico diferencial do hemangioma hepático
Como dito anteriormente, realiza-se o diagnóstico de lesões hepáticas sólidas, como os hemangiomas, através de exames de imagem. No entanto, se as características observadas em exames de tomografia com contraste não forem típicas, recomenda-se a realização de avaliações adicionais.
O diagnóstico diferencial do hemangioma hepático inclui:
- Carcinoma hepatocelular (CHC) – Corresponde a uma importante causa de lesões sólidas no fígado, especialmente em pacientes com cirrose. Contudo, algumas lesões nesses pacientes podem apresentar características de imagem atípicas. Nesses casos, recomenda-se seriar as imagens com o objetivo de monitorar a estabilidade da lesão ou identificar alterações características do CHC.
- Doença metastática – Pode ser uma causa de lesões sólidas em pacientes com histórico de câncer extra-hepático. Nestes casos, sugere-se iniciar a investigação com exames de imagem para detectar possíveis metástases em outros órgãos.
Tratamento do hemangioma hepático
O tratamento do hemangioma hepático deve ser orientado por um hepatologista.
Desde que considere-se o hemangioma pequeno, sem desconforto ou dor ao paciente, sem alteração de funções renais ou risco de desenvolvimento, não há necessidade de tratamento ou cirurgia. Nesses casos, recomenda-se acompanhamento uma vez ao ano.
No entanto, nos casos onde considera-se o hemangioma grande ou gigante ou quando o paciente apresenta sintomas persistentes, como, por exemplo, dor abdominal e saciedade precoce, pode ser indicada a remoção por cirurgia após avaliação por uma equipe multidisciplinar.
Em alguns casos, entretanto, para uma cirurgia mais segura, é possível realizar o bloqueio do fluxo sanguíneo do hemangioma para que ele diminua. Além disso, a depender do tamanho, pode haver indicação de transplante ou radioterapia.
Prognóstico do hemangioma hepático
Geralmente, o prognóstico para a maioria dos pacientes com hemangioma hepático é positivo, já que a maioria das lesões permanece assintomática e sem complicações.
Em relação às complicações, a ocorrência de sangramento devido à ruptura de um hemangioma é rara e, além disso, o risco de ruptura não parece aumentar com o crescimento da lesão. Todavia, caso haja rompimento de um hemangioma, o tratamento envolve uma embolização arterial transcateter da artéria hepática para controlar o sangramento antes da ressecção cirúrgica.
Ademais, as complicações ocorrem com mais frequência no pós-operatório, embora atualmente as taxas estejam reduzindo. Entre as principais complicações estão:
- Fístulas biliares;
- Hemorragia;
- Coleções abdominais;
- Complicações sistêmicas;
- Mortalidade (em raros casos).
Autora: Anna Clara Cândido
Instagram: @annacandidog
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: Material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
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Sugestão de leitura complementar
- Carcinoma hepatocelular: abordagem clínica e atualizações terapêuticas
- Adenoma Hepatocelular | Colunistas
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Referências
- SOTOMAYOR, R. J. et al. Hemangioma hepático gigante. Disponível em: http://scielo.iics.una.py/pdf/sopaci/v40n2/2307-0420-sopaci-40-02-00034.pdf
- BENAVIDES, CARLOS et al . Hemangiomas hepáticos. Rev Chil Cir, Santiago , v. 58, n. 3, p. 194-198, jun. 2006 . Disponível em: https://scielo.conicyt.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0718-40262006000300006
- CURRY, M. P.; CHOPRA, S. Hepatic hemangioma. UpToDate, 2024.
- TUA SAÚDE. Hemangioma no fígado (hepático): o que é, sintomas, causas e tratamento. Disponível em: https://www.tuasaude.com/hemangioma-no-figado/
- MAYO CLINIC. Hemangioma hepático. Disponível em: https://www.mayoclinic.org/es-es/diseases-conditions/liver-hemangioma/diagnosis-treatment/drc-20354239#:~:text=Los%20ex%C3%A1menes%20y%20procedimientos%20utilizados,para%20obtener%20im%C3%A1genes%20del%20h%C3%ADgado