G6PD (Glicose-6-fosfato desidrogenase): Interpretação Clínica e Indicações
A Glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) é uma enzima intracelular fundamental na via das pentoses-fosfato, responsável pela produção de NADPH, essencial para a defesa antioxidante das hemácias. A dosagem da atividade da G6PD avalia a capacidade enzimática eritrocitária, sendo clinicamente relevante para identificar deficiências hereditárias ligadas ao cromossomo X. É indicada principalmente para triagem prévia à administração de drogas oxidantes (como primaquina, dapsona, sulfonamidas) e na investigação de anemias hemolíticas não imunes, especialmente em pacientes do sexo masculino, recém-nascidos com icterícia neonatal ou indivíduos com histórico familiar. Também conhecida como teste de deficiência de G6PD, sua interpretação requer atenção ao estado hemolítico do paciente, pois resultados falsamente normais podem ocorrer durante crises agudas devido à reticulocitose.
Quando solicitar este exame?
- Triagem prévia ao uso de drogas oxidantes (primaquina para malária vivax, dapsona para hanseníase, sulfonamidas) em pacientes de risco. CID B51
- Investigação de anemia hemolítica não imune com esferócitos e corpúsculos de Heinz no esfregaço periférico. CID D55
- Icterícia neonatal prolongada ou grave sem incompatibilidade ABO/Rh, especialmente em recém-nascidos do sexo masculino. CID P59
- História familiar de deficiência de G6PD ou crises hemolíticas após ingestão de favas (favismo). CID D55
- Anemia hemolítica após infecções bacterianas ou virais graves (ex: pneumonia, hepatite viral). CID D59
- Monitoramento de pacientes com deficiência conhecida antes de procedimentos que envolvam agentes oxidantes (ex: anestésicos como lidocaína). CID D55
- Avaliação de doadores de sangue em regiões de alta prevalência da deficiência (ex: Norte e Nordeste do Brasil). CID Z00
- Síndrome anêmica com reticulocitose elevada e bilirrubina indireta aumentada sem causa autoimune evidente. CID D64
- Pacientes com hemoglobinúria ou urina escura após uso de medicamentos de risco sem diagnóstico estabelecido. CID R82
- Triagem em populações de alta prevalência (afrodescendentes, mediterrâneos, asiáticos) antes de prescrição de drogas de risco. CID Z13
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise da amostra — libera enzimas intracelulares que interferem na reação espectrofotométrica, podendo causar resultados falsamente elevados.
- Amostra antiga (> 48 horas) ou armazenada em temperatura ambiente — degradação da enzima G6PD, levando a resultados falsamente reduzidos.
- Reticulocitose > 10% — reticulócitos têm atividade de G6PD mais alta que hemácias maduras, mascarando deficiência enzimática durante crises hemolíticas.
- Transfusão sanguínea recente (< 3 meses) — diluição das hemácias do paciente com hemácias normais do doador, resultando em atividade enzimática falsamente normal.
- Lipemia intensa — interfere na leitura espectrofotométrica, causando subestimação ou superestimação da atividade enzimática.
- Uso de anticoagulante citrato — inibe a atividade da G6PD, resultando em valores falsamente baixos; preferir EDTA ou heparina.
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| Atividade de G6PD | ≥ 4,6 U/g Hb | ≥ 4,6 U/g Hb (heterozigotas podem ter valores intermediários 2,3–4,5 U/g Hb) | ≥ 4,6 U/g Hb (recém-nascidos podem ter valores 20–30% mais altos) | U/g Hb |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| Atividade de G6PD < 2,3 U/g Hb | Deficiência grave compatível com variante deficiente (ex: G6PD Mediterrânea). Risco alto de crise hemolítica com drogas oxidantes. | Contraindicar drogas oxidantes; orientar evitar favas; solicitar esfregaço de sangue periférico e bilirrubinas. |
| Atividade de G6PD 2,3–4,5 U/g Hb | Deficiência parcial ou heterozigotia em mulheres. Risco moderado de hemólise com drogas oxidantes. | Avaliar risco-benefício do uso de drogas oxidantes; monitorar hemograma semanalmente se usar. |
| Atividade de G6PD ≥ 4,6 U/g Hb | Atividade enzimática normal. Baixo risco de crise hemolítica por deficiência de G6PD. | Permitir uso de drogas oxidantes com monitoramento clínico habitual. |
| Atividade normal durante crise hemolítica aguda | Possível falso negativo devido à reticulocitose. Não exclui deficiência de G6PD. | Repetir dosagem após 3 meses da crise ou solicitar teste genético molecular. |
| Atividade reduzida em recém-nascido com icterícia | Deficiência de G6PD neonatal. Risco de kernicterus se bilirrubina indireta > 20 mg/dL. | Fototerapia imediata; avaliar exsanguineotransfusão se bilirrubina > 25 mg/dL. |
| Atividade normal em paciente com história de favismo | Possível variante genética com atividade basal normal mas instável (ex: G6PD A-). | Considerar teste de estabilidade enzimática ou teste genético para confirmação. |
| Atividade reduzida após transfusão recente | Resultado não confiável devido à diluição com hemácias do doador. | Aguardar 3 meses após transfusão para repetir dosagem em hemácias autólogas. |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| Anemia hemolítica com G6PD reduzida | Deficiência hereditária de G6PD, favismo, hemólise por drogas oxidantes. | Esfregaço de sangue periférico (corpúsculos de Heinz), bilirrubinas, haptoglobina. | Hematologia |
| Anemia hemolítica com G6PD normal durante crise | Deficiência de G6PD mascarada por reticulocitose, hemoglobinopatias instáveis, deficiência de piruvato quinase. | Reticulócitos, eletroforese de hemoglobina, dosagem de piruvato quinase. | Hematologia |
| Icterícia neonatal com G6PD reduzida | Deficiência de G6PD neonatal, incompatibilidade ABO/Rh, sepse neonatal. | Teste de Coombs, hemoculturas, bilirrubina total e frações. | Neonatologia / Pediatria |
| Hemoglobinúria com G6PD reduzida | Crise hemolítica por deficiência de G6PD, hemoglobinúria paroxística noturna (HPN), síndrome hemolítico-urêmica. | EAS urina, citometria de fluxo para CD55/CD59, creatinina-ureia. | Hematologia / Nefrologia |
| G6PD reduzida em paciente assintomático | Deficiência de G6PD em estado basal, portador saudável, interferência pré-analítica. | Repetição do exame após 3 meses, teste genético molecular. | Hematologia / Clínica Médica |
Medicamentos e Interferentes
- Transfusão sanguínea recente — dilui hemácias deficientes com hemácias normais, elevando falsamente a atividade de G6PD.
- Reticulocitose > 10% — reticulócitos têm atividade enzimática maior, elevando falsamente a G6PD durante crises hemolíticas.
- Ácido ascórbico (vitamina C) em altas doses — pode oxidar a NADPH, reduzindo falsamente a atividade medida.
- Heparina como anticoagulante — pode inibir levemente a enzima, reduzindo os valores em até 10%.
- Hemólise in vitro — libera enzimas intracelulares que competem no ensaio, podendo elevar ou reduzir resultados.
Contextos Clínicos Especiais
Recém-nascidos
A deficiência de G6PD é causa comum de icterícia neonatal grave, podendo levar a kernicterus se bilirrubina indireta > 20 mg/dL. Recém-nascidos do sexo masculino são mais afetados. A atividade enzimática pode ser 20–30% mais alta que em adultos, mas valores 25 mg/dL.
Gestantes
Gestantes com deficiência de G6PD têm risco aumentado de anemia hemolítica durante infecções ou uso de drogas oxidantes (ex: sulfonamidas para ITU). A triagem pré-natal é recomendada em regiões de alta prevalência. O feto pode ser afetado se a mãe for heterozigota e o feto masculino herdar o alelo deficiente. Monitorar hemograma e bilirrubinas no terceiro trimestre.
Exames Relacionados
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
O valor normal de atividade de G6PD é ≥ 4,6 U/g de hemoglobina para adultos e crianças, conforme método espectrofotométrico. Recém-nascidos podem ter valores 20–30% mais altos. Valores entre 2,3 e 4,5 U/g Hb indicam deficiência parcial, e abaixo de 2,3 U/g Hb indicam deficiência grave.
Não, a dosagem de G6PD não requer jejum. A coleta pode ser feita a qualquer momento, pois a atividade enzimática não varia com a alimentação. O importante é usar tubo adequado (EDTA ou heparina) e processar a amostra em até 48 horas refrigerada.
G6PD alterado (abaixo de 4,6 U/g Hb) indica deficiência enzimática, que pode ser hereditária (ligada ao X) ou adquirida. Clinicamente, predispõe a crises hemolíticas com drogas oxidantes, infecções ou ingestão de favas. A gravidade depende do grau de deficiência e da variante genética.
Diferenciar pela história clínica (exposição a drogas oxidantes, favismo), esfregaço periférico (corpúsculos de Heinz) e dosagem de G6PD. Outras anemias hemolíticas como esferocitose hereditária têm esferócitos uniformes, e hemoglobinopatias têm eletroforese alterada. A deficiência de G6PD é confirmada com atividade enzimática reduzida.
Peça G6PD especificamente para triagem antes de drogas oxidantes (primaquina, dapsona) ou na investigação de anemia hemolítica não imune com suspeita enzimática. O hemograma é mais amplo para triagem inicial de anemia. Use G6PD quando a história sugerir deficiência, mesmo com hemograma normal.
Não, G6PD normal não exclui completamente deficiência. Falsos negativos ocorrem durante crises hemolíticas (reticulocitose) ou em mulheres heterozigotas. Se a história for sugestiva, repetir após 3 meses da crise ou solicitar teste genético.
Contraindicar primaquina se atividade de G6PD for < 4,6 U/g Hb. Em deficiência parcial (2,3–4,5 U/g Hb), avaliar risco-benefício com monitoramento rigoroso. Na deficiência grave (< 2,3 U/g Hb), a primaquina é absolutamente contraindicada devido ao alto risco de hemólise grave.
Sim, a atividade de G6PD pode ser 20–30% mais alta em recém-nascidos, diminuindo gradualmente até os valores adultos após alguns meses. Em idosos, pode haver leve redução por comorbidades, mas não é clinicamente significativa. Sempre usar intervalos de referência por faixa etária.
Referências
- Sociedade Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (SBHH). Diretrizes para o diagnóstico e manejo das deficiências de enzimas eritrocitárias. 2021.
- World Health Organization. Guidelines for the treatment of malaria. 3rd ed. Geneva: WHO; 2015. 10.2471/BLT.15.162289
- Luzzatto L, Nannelli C, Notaro R. Glucose-6-phosphate dehydrogenase deficiency. Hematol Oncol Clin North Am. 2016;30(2):373–93. 10.1016/j.hoc.2015.11.006
- Ministério da Saúde (Brasil). Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para malária. Brasília: MS; 2020.
- Cappellini MD, Fiorelli G. Glucose-6-phosphate dehydrogenase deficiency. Lancet. 2008;371(9606):64–74. 10.1016/S0140-6736(08)60073-2