Introdução
Você já se colocou em um momento que usou todos os tipos de tratamentos
em seu paciente e o quadro dele não foi positivo? Será que o melhor é continuar
tentando, colocando-o em exposição às intervenções dolorosas e desgastantes
tanto para o paciente quanto para a família?
Ao se pensar em fim de vida, imaginamos o ciclo de vida natural em que a
morte é um dos seus pilares. Mas você já se perguntou de que forma iria querer
sua morte? Realmente… é um assunto difícil de se cogitar, ainda mais quando se
fala no processo de falecimento. Contudo, é incontestável o desejo comum da
morte tranquila, sem dor e – se possível – sem sentir nada (“morrer como um
passarinho”).
Dessa maneira, diante de diversas doenças crônicas graves e a
prevalência do câncer, o médico deve saber o momento de reconhecer a
“impossibilidade de cura” e as tentativas de intervenções invasivas sem resultados.
Além de entender que onde existe vida, há morte e que ela faz parte da
natureza. O médico não deve olhar para a morte como um fracasso e com o
objetivo de derrotá-la de todas as formas possíveis, mas sim entender que em
certos momentos é hora de cuidar do paciente e não mais da sua doença.
Isso não quer dizer que o paciente não deve ser tratado, mas o
especialista deve se perguntar o porquê de mais um tratamento. Seria apenas
para prolongar o quadro atual do paciente ou por que o médico não consegue
entender o ciclo natural da vida? Nem todo tratamento é benéfico ou capaz de
recuperar/curar, ainda mais quando se fala de pessoas gravemente enfermas.
Nesse momento, muitas vezes o que o paciente mais precisa é de suporte básico e
não de métodos invasivos passíveis de trazer mais dor e sofrimento.
Lembre-se do Art. 2° dos Princípios Fundamentais do nosso Código de
Ética:
“O
alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual
deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional”.
Nas inúmeras faculdades espalhadas pelo mundo, o médico não é ensinado a
parar, mas sim sempre tentar desesperadamente salvar vidas. E “parar” não
significa desistir do paciente ou que “não há mais nada a ser feito”, muito
menos deixar de salvá-lo, significa aliviar o sofrimento dele e de sua família,
significa dar dignidade humana. Ser médico vai além da cura e de todo o
conhecimento que envolve livros, tecnologias e métodos invasivos; ser médico é
dar qualidade de vida ao paciente, é ter compaixão com os familiares frente a
tanta dor e sofrimento. Dessa maneira, entre a vida e a morte existem os
Cuidados Paliativos, em que se constituem como um grande caminho a ser
percorrido entre a equipe multidisciplinar, o paciente e sua família.
Conceito
Em 1986, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou a primeira
definição de Cuidados Paliativos: “Cuidado ativo e total para pacientes cuja
doença não é responsiva a tratamento de cura. Controle da dor, de outros
sintomas e de problemas psicossociais e espirituais são primordiais. O objetivo
do Cuidado Paliativo é proporcionar a melhor qualidade de vida possível para
pacientes e familiares.”
Já em 2002, a OMS atualizou sua definição sobre Cuidados Paliativos: “Cuidado
Paliativo é a abordagem que promove qualidade de vida de pacientes e seus
familiares diante de doenças que ameaçam a continuidade da vida, através de
prevenção e alívio do sofrimento. Requer a identificação precoce, avaliação e
tratamento impecável da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial
e espiritual.”
As doenças que regem a vida possuem caminhos distintos, mas – em todos
eles – a qualidade de vida e o cuidar devem estar presentes. E, para isso
acontecer de forma correta, a equipe multidisciplinar é de suma importância,
além de especialistas capacitados sobre Cuidados Paliativos. O médico
paliativista trabalha para diminuir o desconforto físico do paciente,
amenizando a dor, o mal-estar proporcionado pela doença ou pelo tratamento (um
paciente oncológico pode ser acompanhado pelo oncologista e pelo profissional
de Cuidados Paliativos, por exemplo). Já a equipe é formada por psicólogos,
enfermeiros, fisioterapeuta, entre outros, e todos visam para que os incômodos
do paciente sejam amenizados, melhorando sua qualidade de vida, assim como dos
seus familiares e amigos. A iniciativa é trabalhar a técnica necessária para o
alívio dos sintomas atrelada ao humanismo; como diz a Profa. Dra. Maria Júlia
Kovács, “É a arte conjugada com ciência”.
“Pallium”, do latim, significa Proteger. E é exatamente isso
que Cuidados Paliativos expressa: Proteção. A proposta é de aliviar o
sofrimento de uma pessoa com doença grave ou uma doença que ameaça a vida, isso
engloba os sintomas da patologia e dos efeitos colaterais do tratamento, bem
como as aflições físicas, psicológicas, espirituais, sociais e culturais.
“O
tempo que a vida durar deve ser muito boa, tem que valer a pena. E sem
sofrimento fica mais fácil”, Dra. Ana Claudia Arantes. Você pode assistir
um conceito breve de Cuidados Paliativos no vídeo dessa especialista em: https://www.youtube.com/watch?v=Fa4ctd1uxNc
Princípios em Cuidados Paliativos
Os Cuidados Paliativos abordam diversas áreas da clínica médica.
Contudo, para isso acontecer de forma harmônica e qualificada existem alguns
princípios citados pela OMS em 1986 e reafirmados em 2002:
- Promover o alívio da dor e de outros sintomas
desagradáveis:
Engloba
as prescrições médicas no combate a sintomas indesejáveis, além de medidas não
farmacológicas e de apoio psicossocial, aliviando todos os significados de “Dor
Total” (conceito proposto por Cicely Saunders).
- Afirmar a vida e considerar a morte como um
processo normal da vida:
Um
assunto demasiado difícil de compreender e, principalmente, ser aceito pela
humanidade. Entender que a morte faz parte do ciclo natural da vida é
fundamental para o paciente compreender sua doença e ajudá-lo a viver melhor os
seus últimos momentos. Para isso acontecer, é necessário que o médico saiba o
significado da terminalidade da vida e possa ajudar o seu paciente nesse
processo.
- Não acelerar nem adiantar a morte:
É
essencial ter em mente que Cuidados Paliativos não tem relação nenhuma com
eutanásia, por exemplo. O importante é que, de acordo com o prognóstico do
paciente e a evolução da sua doença, sejam tomadas decisões que o enfermo se
sinta confortável no intuito de melhorar sua qualidade de vida, sendo sempre de
maneira respeitosa, empática e acolhedora.
- Integrar aspectos psicológicos e espirituais no
cuidado com o paciente:
É neste
momento que a equipe multidisciplinar se torna imprescindível. Muitas vezes, o
que mais o paciente precisa é conversar com alguém que entenda as dores da
alma, que possa escutar suas aflições e medos, bem como as questões sociais que
o rodeia.
- Oferecer um sistema de suporte que auxilie o
paciente a viver tão ativamente quanto possível, até o momento de sua morte:
Esse
princípio tem o objetivo de que o paciente viva de forma ativa e intensa. Com
isso, é fundamental que a equipe proporcione a melhor qualidade de vida e
bem-estar ao enfermo, evitando ao máximo prescrições desnecessárias e pesadas,
exceto em casos realmente necessários. É nosso dever sermos guias para resolver
os empecilhos do paciente!
- Oferecer um sistema de suporte para auxiliar os
familiares durante a doença do paciente e a enfrentar o luto:
A família
e amigos nesse processo precisam ter o máximo de atenção da equipe
multidisciplinar, sendo devidamente informada, comunicada e cuidada. Muitas
vezes é difícil para os parentes entenderem o significado de “Cuidados
Paliativos” e podem pensar que o médico está desistindo do enfermo. Além disso,
é imprescindível que o médico faça uma retrospectiva do processo de doença do
paciente até o seu estado atual para que a família compreenda e se sinta mais
segura sobre as decisões da equipe, além de prepará-la para o luto.
Tal como
a Profa. Dra. Maria Helena Pereira Franco afirmou:
“A
unidade de cuidados paciente-família se coloca como una e específica ao mesmo
tempo. A célula de identidade do ser humano é a família, respeitadas todas as
condições que fazem dela um universo cultural próprio, muitas vezes distante ou
até mesmo alheio ao universo cultural dos profissionais da saúde”.
- Melhorar a qualidade de vida e influenciar
positivamente o curso da doença:
Um dos
pilares do Cuidado Paliativo é melhorar a qualidade de vida do paciente, dando
dignidade e respeito, ouvindo e atendendo suas necessidades. Com isso, podendo
obter resultados positivos no curso da doença.
- Iniciar, o mais precocemente possível, os cuidados
paliativos, juntamente com outras medidas de prolongamento da vida, como
quimioterapia e a radioterapia, e incluir todas as investigações necessárias
para melhor compreender e controlar situações clínicas estressantes:
Um
paciente em Cuidados Paliativos pode usar de meios terapêuticos e de
diagnósticos, mas sempre tendo em mente os benefícios e os malefícios que podem
trazer. Lembre-se dos princípios bioéticos, principalmente os da beneficência e
da não-maleficência. Somado a isso, é importante não postergar a abordagem
paliativa para – assim – prevenir ao máximo os sintomas e complicações
indesejáveis.
Entre a vida e a morte há um caminho árduo e longo,
que deve ser compreendido pelos profissionais da saúde. Para nós, médicos e
futuros médicos, devemos sempre colocar o bem-estar do paciente em primeiro
lugar e não sua doença, respeitando suas vontades e desejos. Em todas as fases
da vida humana há o que ser feito para garantir uma trajetória digna e estamos
aqui para sermos facilitadores dessa caminhada!
“Devemos refletir profundamente sobre nossa
postura frente à morte antes de podermos sentar junto ao paciente, sem medo e
com serenidade.” (Elizabeth Kübler-Ross)
Autor: Letícia Sousa Oliveira
Instagram: @letsousa_oli