Do berço da humanidade às fronteiras do conhecimento
1. A nascente
do potencial humano
Em cena clássica de “2001: Uma Odisséia no Espaço”, Stanley Kubrick lança luz sobre o talento ínsito de nossos ancestrais em manusear ferramentas.
Dos mais rudimentares objetos destinados a disputas territoriais pré-históricas à dança do mais moderno bisturi, o princípio é o mesmo: seres humanos entrelaçam-se cultural, política e economicamente no conceito de tecnologia, cuja dimensão está muito além do que se compra e vende; trata-se de dados que se aprendem e ensinam1.
O autor Yuval Noah Harari, no livro “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, amplia esta ideia ao descrever o contínuo processo de sofisticação das sociedades humanas como fruto, sobretudo, de sua habilidade de imaginar.
Este atributo permitiu a Revolução Cognitiva, que marca o nascimento da cultura e outorga a transmissão de saberes adquiridos em uma geração para a seguinte2. Sob esse prisma, a Cultura é a pedra angular sem a qual não seria possível edificar tecnologias complexas.

Homem-Leão da Caverna Hohlenstein-Stadel,
marco da capacidade humana de unir conceitos distintos (homem e leão) em prol
da criação de uma ideia inédita.
1.1. As peças do quebra-cabeça
Estando homem e demais seres vivos abaixo das mesmas leis que regem a teoria da evolução, o desenvolvimento de um cérebro massivo, assim como o de qualquer outra característica, representa a resultante da interação entre mutações e o meio ambiente.
Apesar de pesar cerca de 1.300 gramas, responsabiliza-se por 20% da energia consumida, exigência que só não é mais desvantajosa do que a dificuldade que seu volume impele a um parto através de um quadril reduzido pela nossa condição bípede, exigindo o nascimento de uma prole mais precoce e indefesa.
Tamanha impetuosidade certamente seria apagada dos anais do planeta se não trouxesse consigo as vantagens sociais de uma linguagem aprimorada3.
Equipado com uma fábrica de mitos, narrativas místicas e morais difundem-se e sedimentam os interstícios de crenças compartilhadas que permitem a vida em sociedades paulatinamente maiores, onde a demanda de resolução de conflitos faz da Ética algo imprescindível.
Nascem os primeiros códigos legais, símbolos incontestáveis da Razão. Tecnologia, Cultura, Ética e Razão – ganhavam corpo elementos essenciais à Medicina como é conhecida hoje.
2. A germinação da Medicina
Misticismo, rituais e religião guardavam relação de simbiose com as práticas médicas ancestrais, executadas majoritariamente por figuras sacerdotais.
Até mesmo Hipócrates de Cós (470-360 AC), pai da medicina ocidental, apesar de seus avanços inéditos na racionalização da medicina, deixou um corpo teórico florido de deidades de sua época.
Seu juramento é introduzido pela sentença: “Eu juro, por Apolo, por Esculápio, Hígia e Panacea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: (…)”. Deste solo fértil de influências da Grécia Antiga, germinam os conceitos de diagnóstico e prognóstico 4.
2.1. As sementes
A figura de Hipócrates espelha o que se entende por tecnologia, em sua amplitude conceitual.
Assim, do mesmo modo que o desenvolvimento de uma nova técnica sempre é antecedida por uma grade de avanços transmitidos pelas gerações antecessoras que interagem entre si, a Escola Hipocrática deve seu primor a “era dourada” e ao legado das grandes escolas médicas de Rodes, Kroton e Elaia.
A partir desta trama de forças, Hipócrates fornece ao mundo descrições de tétano, câncer, sepse pós-parto, pneumonia, mania etc. Séculos depois, Galeno (129-217) se refere a ele como “o homem que nos deu todas a boas sementes” 5.
2.2. O sol
O sobressalto da razão dentre os outros componentes que formam a Medicina concede a ela um incremento gradual da magnitude das relações de poder que as circunda.
O desejo humano de controlar corpo e mente perde-se na sombra do tempo, tendo encontrado na medicina um confortável pouso.
Nesse sentido, o médico não só identifica a doença, como também vindica a moral quando advoga a favor de um modo de viver, de alimentar-se, de trabalhar, de relacionar-se; em que a insubordinação pode incorrer em pena de morte6.
Séculos somam-se para conceder autoridade ao método científico e dar valor às afirmações feitas por médicos respaldados pela medicina baseada em evidências.
Pirro e o ceticismo; Descartes e o racionalismo; Karl Popper e o método hipotético dedutivo… Nomes e correntes de pensamento aglutinaram-se para elevar o conjunto de conhecimentos e técnicas que desaguaram nos últimos anos do século XVIII na denominada Medicina Moderna.
3. Os avanços
Desvencilhando-se da concepção clássica oferecida pelos gregos, o método científico assume teor estatístico.
Guiados pelos ditames da probabilidade, médicos são seduzidos a confiar seus diagnósticos, prognósticos e propostas terapêuticas ao poder das curvas de Kaplan-Meier, das razões de verossimilhança, da hierarquia dos graus de evidência.
A partir desse paradigma, as leis da causalidade cederam espaço às leis probabilísticas, devido ao seu inegável caráter preditivo7.
O valor do método científico moderno é defendido por seus resultados, o qual aliou-se ao poderio econômico das nações na transformação da forma como o ser humano relaciona-se com o meio ambiente.
Afinal, o advento da Penicilina, descoberta por A. Fleming e ventilada a todas as sociedades pelos esforços de Chain e Florey, dividiu o tempo nas Eras Pré e Pós-antibiótica, deslocando para valores próximos ou inferiores a 5% a mortalidade de doenças que conduziam ao óbito a quase totalidade dos infectados, como meningite, endocardite e pneumonia.
Nesse contexto, a Medicina, impulsionada pelas forças da ciência e do capitalismo, caminha a passos céleres rumo a tornar-se cada vez mais personalizada, rumo a um futuro guiado pela engenharia genética, com a promessa da Crispr-Cas9 e dos testes diagnósticos com uso de antimatéria.
4. Fronteiras
Fato é que a Medicina sempre foi acompanhada de legítimas controvérsias. Hoje, mais do que nunca, se questiona se a sede de progresso suplanta a moral e a ética, pilares da ciência, ou se estamos nos tornando personagens de um “Admirável Mundo Novo”, obra de Aldous Huxley que versa sobre os paradigmas de uma sociedade moldada pelo cientificismo8.
Outra preocupação recorrente consiste na supervalorização da ciência como catalisador da formação de abismos de comunicação entre especialistas, ao mesmo tempo em que o médico se desumaniza enquanto se torna excelente na interpretação de particularidades biológicas das patologias de sua incumbência e incapaz de entender a totalidade de seu paciente6,9.