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Hematologia

Proteína C e Proteína S: Interpretação Clínica e Indicações

A dosagem de Proteína C e Proteína S é um exame laboratorial essencial na investigação de trombofilias hereditárias e adquiridas. A Proteína C é uma glicoproteína dependente de vitamina K, sintetizada no fígado, que atua como anticoagulante natural ao inativar os fatores Va e VIIIa da cascata de coagulação quando ativada pela trombomodulina no complexo trombina-trombomodulina. A Proteína S funciona como cofator não enzimático da Proteína C ativada, potencializando sua ação anticoagulante. A deficiência dessas proteínas, seja hereditária (autossômica dominante) ou adquirida, aumenta significativamente o risco de tromboembolismo venoso, incluindo trombose venosa profunda e embolia pulmonar. O exame é fundamental para estratificação de risco trombótico, decisão sobre anticoagulação prolongada e aconselhamento familiar. Sinônimos incluem dosagem de anticoagulantes naturais, PC funcional, PS livre e PS funcional.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo com citrato de sódio 3,2% (tampa azul)
Resultado em
3–7 dias
Código TUSS
40304710
Especialidade
Hematologia / Angiologia

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de trombose venosa profunda ou embolia pulmonar inexplicada em pacientes com menos de 50 anos CID I82
  • Tromboembolismo venoso recorrente sem fator provocador identificável CID I82
  • Necrose cutânea induzida por varfarina (forte suspeita de deficiência de Proteína C) CID D68
  • Rastreamento familiar de primeiro grau de paciente com deficiência documentada de Proteína C ou S CID D68
  • Trombose venosa em sítio atípico (mesentérica, cerebral, portal) em pacientes jovens CID I81
  • Púrpura neonatal fulminante com suspeita de deficiência homozigótica de Proteína C CID D65
  • Avaliação de trombofilia antes de início de anticoncepcionais hormonais combinados em mulheres com história familiar de trombose CID Z86
  • Investigação de perdas gestacionais recorrentes no segundo ou terceiro trimestre associadas a trombose placentária CID N96
  • Tromboembolismo venoso em paciente sem fator de risco transitório evidente (cirurgia, imobilização, neoplasia) CID I26
  • Avaliação de hipercoagulabilidade em pacientes com doença hepática crônica e eventos trombóticos paradoxais CID K74

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Uso de varfarina — reduz Proteína C e Proteína S por serem dependentes de vitamina K; suspender por pelo menos 2–4 semanas antes da coleta ou dosar durante uso de heparina
  • Fase aguda de trombose — consumo de Proteína C e S na formação do trombo pode gerar resultados falsamente baixos; aguardar 4–6 semanas após o evento agudo
  • Gestação — Proteína S livre diminui fisiologicamente a partir do primeiro trimestre, atingindo 40–50% dos valores basais; não dosar durante gestação
  • Uso de anticoncepcionais orais com estrogênio — reduz Proteína S livre em até 20–30%; suspender por 4–6 semanas antes da coleta para resultado fidedigno
  • Doença hepática aguda ou crônica descompensada — redução da síntese hepática de ambas as proteínas, dificultando distinção entre deficiência hereditária e adquirida

Valores de Referência

Valores de referência do Proteína C e Proteína S
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Proteína C funcional70–140%70–140%40–92% (neonatos); valores adultos atingidos aos 6 meses%
Proteína S livre (antígeno)65–140%55–120%30–80% (neonatos); valores adultos atingidos aos 6 meses%
Proteína S funcional65–130%55–120%Não padronizado rotineiramente em neonatos%

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Proteína C e Proteína S
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Proteína C funcional reduzida (< 70%) com Proteína S normalDeficiência isolada de Proteína C, hereditária (tipo I — quantitativa, tipo II — qualitativa) ou adquirida (CIVD, hepatopatia, uso de varfarina) Confirmar em segunda amostra após 4–6 semanas fora de anticoagulação com AVK; dosar Proteína C antigênica para classificar tipo I vs II
Proteína S livre reduzida (< 55% em mulheres, < 65% em homens) com Proteína C normalDeficiência isolada de Proteína S, hereditária (tipo I, II ou III) ou adquirida (gestação, uso de estrogênio, síndrome nefrótica, CIVD) Excluir causas adquiridas; confirmar em segunda amostra; dosar Proteína S total e livre para classificação do tipo de deficiência
Proteína C e Proteína S reduzidas simultaneamenteProvável causa adquirida: uso de varfarina, doença hepática crônica, CIVD aguda, deficiência de vitamina K. Deficiência combinada hereditária é extremamente rara Solicitar TP/INR e dosagem de fator V para avaliar função hepática; reavaliar após suspensão de AVK por 2–4 semanas
Proteína C funcional muito reduzida (< 20%) em neonato com púrpuraFortemente sugestivo de deficiência homozigótica de Proteína C, condição grave com alto risco de púrpura fulminante neonatal e CIVD Emergência hematológica: infusão de concentrado de Proteína C ou plasma fresco congelado; iniciar anticoagulação; encaminhar para centro especializado
Proteína S funcional reduzida com Proteína S livre normalPode indicar deficiência tipo II de Proteína S (qualitativa) ou interferência por fator V de Leiden/anticoagulante lúpico no ensaio funcional Pesquisar fator V de Leiden e anticorpos antifosfolípides; repetir com método diferente (ELISA) se suspeita de interferência
Valores normais de Proteína C e S em paciente com trombofilia clínicaNão exclui trombofilia; investigar outras causas como fator V de Leiden, mutação G20210A da protrombina, antitrombina III, anticorpos antifosfolípides e hiper-homocisteinemia Ampliar painel de trombofilia com pesquisa de fator V de Leiden, mutação da protrombina, antitrombina III, anticoagulante lúpico e anticardiolipina
Proteína C elevada (> 140%)Achado inespecífico, sem significado patológico definido; pode ocorrer em estados inflamatórios agudos como reagente de fase aguda inversa Não requer investigação adicional; correlacionar com contexto clínico
Proteína S livre reduzida em mulher jovem usando anticoncepcional oral combinadoRedução adquirida por efeito estrogênico sobre a proteína carreadora (C4b-BP), aumentando a fração ligada e diminuindo a livre. Não representa deficiência hereditária Suspender anticoncepcional por 4–6 semanas e repetir dosagem para avaliação fidedigna; considerar método contraceptivo alternativo se confirmada deficiência

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Proteína C e Proteína S
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Proteína C ou S reduzida + TVP/TEP em jovemDeficiência hereditária de Proteína C/S, fator V de Leiden, mutação da protrombina, síndrome antifosfolípidePainel completo de trombofilia: antitrombina III, fator V de Leiden, mutação G20210A, anticorpos antifosfolípides, homocisteínaHematologia
Proteína C e S reduzidas + TP alargadoUso de varfarina, doença hepática crônica, deficiência de vitamina K, CIVDTP/INR, fibrinogênio, D-dímero, fator V, albumina, bilirrubinas, transaminasesHematologia / Hepatologia
Proteína S livre reduzida isolada em mulher jovemEfeito estrogênico (ACO/gestação), deficiência hereditária tipo III, síndrome nefróticaRepetir após suspensão de estrogênio por 4–6 semanas, proteinúria de 24h, Proteína S totalHematologia / Ginecologia
Proteína C muito reduzida em neonato com púrpuraDeficiência homozigótica de Proteína C, CIVD neonatal, sepse neonatalTP/INR, TTPa, fibrinogênio, D-dímero, hemoculturas, dosagem de Proteína C antigênica, estudo genéticoHematologia pediátrica / Neonatologia

Medicamentos e Interferentes

  • Varfarina e outros antagonistas de vitamina K — reduzem Proteína C e S por inibirem a carboxilação gama dos fatores dependentes de vitamina K; aguardar 2–4 semanas após suspensão
  • Heparina não fracionada e HBPM — podem causar elevação discreta da Proteína C funcional por interferência no substrato cromogênico em alguns ensaios
  • Gestação — reduz Proteína S livre progressivamente a partir do primeiro trimestre devido ao aumento de C4b-BP (proteína de ligação do complemento)
  • Doença hepática crônica — reduz síntese de ambas as proteínas proporcionalmente à gravidade da disfunção hepática, mimetizando deficiência hereditária

Contextos Clínicos Especiais

Idoso

Os níveis de Proteína C tendem a se manter estáveis ou discretamente aumentar com a idade. A Proteína S livre pode reduzir discretamente. A investigação de trombofilia hereditária em idosos com primeiro episódio trombótico após 60 anos tem menor rendimento diagnóstico, devendo-se priorizar investigação de neoplasia oculta.

Gestante

A Proteína S livre diminui fisiologicamente durante a gestação, atingindo 40–50% dos valores basais no terceiro trimestre, por aumento da C4b-BP estrogênio-dependente. Não se deve dosar Proteína S durante a gestação para investigação de trombofilia hereditária. Proteína C mantém-se relativamente estável. Em gestantes com trombose prévia e deficiência documentada, profilaxia com HBPM deve ser considerada durante toda a gestação e puerpério.

Exames Relacionados

Complementares Solicitar em conjunto
Condicionais Solicitar se...
  • Proteína C ou S reduzida confirmada
  • Proteína S funcional reduzida com livre normal

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Marlar RA, et al. Laboratory testing for protein C deficiency/protein S deficiency: an ISTH SSC communication. J Thromb Haemost. 2021;19(1):68-74. 10.1111/jth.15110
  2. Connors JM. Thrombophilia testing and venous thrombosis. N Engl J Med. 2017;377(12):1177-1187. 10.1056/NEJMra1700365
  3. Baglin T, et al. Clinical guidelines for testing for heritable thrombophilia. Br J Haematol. 2010;149(2):209-220. 10.1111/j.1365-2141.2009.08022.x

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