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Infectologia

Procalcitonina: Interpretação Clínica e Indicações

A procalcitonina (PCT) é um pró-hormônio da calcitonina, produzido principalmente pelas células C da tireoide em condições fisiológicas. Em resposta a infecções bacterianas sistêmicas, sua produção é estimulada em diversos tecidos, tornando-se um biomarcador específico para sepse bacteriana. Clinicamente, é utilizada para diferenciar infecções bacterianas de virais ou inflamações não infecciosas, além de guiar a antibioticoterapia, auxiliando na decisão de iniciar, descalonar ou suspender antimicrobianos. É indicada para pacientes com suspeita de sepse, pneumonia adquirida na comunidade, meningite e infecções intra-abdominais, sendo especialmente útil em serviços de urgência e terapia intensiva. Sinônimos incluem PCT e pró-calcitonina.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo com gel separador (tampa amarela ou vermelha)
Resultado em
1–2 horas (método imunoensaio)
Código TUSS
40322236
Especialidade
Infectologia / Medicina de Urgência

Quando solicitar este exame?

  • Suspensão de antibioticoterapia em pacientes com sepse bacteriana após melhora clínica e queda da PCT CID A41
  • Diagnóstico diferencial entre sepse bacteriana e choque séptico de outras etiologias (ex: cardiogênico) CID R57
  • Monitoramento da resposta ao tratamento em pneumonia bacteriana adquirida na comunidade CID J18
  • Avaliação de infecção bacteriana em pacientes com pancreatite aguda para guiar uso de antibióticos CID K85
  • Triagem para sepse em neonatos com suspeita de infecção congênita ou precoce CID P36
  • Diferenciação entre meningite bacteriana e viral em pacientes com sintomas neurológicos e febre CID G00
  • Guia para descalonar antibioticoterapia em pacientes com infecção do trato urinário complicada CID N39
  • Avaliação de resposta ao tratamento em endocardite infecciosa para ajuste de esquema antimicrobiano CID I33
  • Diagnóstico de infecção bacteriana em pacientes imunossuprimidos com febre de origem indeterminada CID D84
  • Monitoramento de infecção pós-operatória em cirurgias de grande porte (ex: abdominal, cardíaca) CID T81

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — interfere na leitura por alteração da absorbância, podendo causar resultados falsamente elevados ou reduzidos
  • Lipemia intensa — pode interferir na reação antígeno-anticorpo, levando a subestimação dos valores de PCT
  • Coleta em tubo com anticoagulante (EDTA, heparina) — não recomendada, pois pode alterar a estabilidade do biomarcador e gerar resultados imprecisos
  • Tempo prolongado entre coleta e processamento (>24 horas em temperatura ambiente) — degradação da PCT, resultando em falsa redução
  • Contaminação bacteriana da amostra — crescimento in vitro pode elevar artificialmente os níveis de PCT

Valores de Referência

Valores de referência do Procalcitonina
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Procalcitonina< 0,10< 0,10< 0,10 (acima de 72 horas de vida)ng/mL

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Procalcitonina
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
PCT < 0,10 ng/mLBaixa probabilidade de infecção bacteriana sistêmica; sugere etiologia viral ou inflamação não infecciosa Considerar suspensão ou não início de antibioticoterapia, se clinicamente apropriado
PCT 0,10–0,25 ng/mLZona cinzenta; possível infecção bacteriana localizada ou resposta inflamatória inicial Avaliar contexto clínico e sintomas; considerar repetição em 6–12 horas se persistirem sinais de infecção
PCT 0,25–0,50 ng/mLSugestiva de infecção bacteriana sistêmica moderada ou sepse Iniciar antibioticoterapia empírica adequada e monitorar resposta clínica e laboratorial
PCT 0,50–2,00 ng/mLAlta probabilidade de sepse bacteriana ou infecção grave Iniciar antibioticoterapia de amplo espectro imediatamente e investigar foco infeccioso
PCT 2,00–10,00 ng/mLSepse grave ou choque séptico com alta carga bacteriana Antibioticoterapia intravenosa urgente, suporte hemodinâmico e monitoramento em UTI
PCT > 10,00 ng/mLChoque séptico estabelecido ou infecção bacteriana disseminada (ex: meningococcemia) Internação em UTI, antibioticoterapia de amplo espectro, suporte avançado de vida
PCT elevada em paciente assintomáticoPossível falso positivo por condição não infecciosa (ex: trauma, queimadura) ou erro pré-analítico Reavaliar história clínica e repetir exame; investigar causas não infecciosas
PCT normal em paciente com sepse clínicaFalso negativo possível em infecções localizadas, início precoce ou imunossupressão Não excluir sepse baseado apenas na PCT; tratar conforme avaliação clínica e outros marcadores

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Procalcitonina
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
PCT elevada (>0,50 ng/mL) com febre e hipotensãoSepse bacteriana, choque séptico, infecção graveHemoculturas, lactato, PCR, gasometria arterialInfectologia / Medicina Intensiva
PCT normal (<0,10 ng/mL) com febre e sintomas respiratóriosPneumonia viral, influenza, COVID-19, inflamação não infecciosaPCR, radiografia de tórax, painel viral respiratórioClínica Médica / Pneumologia
PCT moderadamente elevada (0,25–2,00 ng/mL) em pós-operatórioInfecção de sítio cirúrgico, resposta inflamatória ao trauma, atelectasiaHemoculturas, ultrassonografia ou TC do local cirúrgico, leucogramaCirurgia / Infectologia
PCT persistentemente elevada apesar de antibioticoterapiaFoco infeccioso não drenado, antibioticoterapia inadequada, abscessoTC ou RM para busca de coleções, revisão de culturas e antibiogramaInfectologia / Cirurgia
PCT elevada em paciente com insuficiência renalSepse bacteriana, redução da depuração renal da PCT, inflamação urêmicaHemoculturas, urinocultura, ultrassonografia renalNefrologia / Infectologia

Medicamentos e Interferentes

  • Imunossupressores (corticoides em altas doses) — reduzem a resposta inflamatória, podendo diminuir os níveis de PCT
  • Antibioticoterapia precoce — uso antes da coleta pode reduzir os níveis de PCT, mascarando infecção bacteriana
  • Insuficiência renal crônica — redução da depuração renal pode elevar falsamente a PCT, independente de infecção
  • Terapia com calcitonina — uso exógeno pode interferir no ensaio, causando resultados falsamente elevados

Contextos Clínicos Especiais

Neonatos

Valores de referência são semelhantes a adultos após 72 horas de vida, mas no período neonatal precoce podem estar elevados fisiológicamente. A PCT tem boa acurácia para sepse neonatal, porém deve ser interpretada com cautela em prematuros. Recomenda-se utilizar pontos de corte específicos para idade gestacional.

Idosos

Podem apresentar resposta atenuada da PCT em infecções bacterianas devido a imunossenescência, resultando em falsos negativos. Além disso, comorbidades como insuficiência renal crônica podem elevar os níveis basalmente. A avaliação clínica é crucial para evitar sub ou superdiagnóstico.

Imunossuprimidos

Pacientes com neutropenia, HIV avançado ou em uso de imunossupressores podem ter resposta reduzida da PCT, mesmo em infecções bacterianas graves. A sensibilidade do exame é menor, necessitando de alta suspeição clínica e uso complementar de outros marcadores (ex: hemoculturas, PCR).

Exames Relacionados

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Schuetz P, Wirz Y, Sager R, et al. Effect of procalcitonin-guided antibiotic treatment on mortality in acute respiratory infections: a patient level meta-analysis. Lancet Infect Dis. 2018;18(1):95-107. 10.1016/S1473-3099(17)30592-3
  2. Sociedade Brasileira de Infectologia. Diretrizes para o manejo da sepse. 2021.
  3. Rhodes A, Evans LE, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock: 2016. Intensive Care Med. 2017;43(3):304-377. 10.1007/s00134-017-4683-6
  4. Wacker C, Prkno A, Brunkhorst FM, Schlattmann P. Procalcitonin as a diagnostic marker for sepsis: a systematic review and meta-analysis. Lancet Infect Dis. 2013;13(5):426-435. 10.1016/S1473-3099(12)70323-7
  5. Associação de Medicina Intensiva Brasileira. Protocolos clínicos de sepse. 2020.

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