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Infectologia

VDRL e FTA-Abs (Sífilis): Interpretação Clínica e Indicações

O VDRL (Venereal Disease Research Laboratory) e o FTA-Abs (Fluorescent Treponemal Antibody Absorption) são exames sorológicos fundamentais para o diagnóstico e acompanhamento da sífilis. O VDRL é um teste não-treponêmico, que detecta anticorpos não específicos contra lipídios liberados pela bactéria Treponema pallidum, sendo útil para triagem e monitoramento da resposta ao tratamento. O FTA-Abs é um teste treponêmico, que identifica anticorpos específicos contra antígenos do T. pallidum, confirmando o diagnóstico após um VDRL positivo e permanecendo positivo por toda a vida, mesmo após tratamento adequado. A combinação desses testes permite diferenciar infecção ativa de cicatriz sorológica, sendo essencial na prática clínica para médicos e residentes em infectologia, ginecologia, pediatria e clínica médica, especialmente no contexto de sífilis congênita e gestacional.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) para soro
Resultado em
VDRL: 1–2 horas (método manual ou automatizado); FTA-Abs: 4–8 horas (imunofluorescência)
Código TUSS
40322237
Especialidade
Infectologia / Ginecologia e Obstetrícia

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de úlcera genital indolor (cancro duro) com linfadenopatia regional CID A51.0
  • Rastreio de sífilis em gestante no primeiro trimestre ou sem pré-natal adequado CID O98.1
  • Avaliação de rash maculopapular palmoplantar com febre e mal-estar (sífilis secundária) CID A51.3
  • Triagem em paciente com história de múltiplos parceiros sexuais ou IST prévia CID Z11.3
  • Investigação de alterações neurológicas (meningite, AVC, paresia) em paciente jovem CID A52.1
  • Avaliação de recém-nascido com hepatomegalia, rash ou rinorreia serossanguinolenta CID A50.0
  • Monitoramento da resposta ao tratamento com penicilina benzatina (titulação do VDRL) CID A53.9
  • Investigação de aneurisma da aorta ascendente em paciente com sorologia positiva prévia CID A52.0
  • Triagem pré-operatória em cirurgias cardíacas ou ortopédicas eletivas CID Z11.3
  • Avaliação de paciente HIV positivo com úlceras orais ou anogenitais atípicas CID B20

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — interfere na leitura do VDRL, podendo causar resultados falso-positivos ou falso-negativos; invalida a amostra
  • Lipemia intensa — dificulta a visualização da aglutinação no VDRL, levando a resultados inconclusivos
  • Amostra contaminada por bactérias — pode causar aglutinação inespecífica no VDRL, resultando em falso-positivo
  • Coleta em tubo com anticoagulante (EDTA, citrato) — interfere no teste VDRL, pois altera as propriedades do soro; deve-se usar tubo seco
  • Armazenamento inadequado (temperatura > 8°C por > 48h) — degrada anticorpos, podendo reduzir a sensibilidade do FTA-Abs

Valores de Referência

Valores de referência do VDRL e FTA-Abs (Sífilis)
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
VDRL (titulação)Não reagente (< 1:1)Não reagente (< 1:1)Não reagente (< 1:1) — recém-nascidos podem ter titulação elevada por transferência placentáriaTítulo (ex: 1:2, 1:4)
FTA-Abs (reatividade)Não reagenteNão reagenteNão reagente — exceto em sífilis congênitaReagente/Não reagente

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do VDRL e FTA-Abs (Sífilis)
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
VDRL reagente (≥ 1:1) e FTA-Abs reagenteSífilis ativa ou cicatriz sorológica (infecção tratada previamente) Avaliar história clínica e titulação do VDRL; se suspeita de infecção ativa, iniciar penicilina benzatina
VDRL reagente (≥ 1:1) e FTA-Abs não reagenteFalso-positivo do VDRL (LES, gravidez, infecções virais) ou sífilis muito precoce (< 3 semanas) Repetir em 2–4 semanas; investigar causas de falso-positivo (solicitar FAN, VHS)
VDRL não reagente e FTA-Abs reagenteSífilis tratada (cicatriz sorológica) ou infecção latente tardia com VDRL negativo Avaliar história de tratamento; se assintomático e sem evidência de atividade, apenas acompanhamento
VDRL com titulação elevada (≥ 1:32) e FTA-Abs reagenteSífilis ativa (primária, secundária ou precoce latente), especialmente em gestantes Iniciar penicilina benzatina imediatamente; investigar complicações (solicitar LCR se neurológico)
VDRL com titulação baixa (1:1 a 1:8) e FTA-Abs reagenteSífilis latente tardia, tratada ou infecção inicial Avaliar duração dos sintomas; se > 1 ano, considerar penicilina benzatina em dose única
VDRL não reagente e FTA-Abs não reagenteAusência de infecção por T. pallidum ou período de janela imunológica (< 3 semanas) Se alta suspeita clínica, repetir em 3 semanas; descartar outras ISTs
VDRL com queda de 4 diluições (ex: 1:32 para 1:8) após tratamentoResposta adequada ao tratamento, indicando cura sorológica Continuar monitoramento trimestral até VDRL não reagente ou titulação estável baixa
VDRL com titulação estável ou aumento após tratamentoFalha terapêutica, reinfecção ou neurosífilis Investigar adesão; repetir tratamento com penicilina cristalina ou avaliar LCR

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para VDRL e FTA-Abs (Sífilis)
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
VDRL reagente + FTA-Abs reagenteSífilis ativa, sífilis tratada (cicatriz sorológica)História clínica, titulação serial do VDRL, LCR (se neurológico), raio-X de tórax (aortite)Infectologia
VDRL reagente + FTA-Abs não reagenteFalso-positivo do VDRL (LES, gravidez), sífilis muito precoceFAN, VHS, anti-DNA, teste de gravidez, repetição em 2–4 semanasReumatologia / Clínica Médica
VDRL não reagente + FTA-Abs reagenteSífilis tratada, sífilis latente tardiaHistória de tratamento, avaliação de parceiros, LCR se sintomas neurológicosInfectologia
VDRL com titulação elevada (≥ 1:32) em gestanteSífilis gestacional ativa, risco de transmissão verticalUltrassom fetal (hidropsia, hepatomegalia), VDRL no recém-nascido, penicilina benzatinaGinecologia e Obstetrícia
VDRL positivo em recém-nascidoSífilis congênita, transferência passiva de anticorpos maternosFTA-Abs IgM, VDRL no LCR, radiografia de ossos longos (osteocondrite)Pediatria / Infectologia

Medicamentos e Interferentes

  • Corticosteroides em altas doses — reduzem a resposta imune, podendo causar falso-negativo no VDRL em sífilis ativa
  • Imunossupressores (ciclofosfamida, azatioprina) — diminuem a produção de anticorpos, levando a titulações mais baixas ou falso-negativos
  • Penicilina recente — pode reduzir a titulação do VDRL rapidamente, mascarando a resposta ao tratamento se coletado precocemente
  • Gestação — eleva a taxa de falso-positivos no VDRL devido a alterações imunológicas, sem afetar o FTA-Abs
  • Doenças autoimunes (LES, artrite reumatoide) — causam falso-positivo no VDRL por reação cruzada com anticorpos antifosfolípides

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

O rastreio de sífilis é obrigatório no primeiro trimestre e no terceiro trimestre (ou no parto). VDRL falso-positivo é comum (1–2%), exigindo confirmação com FTA-Abs. Qualquer titulação reagente, mesmo baixa (1:1), indica tratamento com penicilina benzatina para prevenir transmissão vertical. A titulação deve cair 4 vezes em 3 meses após tratamento adequado.

Recém-nascido

O VDRL no recém-nascido pode ser positivo por transferência passiva de anticorpos maternos (titulação similar ou até 4 vezes menor que a materna). Sífilis congênita é confirmada por VDRL no LCR, FTA-Abs IgM positiva ou titulação sérica que não cai adequadamente. Todo recém-nascido de mãe com sífilis não tratada ou inadequada deve receber penicilina cristalina.

Imunossuprimido

Pacientes com HIV, transplantados ou em quimioterapia podem apresentar resposta sorológica atenuada: VDRL falso-negativo, FTA-Abs fraco ou soroconversão tardia. A sífilis pode ter curso acelerado e atípico. Recomenda-se usar testes treponêmicos específicos (TPPA, ELISA) e considerar PCR em lesões suspeitas.

Exames Relacionados

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis. Brasília: Ministério da Saúde, 2020.
  2. Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187. 10.15585/mmwr.rr7004a1
  3. Janier M, Unemo M, Dupin N, Tiplica GS, Potočnik M, Patel R. 2020 European guideline on the management of syphilis. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2021;35(3):574-588. 10.1111/jdv.16946
  4. Larsen SA, Steiner BM, Rudolph AH. Laboratory diagnosis and interpretation of tests for syphilis. Clin Microbiol Rev. 1995;8(1):1-21. 10.1128/CMR.8.1.1
  5. Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML). Recomendações da SBPC/ML para coleta, transporte e processamento de amostras para diagnóstico sorológico. 2019.

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