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Hematologia

G6PD (Glicose-6-fosfato desidrogenase): Interpretação Clínica e Indicações

A Glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) é uma enzima intracelular fundamental na via das pentoses-fosfato, responsável pela produção de NADPH, essencial para a defesa antioxidante das hemácias. A dosagem da atividade da G6PD avalia a capacidade enzimática eritrocitária, sendo clinicamente relevante para identificar deficiências hereditárias ligadas ao cromossomo X. É indicada principalmente para triagem prévia à administração de drogas oxidantes (como primaquina, dapsona, sulfonamidas) e na investigação de anemias hemolíticas não imunes, especialmente em pacientes do sexo masculino, recém-nascidos com icterícia neonatal ou indivíduos com histórico familiar. Também conhecida como teste de deficiência de G6PD, sua interpretação requer atenção ao estado hemolítico do paciente, pois resultados falsamente normais podem ocorrer durante crises agudas devido à reticulocitose.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso total — tubo com EDTA (tampa roxa) ou heparina (tampa verde)
Resultado em
24–48 horas (métodos espectrofotométricos ou fluorimétricos)
Código TUSS
40322318
Especialidade
Hematologia / Clínica Médica / Infectologia

Quando solicitar este exame?

  • Triagem prévia ao uso de drogas oxidantes (primaquina para malária vivax, dapsona para hanseníase, sulfonamidas) em pacientes de risco. CID B51
  • Investigação de anemia hemolítica não imune com esferócitos e corpúsculos de Heinz no esfregaço periférico. CID D55
  • Icterícia neonatal prolongada ou grave sem incompatibilidade ABO/Rh, especialmente em recém-nascidos do sexo masculino. CID P59
  • História familiar de deficiência de G6PD ou crises hemolíticas após ingestão de favas (favismo). CID D55
  • Anemia hemolítica após infecções bacterianas ou virais graves (ex: pneumonia, hepatite viral). CID D59
  • Monitoramento de pacientes com deficiência conhecida antes de procedimentos que envolvam agentes oxidantes (ex: anestésicos como lidocaína). CID D55
  • Avaliação de doadores de sangue em regiões de alta prevalência da deficiência (ex: Norte e Nordeste do Brasil). CID Z00
  • Síndrome anêmica com reticulocitose elevada e bilirrubina indireta aumentada sem causa autoimune evidente. CID D64
  • Pacientes com hemoglobinúria ou urina escura após uso de medicamentos de risco sem diagnóstico estabelecido. CID R82
  • Triagem em populações de alta prevalência (afrodescendentes, mediterrâneos, asiáticos) antes de prescrição de drogas de risco. CID Z13

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — libera enzimas intracelulares que interferem na reação espectrofotométrica, podendo causar resultados falsamente elevados.
  • Amostra antiga (> 48 horas) ou armazenada em temperatura ambiente — degradação da enzima G6PD, levando a resultados falsamente reduzidos.
  • Reticulocitose > 10% — reticulócitos têm atividade de G6PD mais alta que hemácias maduras, mascarando deficiência enzimática durante crises hemolíticas.
  • Transfusão sanguínea recente (< 3 meses) — diluição das hemácias do paciente com hemácias normais do doador, resultando em atividade enzimática falsamente normal.
  • Lipemia intensa — interfere na leitura espectrofotométrica, causando subestimação ou superestimação da atividade enzimática.
  • Uso de anticoagulante citrato — inibe a atividade da G6PD, resultando em valores falsamente baixos; preferir EDTA ou heparina.

Valores de Referência

Valores de referência do G6PD (Glicose-6-fosfato desidrogenase)
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Atividade de G6PD≥ 4,6 U/g Hb≥ 4,6 U/g Hb (heterozigotas podem ter valores intermediários 2,3–4,5 U/g Hb)≥ 4,6 U/g Hb (recém-nascidos podem ter valores 20–30% mais altos)U/g Hb

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do G6PD (Glicose-6-fosfato desidrogenase)
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Atividade de G6PD < 2,3 U/g HbDeficiência grave compatível com variante deficiente (ex: G6PD Mediterrânea). Risco alto de crise hemolítica com drogas oxidantes. Contraindicar drogas oxidantes; orientar evitar favas; solicitar esfregaço de sangue periférico e bilirrubinas.
Atividade de G6PD 2,3–4,5 U/g HbDeficiência parcial ou heterozigotia em mulheres. Risco moderado de hemólise com drogas oxidantes. Avaliar risco-benefício do uso de drogas oxidantes; monitorar hemograma semanalmente se usar.
Atividade de G6PD ≥ 4,6 U/g HbAtividade enzimática normal. Baixo risco de crise hemolítica por deficiência de G6PD. Permitir uso de drogas oxidantes com monitoramento clínico habitual.
Atividade normal durante crise hemolítica agudaPossível falso negativo devido à reticulocitose. Não exclui deficiência de G6PD. Repetir dosagem após 3 meses da crise ou solicitar teste genético molecular.
Atividade reduzida em recém-nascido com icteríciaDeficiência de G6PD neonatal. Risco de kernicterus se bilirrubina indireta > 20 mg/dL. Fototerapia imediata; avaliar exsanguineotransfusão se bilirrubina > 25 mg/dL.
Atividade normal em paciente com história de favismoPossível variante genética com atividade basal normal mas instável (ex: G6PD A-). Considerar teste de estabilidade enzimática ou teste genético para confirmação.
Atividade reduzida após transfusão recenteResultado não confiável devido à diluição com hemácias do doador. Aguardar 3 meses após transfusão para repetir dosagem em hemácias autólogas.

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para G6PD (Glicose-6-fosfato desidrogenase)
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Anemia hemolítica com G6PD reduzidaDeficiência hereditária de G6PD, favismo, hemólise por drogas oxidantes.Esfregaço de sangue periférico (corpúsculos de Heinz), bilirrubinas, haptoglobina.Hematologia
Anemia hemolítica com G6PD normal durante criseDeficiência de G6PD mascarada por reticulocitose, hemoglobinopatias instáveis, deficiência de piruvato quinase.Reticulócitos, eletroforese de hemoglobina, dosagem de piruvato quinase.Hematologia
Icterícia neonatal com G6PD reduzidaDeficiência de G6PD neonatal, incompatibilidade ABO/Rh, sepse neonatal.Teste de Coombs, hemoculturas, bilirrubina total e frações.Neonatologia / Pediatria
Hemoglobinúria com G6PD reduzidaCrise hemolítica por deficiência de G6PD, hemoglobinúria paroxística noturna (HPN), síndrome hemolítico-urêmica.EAS urina, citometria de fluxo para CD55/CD59, creatinina-ureia.Hematologia / Nefrologia
G6PD reduzida em paciente assintomáticoDeficiência de G6PD em estado basal, portador saudável, interferência pré-analítica.Repetição do exame após 3 meses, teste genético molecular.Hematologia / Clínica Médica

Medicamentos e Interferentes

  • Transfusão sanguínea recente — dilui hemácias deficientes com hemácias normais, elevando falsamente a atividade de G6PD.
  • Reticulocitose > 10% — reticulócitos têm atividade enzimática maior, elevando falsamente a G6PD durante crises hemolíticas.
  • Ácido ascórbico (vitamina C) em altas doses — pode oxidar a NADPH, reduzindo falsamente a atividade medida.
  • Heparina como anticoagulante — pode inibir levemente a enzima, reduzindo os valores em até 10%.
  • Hemólise in vitro — libera enzimas intracelulares que competem no ensaio, podendo elevar ou reduzir resultados.

Contextos Clínicos Especiais

Recém-nascidos

A deficiência de G6PD é causa comum de icterícia neonatal grave, podendo levar a kernicterus se bilirrubina indireta > 20 mg/dL. Recém-nascidos do sexo masculino são mais afetados. A atividade enzimática pode ser 20–30% mais alta que em adultos, mas valores 25 mg/dL.

Gestantes

Gestantes com deficiência de G6PD têm risco aumentado de anemia hemolítica durante infecções ou uso de drogas oxidantes (ex: sulfonamidas para ITU). A triagem pré-natal é recomendada em regiões de alta prevalência. O feto pode ser afetado se a mãe for heterozigota e o feto masculino herdar o alelo deficiente. Monitorar hemograma e bilirrubinas no terceiro trimestre.

Exames Relacionados

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (SBHH). Diretrizes para o diagnóstico e manejo das deficiências de enzimas eritrocitárias. 2021.
  2. World Health Organization. Guidelines for the treatment of malaria. 3rd ed. Geneva: WHO; 2015. 10.2471/BLT.15.162289
  3. Luzzatto L, Nannelli C, Notaro R. Glucose-6-phosphate dehydrogenase deficiency. Hematol Oncol Clin North Am. 2016;30(2):373–93. 10.1016/j.hoc.2015.11.006
  4. Ministério da Saúde (Brasil). Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para malária. Brasília: MS; 2020.
  5. Cappellini MD, Fiorelli G. Glucose-6-phosphate dehydrogenase deficiency. Lancet. 2008;371(9606):64–74. 10.1016/S0140-6736(08)60073-2

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