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Reumatologia

Anti-DNA nativo: Interpretação Clínica e Indicações

O anti-DNA nativo, também conhecido como anti-dsDNA (anticorpo anti-DNA de dupla fita), é um exame imunológico que detecta anticorpos IgG dirigidos contra o DNA de dupla fita. É um marcador altamente específico para o lúpus eritematoso sistêmico (LES), sendo utilizado tanto para o diagnóstico quanto para o monitoramento da atividade da doença, especialmente da nefrite lúpica. A detecção desses anticorpos está associada à patogênese da doença, com formação de imunocomplexos e ativação do complemento. É clinicamente relevante para reumatologistas, nefrologistas e clínicos que acompanham pacientes com suspeita ou diagnóstico de LES, pois sua positividade e titulação correlacionam-se com atividade de doença e risco de envolvimento renal. Sinônimos incluem anti-dsDNA, anticorpo anti-DNA de dupla fita e anti-DNA nativo.

Revisado pelo time especializado da Sanar

Dados rápidos

Material
Sangue venoso — tubo sem anticoagulante (tampa amarela ou vermelha) ou tubo com gel separador
Resultado em
24–48 horas (métodos de imunofluorescência ou ELISA)
Código TUSS
40322343
Especialidade
Reumatologia / Nefrologia

Quando solicitar este exame?

  • Investigação de suspeita de lúpus eritematoso sistêmico (LES) em paciente com sintomas constitucionais, rash malar, artrite e fotossensibilidade. CID M32
  • Confirmação diagnóstica de LES em paciente com FAN positivo e critérios clínicos sugestivos. CID M32
  • Monitoramento da atividade de doença em paciente com LES conhecido, especialmente na vigência de novos sintomas. CID M32
  • Avaliação de risco e atividade de nefrite lúpica em paciente com LES e alterações urinárias (proteinúria, hematúria). CID M32
  • Diferenciação entre LES e outras doenças do tecido conjuntivo em paciente com sintomas reumatológicos inespecíficos. CID M32
  • Avaliação de paciente com síndrome nefrótica ou nefrítica de causa indeterminada, com suspeita de doença autoimune. CID N04
  • Investigação de citopenias autoimunes (anemia hemolítica, trombocitopenia) em contexto de possível LES. CID D59
  • Acompanhamento de gestante com história de LES para avaliação de risco de flare e complicações fetais. CID O99
  • Avaliação de paciente com pericardite ou pleurite idiopática, com suspeita de manifestação serosa do LES. CID I30
  • Investigação de vasculite cutânea ou ulcerações em paciente com fenômeno de Raynaud e sintomas sistêmicos. CID L95

Como é feito o exame?

Variáveis pré-analíticas e interferentes

  • Hemólise da amostra — interfere na leitura espectrofotométrica em métodos ELISA, podendo causar resultados falso-positivos ou falso-negativos.
  • Lipemia intensa — pode interferir na dosagem por turbidez, levando a subestimação dos títulos de anticorpos.
  • Amostra contaminada com DNA bacteriano — pode causar reação cruzada e resultados falso-positivos em métodos que não utilizam substrato específico.
  • Coleta em tubo com anticoagulante (EDTA, heparina) — pode quelar íons necessários para a reação antígeno-anticorpo, invalidando a amostra.
  • Armazenamento prolongado a temperatura ambiente — degradação do DNA antigênico e desnaturação de anticorpos, reduzindo a sensibilidade do teste.
  • Congelamento e descongelamento repetidos — causa desnaturação proteica e perda de atividade dos anticorpos, afetando a reprodutibilidade.

Valores de Referência

Valores de referência do Anti-DNA nativo
ParâmetroHomensMulheresCriançasUnidade
Anti-DNA nativo (anti-dsDNA)< 25 UI/mL (ELISA); negativo (IFI)< 25 UI/mL (ELISA); negativo (IFI)< 25 UI/mL (ELISA); negativo (IFI) — mesma faixa que adultosUI/mL (ELISA); título (IFI)

Como interpretar o resultado?

Tabela de interpretação do Anti-DNA nativo
AchadoInterpretaçãoPróxima conduta
Positivo (IFI) ou > 25 UI/mL (ELISA)Altamente sugestivo de lúpus eritematoso sistêmico (LES), especialmente se associado a critérios clínicos. Títulos elevados correlacionam-se com atividade de doença e risco de nefrite. Confirmar diagnóstico com critérios SLICC ou ACR/EULAR, avaliar atividade de doença com complemento (C3/C4) e exames de função renal.
Negativo (IFI) ou < 25 UI/mL (ELISA)Não exclui LES, especialmente em formas cutâneas ou iniciais. Pode ocorrer em remissão da doença ou em pacientes tratados. Manter investigação com FAN, anti-Sm e avaliação clínica se alta suspeita de LES.
Título baixo (10–25 UI/mL) ou fraco positivo (IFI 1:10)Zona cinzenta; pode representar doença inativa, reação cruzada ou falso positivo. Baixa especificidade para LES nessa faixa. Repetir exame em 4–6 semanas, correlacionar com quadro clínico e solicitar anti-Sm e complemento.
Título elevado (> 100 UI/mL) ou IFI ≥ 1:160Fortemente associado à atividade de doença, especialmente nefrite lúpica. Valor preditivo positivo para flare renal. Avaliação urgente de função renal (creatinina, proteinúria), complemento e encaminhamento a nefrologista/reumatologista.
Positivo isolado sem sintomas clínicosPode ser falso positivo ou indicar LES subclínico. Baixo valor preditivo para doença ativa na ausência de manifestações. Monitorar clinicamente, não iniciar tratamento apenas com base no exame. Investigar outras causas de autoimunidade.
Positivo em paciente com nefrite confirmadaConfirma nefrite lúpica como causa; títulos correlacionam-se com atividade histológica (classe IV da ISN/RPS). Monitorar títulos seriados para guiar terapia imunossupressora e avaliar resposta ao tratamento.
Conversão de negativo para positivoSugere ativação da doença ou desenvolvimento de novo episódio de LES. Preditor de flare clínico. Aumentar vigilância clínica, reavaliar terapia e solicitar complemento e exames de atividade inflamatória.
Redução significativa do título durante tratamentoIndica resposta à terapia imunossupressora. Correlaciona-se com remissão clínica e redução do risco de dano renal. Manter terapia, monitorar para recidiva. Não suspender medicamentos apenas com base na sorologia.

Diagnóstico Diferencial

Diagnóstico diferencial para Anti-DNA nativo
AlteraçãoHipóteses diagnósticasExames complementaresEspecialidade
Anti-dsDNA positivo com FAN positivoLES ativo, síndrome de superposição, LES induzido por drogasComplemento (C3/C4), anti-Sm, anti-Ro/SSA, anti-La/SSB, urina tipo I, creatininaReumatologia
Anti-dsDNA positivo com proteinúriaNefrite lúpica, glomerulonefrite membranoproliferativa, nefropatia por IgAProteinúria de 24h, relação proteína/creatinina, complemento, biópsia renalNefrologia
Anti-dsDNA positivo com citopeniasLES com envolvimento hematológico, síndrome antifosfolípide, mielodisplasiaHemograma completo, esfregaço de sangue periférico, Coombs direto, anticardiolipinaHematologia
Anti-dsDNA positivo isolado sem sintomasFalso positivo, LES subclínico, infecção viral, outras doenças autoimunesFAN, complemento, PCR, sorologias virais (HIV, hepatite)Clínica Médica
Anti-dsDNA negativo com suspeita clínica de LESLES cutâneo, LES inativo, outras doenças do tecido conjuntivo, vasculitesFAN, anti-Sm, anti-RNP, anti-Ro/SSA, biópsia de pele, VHSReumatologia
Anti-dsDNA positivo em gestanteLES ativo na gestação, risco de nefrite e complicações fetais (bloqueio cardíaco congênito)Complemento, anti-Ro/SSA, ecocardiograma fetal, monitorização da proteinúriaObstetrícia de alto risco

Medicamentos e Interferentes

  • Hidralazina — induz produção de anti-dsDNA por alteração da metilação do DNA, causando positividade geralmente com títulos baixos.
  • Procainamida — mecanismo similar à hidralazina, associado a síndrome lúpica induzida por drogas.
  • Isoniazida — pode induzir anticorpos anti-dsDNA em tratamento prolongado, com risco de doença sistêmica.
  • Infecção por HIV — reação cruzada por mimetismo molecular, resultando em falso positivo transitório.
  • Hepatite B crônica — produção de anticorpos contra DNA viral que reagem cruzadamente com DNA humano.
  • Terapia com rituximabe — depleção de linfócitos B reduz a produção de anti-dsDNA, causando falso negativo ou redução do título.

Contextos Clínicos Especiais

Gestante

Em gestantes com LES, o anti-dsDNA pode se elevar durante a gestação, indicando risco de flare da doença e complicações como pré-eclâmpsia e parto prematuro. A positividade associada a anti-Ro/SSA aumenta o risco de bloqueio cardíaco congênito no feto. Monitoramento trimestral com complemento e avaliação fetal é recomendado. O tratamento deve ser mantido com medicamentos seguros na gestação (hidroxicloroquina, corticoides em baixa dose).

Criança

No LES juvenil, o anti-dsDNA está presente em 70–80% dos casos e correlaciona-se com doença mais grave, especialmente nefrite. Títulos são geralmente mais elevados que em adultos e a resposta ao tratamento pode ser mais lenta. A interpretação dos valores de referência é similar à dos adultos, mas o acompanhamento deve ser mais frequente devido à maior atividade de doença.

Idoso

No LES de início tardio (após 50 anos), o anti-dsDNA é positivo em apenas 50–60% dos casos, e os títulos são geralmente mais baixos. A doença tende a ser menos agressiva, mas com maior frequência de envolvimento seroso e pulmonar. Deve-se diferenciar de outras doenças frequentes nessa faixa etária, como polimialgia reumática e arterite de células gigantes.

Exames Relacionados

Condições Clínicas Relacionadas (CID-10)

Perguntas Frequentes

Referências

  1. Sociedade Brasileira de Reumatologia. Diretrizes para o diagnóstico e tratamento do lúpus eritematoso sistêmico. Rev Bras Reumatol. 2019;59(Suppl 1):1-30. 10.1016/j.rbr.2019.09.001
  2. Aringer M, Costenbader K, Daikh D, et al. 2019 European League Against Rheumatism/American College of Rheumatology classification criteria for systemic lupus erythematosus. Ann Rheum Dis. 2019;78(9):1151-1159. 10.1136/annrheumdis-2018-214819
  3. Hahn BH. Antibodies to DNA. N Engl J Med. 1998;338(19):1359-1368. 10.1056/NEJM199805073381906
  4. Migliorini P, Baldini C, Rocchi V, Bombardieri S. Anti-Sm and anti-RNP antibodies. Autoimmunity. 2005;38(1):47-54. 10.1080/08916930400022715
  5. Pisetsky DS. Anti-DNA antibodies – quintessential biomarkers of SLE. Nat Rev Rheumatol. 2016;12(2):102-110. 10.1038/nrrheum.2015.151

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