FSH e LH: Interpretação Clínica e Indicações
O FSH (hormônio folículo-estimulante) e o LH (hormônio luteinizante) são glicoproteínas secretadas pela hipófise anterior que regulam a função gonadal em ambos os sexos. Esses hormônios atuam no eixo hipotálamo-hipófise-gônada, estimulando a produção de esteroides sexuais (estradiol e testosterona) e a gametogênese. A dosagem sérica de FSH e LH é clinicamente relevante para investigar distúrbios da fertilidade, avaliar a reserva ovariana, diagnosticar menopausa, identificar puberdade precoce ou tardia, e diferenciar causas de hipogonadismo (primário vs. secundário). É indicada para pacientes com suspeita de disfunção gonadal, alterações menstruais, infertilidade ou sinais de hipogonadismo. Sinônimos incluem gonadotrofinas hipofisárias.
Quando solicitar este exame?
- Investigação de infertilidade feminina com ciclos menstruais irregulares ou anovulação CID N97
- Avaliação da reserva ovariana em mulheres com idade avançada ou história de falência ovariana prematura CID E28.3
- Confirmação diagnóstica de menopausa em mulheres com amenorreia e sintomas vasomotores CID N95.1
- Avaliação de hipogonadismo masculino com redução da libido, disfunção erétil ou infertilidade CID E29.1
- Investigação de puberdade precoce em crianças com desenvolvimento de caracteres sexuais secundários antes dos 8 anos (meninas) ou 9 anos (meninos) CID E30.1
- Avaliação de puberdade tardia em adolescentes sem desenvolvimento puberal após os 13 anos (meninas) ou 14 anos (meninos) CID E30.0
- Diferenciação entre hipogonadismo primário (hipergonadotrófico) e secundário (hipogonadotrófico) CID E23.0
- Monitoramento de terapia de reposição hormonal ou indução da ovulação em tratamentos de fertilidade CID Z51.8
- Investigação de síndrome dos ovários policísticos em mulheres com hirsutismo, acne e oligomenorreia CID E28.2
- Avaliação de tumores hipofisários secretores de gonadotrofinas em pacientes com alterações visuais e disfunção gonadal CID D35.2
Como é feito o exame?
Variáveis pré-analíticas e interferentes
- Hemólise da amostra — interfere na dosagem por liberação de hemoglobina, podendo causar resultados falsamente elevados ou reduzidos dependendo do método
- Lipemia intensa — turbidez interfere na leitura espectrofotométrica, causando pseudo-elevação dos níveis hormonais
- Coleta em horário inadequado — em mulheres, coleta fora da fase folicular (dia 2-5 do ciclo) altera os valores de referência, levando a interpretação errônea
- Uso de anticoagulantes heparinizados — pode interferir na reação antígeno-anticorpo, resultando em subdosagem
- Exposição da amostra a temperaturas extremas — degradação das gonadotrofinas ocorre se não refrigerada, causando resultados falsamente baixos
Valores de Referência
| Parâmetro | Homens | Mulheres | Crianças | Unidade |
|---|---|---|---|---|
| FSH | 1,5–12,4 mUI/mL | Fase folicular: 3,5–12,5 mUI/mL; Ovulação: 4,7–21,5 mUI/mL; Fase lútea: 1,7–7,7 mUI/mL; Pós-menopausa: 25,8–134,8 mUI/mL | Pré-puberdade: < 4,0 mUI/mL (ambos os sexos) | mUI/mL |
| LH | 1,7–8,6 mUI/mL | Fase folicular: 2,4–12,6 mUI/mL; Ovulação: 14,0–95,6 mUI/mL; Fase lútea: 1,0–11,4 mUI/mL; Pós-menopausa: 7,7–58,5 mUI/mL | Pré-puberdade: < 3,0 mUI/mL (ambos os sexos) | mUI/mL |
Como interpretar o resultado?
| Achado | Interpretação | Próxima conduta |
|---|---|---|
| FSH e LH elevados com estradiol baixo (mulheres) ou testosterona baixa (homens) | Indica hipogonadismo primário (hipergonadotrófico), como falência ovariana prematura, síndrome de Turner ou síndrome de Klinefelter | Solicitar cariótipo, dosagem de AMH (mulheres) e ecografia pélvica/testicular |
| FSH e LH baixos ou normais com estradiol baixo (mulheres) ou testosterona baixa (homens) | Sugere hipogonadismo secundário (hipogonadotrófico), como síndrome de Kallmann, tumores hipofisários ou hiperprolactinemia | Solicitar ressonância magnética de hipófise, dosagem de prolactina e outros hormônios hipofisários |
| FSH elevado (> 25 mUI/mL) e LH elevado em mulher pós-menopáusica | Achado esperado na menopausa, confirmando depleção folicular ovariana | Correlacionar com sintomas clínicos e considerar terapia de reposição hormonal se indicado |
| Relação LH/FSH > 2 em mulher com oligomenorreia e hirsutismo | Sugere síndrome dos ovários policísticos (SOP), com hiperandrogenismo e anovulação | Solicitar dosagem de testosterona livre, SHBG e ecografia pélvica |
| FSH e LH elevados em criança pré-puberal | Indica puberdade precoce central ou periférica, exigindo investigação de causas orgânicas | Solicitar dosagem de estradiol ou testosterona, idade óssea e ressonância magnética de encéfalo |
| FSH e LH baixos em adolescente sem desenvolvimento puberal | Sugere puberdade tardia constitucional ou hipogonadismo hipogonadotrófico | Avaliar idade óssea, história familiar e investigar causas de hipogonadismo secundário |
| FSH normal e LH elevado em homem com infertilidade | Pode indicar disfunção de células de Leydig com produção inadequada de testosterona | Solicitar dosagem de testosterona total e livre, espermograma e avaliação urológica |
| FSH elevado isoladamente com LH normal em mulher | Sugere redução da reserva ovariana, como em insuficiência ovariana oculta | Solicitar dosagem de AMH e ecografia pélvica para contagem de folículos antrais |
Diagnóstico Diferencial
| Alteração | Hipóteses diagnósticas | Exames complementares | Especialidade |
|---|---|---|---|
| FSH e LH elevados com hipoestrogenismo | Hipogonadismo primário: falência ovariana prematura, síndrome de Turner, síndrome de Klinefelter | Cariótipo, AMH, ecografia pélvica/testicular, dosagem de autoanticorpos ovarianos | Endocrinologia / Ginecologia |
| FSH e LH baixos/normais com hipoestrogenismo | Hipogonadismo secundário: síndrome de Kallmann, tumor hipofisário, hiperprolactinemia | Ressonância magnética de hipófise, dosagem de prolactina, outros hormônios hipofisários (TSH, cortisol, GH) | Endocrinologia / Neuroendocrinologia |
| LH elevado com FSH normal em mulher com hirsutismo | Síndrome dos ovários policísticos, hipertecose ovariana, tumores produtores de androgênios | Testosterona livre, SHBG, DHEA-S, ecografia pélvica | Ginecologia Endocrinológica |
| FSH elevado isolado em mulher jovem | Insuficiência ovariana oculta, reserva ovariana diminuída, exposição a toxinas gonadais | AMH, ecografia pélvica para contagem de folículos antrais, dosagem de estradiol | Ginecologia / Medicina Reprodutiva |
| FSH e LH elevados em criança | Puberdade precoce central (idiopática ou orgânica), puberdade precoce periférica (tumores gonadais ou adrenais) | Idade óssea, ressonância magnética de encéfalo, dosagem de estradiol/testosterona, ultrassonografia pélvica/adrenal | Endocrinologia Pediátrica |
Medicamentos e Interferentes
- Anticoncepcionais hormonais combinados — suprimem a secreção de FSH e LH, resultando em níveis falsamente baixos
- Terapia de reposição hormonal — altera os níveis basais, dificultando a interpretação do eixo gonadal
- Glucocorticoides em altas doses — inibem o eixo hipotálamo-hipófise, reduzindo FSH e LH
- Opioides crônicos — suprimem a secreção de GnRH, levando a hipogonadismo hipogonadotrófico com FSH e LH baixos
- Antipsicóticos (especialmente risperidona) — causam hiperprolactinemia, que inibe a secreção de GnRH e reduz FSH e LH
Contextos Clínicos Especiais
Gestante
Durante a gestação, os níveis de FSH e LH são suprimidos devido à alta produção de estradiol e progesterona pela placenta. A dosagem não é indicada para avaliação gonadal nesse período, exceto em casos raros de tumores produtores de gonadotrofinas. Após o parto, a amenorreia lactacional também suprime FSH e LH, com retorno variável ao normal conforme a amamentação.
Idoso
Em idosos, ocorre aumento progressivo de FSH e LH devido ao declínio gonadal relacionado à idade (andropausa em homens e menopausa em mulheres). No entanto, valores muito elevados podem indicar patologias adicionais. A interpretação deve considerar comorbidades, uso de medicamentos (como opioides) e estado nutricional, que podem alterar os níveis hormonais.
Exames Relacionados
Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)
Perguntas Frequentes
Na fase folicular (dias 2-5 do ciclo menstrual), os valores de referência para FSH são 3,5–12,5 mUI/mL e para LH são 2,4–12,6 mUI/mL. Esses intervalos podem variar entre laboratórios, mas valores acima de 12,5 mUI/mL para FSH sugerem redução da reserva ovariana, enquanto acima de 25 mUI/mL indicam provável menopausa.
Um valor de FSH consistentemente acima de 25 mUI/mL em mulher com amenorreia há pelo menos 12 meses confirma o diagnóstico de menopausa. Deve-se correlacionar com LH elevado (geralmente > 30 mUI/mL) e sintomas clínicos como fogachos. Valores entre 12,5–25 mUI/mL podem indicar perimenopausa ou insuficiência ovariana prematura.
FSH e LH elevados em homem indicam hipogonadismo primário (hipergonadotrófico), onde as gônadas não respondem adequadamente. Causas incluem síndrome de Klinefelter, orquiectomia, quimioterapia, radioterapia ou infecções testiculares. O próximo passo é dosar testosterona (que estará baixa) e realizar espermograma e ultrassonografia testicular.
Na síndrome dos ovários policísticos (SOP), a relação LH/FSH > 2 é sugestiva, mas não diagnóstica. Isso reflete desregulação do eixo hipotálamo-hipófise com predominância de secreção de LH. Deve-se correlacionar com hiperandrogenismo clínico ou laboratorial (testosterona livre elevada) e critérios ecográficos (ovários policísticos).
Solicite FSH e LH quando precisar avaliar a integridade do eixo hipotálamo-hipófise-gônada. Estradiol isolado pode estar baixo em várias condições, mas FSH e LH ajudam a diferenciar causas primárias (FSH/LH elevados) de secundárias (FSH/LH baixos). Em mulheres, FSH no início do ciclo é melhor preditor de reserva ovariana que estradiol.
Não, FSH e LH não exigem jejum para coleta, pois a alimentação não interfere significativamente nos níveis hormonais. No entanto, em mulheres, a coleta deve ser preferencialmente no início da fase folicular (dias 2-5 do ciclo menstrual) para interpretação adequada, a menos que se busque avaliar o pico ovulatório.
No hipogonadismo primário, FSH e LH estão elevados (> 12,5 mUI/mL) devido à falta de feedback negativo dos esteroides gonadais. No hipogonadismo secundário, FSH e LH estão baixos ou normais (< 10 mUI/mL) por deficiência central de GnRH ou gonadotrofinas. A dosagem de estradiol ou testosterona estará baixa em ambos.
Não, FSH e LH normais não excluem infertilidade. Muitas causas de infertilidade, como fator tubário, endometriose, alterações seminais ou fatores uterinos, não alteram os níveis de gonadotrofinas. Além disso, em hipogonadismo secundário inicial, FSH e LH podem estar normais. A avaliação completa requer história clínica, exame físico e outros exames específicos.
Referências
- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Diretrizes Brasileiras para a Avaliação e Tratamento da Infertilidade Feminina. São Paulo: SBEM; 2021.
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Testing and interpreting measures of ovarian reserve: a committee opinion. Fertil Steril. 2020;114(6):1151-1157. 10.1016/j.fertnstert.2020.09.134
- Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. 10.1210/jc.2018-00229
- Teede HJ, Misso ML, Costello MF, et al. Recommendations from the international evidence-based guideline for the assessment and management of polycystic ovary syndrome. Hum Reprod. 2018;33(9):1602-1618. 10.1093/humrep/dey256
- Lunenfeld B, Mskhalaya G, Zitzmann M, et al. Recommendations on the diagnosis, treatment and monitoring of hypogonadism in men. Aging Male. 2015;18(1):5-15. 10.3109/13685538.2015.1004049