A febre de Oropouche é uma doença febril aguda causada pelo vírus Oropouche (OROV), pertencente ao gênero Orthobunyavirus, dentro da família Peribunyaviridae.
Desde que foi identificado pela primeira vez no país, a febre de Oropouche se tornou uma preocupação crescente, em grande parte devido à sua capacidade de se disseminar rapidamente em áreas urbanas e periurbanas.
Além disso, os sintomas da doença muitas vezes se assemelham aos de outras arboviroses, como a dengue, o que pode dificultar o diagnóstico correto e, consequentemente, o tratamento adequado. Dessa forma, é essencial que profissionais de saúde estejam atentos a doença, especialmente em regiões onde o vírus é endêmico.
A febre de Oropouche tem registrado um aumento na sua incidência nos últimos anos, correlacionado com diversos fatores, como mudanças climáticas, expansão urbana e a migração de populações para áreas endêmicas.
Embora a doença seja, na maioria dos casos, autolimitada e de curta duração, ela pode causar um grande impacto na qualidade de vida dos pacientes durante o período sintomático. Em casos mais graves, podem ocorrer complicações neurológicas, como a meningite e encefalite viral, que exigem intervenção médica imediata.
A vigilância epidemiológica e as estratégias de prevenção são, portanto, fundamentais para o controle da febre de Oropouche, minimizando sua propagação e mitigando os efeitos sobre a população.
Identificação do vírus do Brasil
Identificou-se o vírus Oropouche pela primeira vez no Brasil em 1960, em um surto registrado na cidade de Belém, Pará. Este surto foi significativo não apenas pela quantidade de pessoas afetadas, mas também porque marcou o início do reconhecimento do vírus como um agente patogênico relevante na América do Sul. Desde então, o vírus tem se espalhado para outras regiões do país, principalmente na Amazônia, onde a febre de Oropouche é agora endêmica.
O reconhecimento do vírus no Brasil foi um marco importante na virologia e na epidemiologia das arboviroses. Assim, ele destacou a necessidade de uma vigilância contínua e o desenvolvimento de métodos diagnósticos eficazes para diferenciar a febre de Oropouche de outras doenças febris agudas que apresentam sintomas semelhantes.
Além disso, a expansão do vírus para além da região Norte, com casos sendo registrados em estados das regiões Nordeste e Centro-Oeste, indica a capacidade de adaptação do vírus a novos ecossistemas e vetores, o que aumenta a complexidade do controle da doença.
Esse histórico ressalta a importância de uma abordagem integrada e coordenada entre as autoridades de saúde e a comunidade científica para monitorar e responder adequadamente aos surtos de febre de Oropouche no Brasil.
Formas de transmissão da febre de Oropouche
O vírus Oropouche é transmitido principalmente por picadas de mosquitos do gênero Culicoides, conhecidos popularmente como maruins, mosquito-pólvora ou borrachudos. Esses insetos atuam como vetores intermediários, adquirindo o vírus após picar animais infectados, como preguiças e primatas, e posteriormente transmitindo-o aos seres humanos ou através de picadas em humanos já infectados. A transmissão ocorre predominantemente em áreas urbanas e periurbanas, onde os vetores são mais comuns e as condições ambientais favorecem a proliferação dos mosquitos.
Existem dois tipos de ciclos de transmissão da doença:
- Ciclo Silvestre:
No ciclo silvestre, bichos-preguiça e primatas não-humanos (e possivelmente aves silvestres e roedores) atuam como hospedeiros. Há registros de isolamento do OROV em algumas espécies de insetos, como Coquillettidia venezuelensis e Aedes serratus. No entanto, o vetor primário é o Culicoides paraensis, conhecido como maruim ou mosquito-pólvora.
- Ciclo Urbano:
Nesse ciclo, os humanos são os principais hospedeiros do vírus. O inseto Culicoides paraensis também é o vetor principal. O inseto Culex quinquefasciatus, comumente encontrado em ambientes urbanos, pode ocasionalmente transmitir o vírus também.
Existem indícios preliminares de que o vírus Oropouche é transmitido verticalmente, ou seja, da mãe para o feto durante a gestação. Assim, essa possível transmissão pode estar associada a efeitos adversos como abortamento, microcefalia e até morte fetal.
No entanto, é importante destacar que mais pesquisas estão sendo conduzidas para melhor compreender a frequência e a gravidade dessa forma de transmissão, bem como seu impacto sobre o desenvolvimento fetal.
Além da transmissão através dos mosquitos, há preocupações sobre a possibilidade de transmissão do vírus Oropouche por via transfusional, embora esta forma de transmissão ainda não tenha sido comprovada em larga escala. Contudo, levanta-se a necessidade de precauções em bancos de sangue, especialmente em regiões endêmicas.
Sinais e sintomas
A febre de Oropouche se manifesta clinicamente como uma doença febril aguda, com um início súbito dos sintomas, possuindo um período de incubação típica de 3 a 8 dias, com intervalo de 3 a 12 dias.
Os pacientes geralmente apresentam febre alta, acompanhada de cefaleia intensa, mialgia, artralgia e fotofobia. Além disso, muitos relatam um exantema maculopapular tipicamente entre 3 e 5 dias após o início da febre, iniciando no tronco e se espalhando para extremidades.
Sintomas gastrointestinais, como náuseas, vômitos e dor abdominal, também podem estar presentes, embora sejam menos comuns. Além disso, a apresentação de manifestações hemorrágicas, como petéquias, epistaxe e gengivorragia ocorre em cerca de 16% dos casos.
Os sintomas costumam persistir entre 2 a 7 dias. Entretanto, até 60% dos pacientes podem experimentar uma recorrência dos sintomas, manifestando novamente os mesmos sinais ou apresentando apenas febre, cefaleia e mialgia cerca de 1 a 2 semanas após o surgimento inicial. Além disso, a mialgia e a sensação de cansaço podem continuar por até um mês após o início dos sintomas.
É importante destacar que a febre de Oropouche, apesar de frequentemente ser autolimitada, pode levar a complicações neurológicas em uma pequena porcentagem de casos, especialmente em pacientes imunocomprometidos. Assim, esses casos mais graves podem evoluir para meningite ou encefalite viral.
A variabilidade dos sintomas e a semelhança com outras doenças virais fazem com que o diagnóstico clínico seja um desafio. Isso reforça a necessidade de um diagnóstico laboratorial preciso para diferenciar a febre de Oropouche de outras condições que compartilham um perfil sintomático semelhante.
Diagnóstico da febre de Oropouche
O diagnóstico da febre de Oropouche é clínico, epidemiológico e laboratorial, devido à semelhança dos sintomas com outras arboviroses, como dengue, zika e Chikungunya.
O vírus Oropouche é considerado uma doença de notificação imediata devido ao seu potencial epidêmico e alta capacidade de mutação, representando uma ameaça à saúde pública. Portanto, o diagnóstico através da detecção de anticorpos, biologia molecular ou isolamento viral é fundamental para a confirmação da infecção.
Os métodos laboratoriais incluem:
- Reação em Cadeia da Polimerase (PCR): Permite a detecção do RNA viral, sendo considerado o padrão-ouro para o diagnóstico precoce da febre de Oropouche. A PCR é altamente sensível e específica, com taxa de detecção de 93% quando coletado até o 5º dia de sintomas.
- Testes Sorológicos: Após a fase aguda, a principal escolha é a detecção de anticorpos IgM e IgG para confirmação de infecções recentes ou passadas.
Tratamento da febre de Oropouche
Não existe um tratamento antiviral específico para a febre de Oropouche!
O manejo clínico da doença é, portanto, voltado para o alívio dos sintomas, repouso e hidratação, havendo vigilância e apoio ao paciente durante o curso da infecção.
Os pacientes são aconselhados a fazer uso de analgésicos e antipiréticos, como o paracetamol, para controlar a febre e aliviar a dor. Contudo, em casos mais graves, é necessária a internação hospitalar e o manejo em unidades de terapia intensiva.
Portando, dada a semelhança dos sintomas entre as arboviroses e o cenário epidêmico de dengue no país, é recomendável que todos os casos sejam tratados seguindo as orientações de hidratação e suporte utilizadas para a dengue, considerando o alto risco de complicações graves e mortalidade associado a essa doença.
Assim, também não se recomenda utilizar ácido acetilsalicílico (AAS) e anti-inflamatórios não esteroides para febre de Oropouche.
Prevenção
A prevenção da febre de Oropouche envolve estratégias de controle de vetores e medidas de proteção individual. Portanto, o controle dos vetores, especificamente dos mosquitos do gênero Culicoides, é fundamental para reduzir a transmissão do vírus. As medidas, incluem:
- Eliminação de criadouros, com limpeza de terrenos e de locais de criação de animais.
- Uso de inseticidas em áreas endêmicas e medidas de descontaminação
- Monitoramento das populações de mosquitos
- O uso de repelentes, roupas de manga longa, e a instalação de telas em portas e janelas são medidas eficazes para prevenir a exposição aos mosquitos.
- Recolhimento de folhas e frutos que caem no solo
As condições que favorecem a transmissão do vírus incluem a urbanização descontrolada, que cria ambientes propícios para a proliferação de vetores, e a falta de saneamento básico, que contribui para a reprodução dos mosquitos em áreas de alta densidade populacional.
Consequentemente, as estratégias de prevenção devem focar tanto no controle ambiental quanto na educação da população sobre medidas individuais de proteção contra picadas de insetos.
Assim, as campanhas de conscientização pública são igualmente importantes, educando a população sobre os riscos da febre de Oropouche e as medidas preventivas que podem ser adotadas para reduzir o risco de infecção.
A identificação precoce de casos pela vigilância epidemiológica e a rápida resposta a surtos são fundamentais para limitar a disseminação do vírus e evitar epidemias. Assim, a cooperação entre os profissionais de saúde, as autoridades de saúde pública e a comunidade é essencial para o sucesso das estratégias de prevenção e controle da febre de Oropouche.
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Sugestão de leitura complementar
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Referências bibliográficas
- Ministério da Saúde. Oropouche. Gov.br
- Ministério da Saúde. Oropouche: conheça os sintomas, as formas de transmissão e prevenção do vírus. Gov.br
- Menezes, M. Conheça o maruim, vetor principal da febre Oropouche. 2024. Instituto Oswaldo Cruz. Friocruz.
- World Health Organization (WHO). Oropouche virus disease – Peru [Internet]. Geneva: WHO; 2016
- Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS. Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Febre do Oropouche: o que é preciso saber sobre a doença? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS
