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Grama natural x grama sintética: qual superfície está associada a mais lesões no esporte?

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Lesões no esporte: entenda se a grama natural ou a grama sintética está mais associada a traumas em atletas e veja o que dizem os estudos sobre cada tipo de superfície.

Nos últimos meses, o debate sobre o uso de gramados sintéticos ganhou destaque no futebol brasileiro após um protesto nas redes sociais realizado por jogadores das principais equipes do país, os quais afirmavam que “Futebol é natural”. Esse protesto chamou atenção para um tema que, embora antigo, permanece relevante: a influência do tipo de gramado na saúde e segurança dos atletas.

Esse movimento reacendeu uma discussão que envolve não apenas atletas e clubes, mas também profissionais da saúde esportiva, engenheiros, dirigentes e toda a equipe multidisciplinar que atua no esporte de alto rendimento. A pergunta que fica é: existem evidências de que a grama sintética representa maior risco de lesões em comparação com a grama natural?

No blog da nossa pós-graduação, abordamos o tema com base nas evidências científicas disponíveis e na experiência prática no campo esportivo, buscando esclarecer pontos-chave que envolvem essa discussão.

Evidência científica: há mais lesões no esporte na grama sintética?

Estudos recentes sugerem que pode haver uma diferença na taxa de lesões entre superfícies de grama natural e sintética, sobretudo em relação a lesões nos membros inferiores. Algumas pesquisas indicam uma maior incidência de lesões em campos sintéticos, especialmente em articulações como tornozelo e joelho.

Uma revisão sistemática publicada no American Journal of Sports Medicine apontou que há uma proporção maior de lesões no pé e tornozelo em superfícies artificiais — tanto de gerações antigas quanto modernas — quando comparadas à grama natural. Outro estudo epidemiológico com atletas da NFL (liga de futebol americano dos EUA) mostrou um aumento de 16% nas lesões em membros inferiores em gramados sintéticos. Além disso, em competições universitárias de futebol americano, foram observadas taxas mais elevadas de lesão no ligamento cruzado posterior (LCP) em campos artificiais.

Por outro lado, nem todos os estudos reforçam essa tendência. Análises realizadas na Major League Soccer (MLS), por exemplo, não identificaram diferença significativa na taxa global de lesões entre os dois tipos de gramado, embora tenham destacado maior incidência de lesões no tornozelo em gramados sintéticos. No futebol finlandês, uma pesquisa recente também não encontrou aumento no risco de lesões em campos artificiais.

Essas discrepâncias entre os estudos podem ser explicadas por diversos fatores: tipo de esporte, nível competitivo, características da superfície (que variam bastante entre campos sintéticos), e até a metodologia das análises. Portanto, embora exista uma tendência preocupante em alguns contextos, ainda não há um consenso definitivo sobre a superioridade de uma superfície em termos de segurança.

Há recomendações médicas para limitar o uso de gramados sintéticos?

Atualmente, não existem diretrizes médicas formais que indiquem a necessidade de limitar a exposição de atletas profissionais a campos sintéticos. As recomendações vão além do tipo de gramado e envolvem outros pilares fundamentais:

  • Garantir a manutenção adequada e a qualidade da superfície de jogo, seja natural ou artificial;
  • Monitorar constantemente as condições do campo;
  • Implementar programas de prevenção de lesões individualizados;
  • Controlar a carga de treinamentos e jogos ao longo da temporada.

Vale ressaltar que, no cenário atual do futebol brasileiro, é comum que clubes realizem mais de 80 jogos por ano — uma média de dois jogos por semana durante toda a temporada. Esse excesso de partidas representa um fator de risco importante para lesões, independentemente da superfície utilizada.

Portanto, a prioridade deve estar na gestão da carga e na adaptação do treinamento e do ambiente, e não necessariamente na restrição ao uso de campos sintéticos.

Treinamento físico: deve ser diferente em gramado sintético?

Embora os princípios do treinamento físico e de fortalecimento muscular sejam universais, o tipo de superfície pode exigir algumas adaptações pontuais nos programas de preparação física. Em gramados sintéticos, é comum priorizar:

  • Exercícios de estabilidade e propriocepção para compensar as diferenças na tração e na absorção de impacto;
  • Fortalecimento de músculos estabilizadores para reduzir o risco de lesões em articulações como tornozelo e joelho.

Esses ajustes não alteram a essência do treinamento, mas podem ser estratégicos para prevenir lesões em superfícies com menor capacidade de amortecimento.

Lesões no esporte x diferenças biomecânicas: há impacto na movimentação do atleta?

As diferenças biomecânicas entre grama sintética e natural são, em geral, sutis. Entre os fatores que merecem atenção estão:

  • Tração e resposta do terreno x lesões no esporte: campos sintéticos podem alterar a forma como os calçados interagem com o solo, afetando aceleração, frenagem e mudanças de direção;
  • Absorção de impacto: o nível de amortecimento difere entre os tipos de superfície, o que influencia as forças transmitidas aos membros inferiores;
  • Comportamento da bola: rolagem e velocidade da bola podem variar, embora isso não mude substancialmente a mecânica dos movimentos dos atletas.

Apesar dessas variações, a adaptação dos jogadores costuma ser rápida, e a técnica esportiva permanece essencialmente a mesma. Contudo, essas pequenas diferenças biomecânicas podem ter impacto na prevenção de lesões, principalmente quando há alternância entre os tipos de gramado durante a semana (por exemplo, treinar em grama natural e competir em sintética, ou vice-versa).

Um dos grandes desafios para se compreender melhor esse tema é a falta de padronização entre os gramados. Em um cenário ideal, seria possível comparar lesões de forma mais precisa se todos os clubes atuassem exclusivamente em um único tipo de superfície — o que hoje é impraticável.

Conclusão sobre lesões no esporte em grama natural x grama sintética

O debate sobre os riscos associados à grama sintética é legítimo e deve ser continuamente alimentado por evidências científicas e pelo monitoramento prático de atletas no dia a dia. Embora existam indícios de maior risco de lesões em algumas situações, especialmente no futebol americano, os dados ainda são conflitantes no futebol profissional.

Cabe às equipes médicas e de performance estarem atentas, adaptarem estratégias de prevenção e, acima de tudo, promoverem discussões como esta com base científica, contribuindo para um ambiente esportivo mais seguro e sustentável.

Referências

  • Lower Extremity Injury Rates on Artificial Turf Versus Natural Grass Playing Surfaces: A Systematic Review. Gould HP, Lostetter SJ, Samuelson ER, Guyton GP. The American Journal of Sports Medicine. 2023;51(6):1615-1621. doi:10.1177/03635465211069562.
  • Higher Rates of Lower Extremity Injury on Synthetic Turf Compared With Natural Turf Among National Football League Athletes: Epidemiologic Confirmation of a Biomechanical Hypothesis. Mack CD, Hershman EB, Anderson RB, et al. The American Journal of Sports Medicine. 2019;47(1):189-196. doi:10.1177/0363546518808499.
  • Incidence of Knee Injuries on Artificial Turf Versus Natural Grass in National Collegiate Athletic Association American Football: 2004-2005 Through 2013-2014 Seasons. Loughran GJ, Vulpis CT, Murphy JP, et al. The American Journal of Sports Medicine. 2019;47(6):1294-1301. doi:10.1177/0363546519833925.
  • Injury Surveillance in Major League Soccer: A 4-Year Comparison of Injury on Natural Grass Versus Artificial Turf Field. Calloway SP, Hardin DM, Crawford MD, et al. The American Journal of Sports Medicine. 2019;47(10):2279-2286. doi:10.1177/0363546519860522.
  • No Increased Injury Risk on Artificial Turf in Finnish Premier Division Football. Immonen V, Kurittu E, Kuitunen I, Vasankari T, Leppänen M. Clinical Journal of Sport Medicine : Official Journal of the Canadian Academy of Sport Medicine. 2024;:00042752-990000000-00248. doi:10.1097/JSM.0000000000001296.

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