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Entenda a ultrassonografia morfológica | Colunistas

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A ultrassonografia morfológica (USGm) estuda
detalhadamente a anatomia fetal, além de fornecer, com maior definição e número
de imagens, as informações da ultrassonografia obstétrica. É um exame que possibilita
o rastreio de anomalias fetais e complicações gestacionais.  

Foto: Plena Ultrassonografia
Foto: Plena Ultrassonografia

QUANDO ESTÁ INDICADA?

O Ministério da Saúde não recomenda este
exame para todas as gestantes. No entanto, quando há fatores de risco maternos
ou suspeita de malformação na ultrassonografia obstétrica, está indicada a
realização da USGm no 1° trimestre (11- 14
semanas) e no 2° trimestre (18-24
semanas).

O QUE É VISTO NA USG MORFOLÓGICA?

No primeiro trimestre, as imagens são
obrigatoriamente bidimensionais (2D), em escala de cinza e precisão de medida
de 0,1 mm.  É possível visualizar o
coração, tórax, abdome e estruturas ósseas, medindo parâmetros biométricos,
como o comprimento crânio nádega (CCN), para o cálculo da idade
gestacional. 

Podemos rastrear cromossomopatias,
observando principalmente a translucência nucal (TN).  A TN é um acúmulo de líquido[IM2]  medido na região
cervical do bebê exclusivamente nesse período, quando o mesmo tem 45-84mm de
CCN.  Outros parâmetros que complementam
a triagem são: osso nasal, válvula tricúspide e ducto venoso.

No segundo trimestre, após a organogênese[IM3]  completa,
visualizamos o formato, o posicionamento e o funcionamento dos órgãos
fetais.  O doppler está indicado para
avaliação do fluxo do ducto venoso.

Entre 22 e 29 semanas, se a gestante
desejar, pode realizar ultrassonografias morfológicas com imagens em 3D
(evidenciando bem o rosto do bebê), 4D (mostrando movimentos fetais em tempo
real) e até 5D (extremamente realista, similar a uma fotografia). Esses exames,
no entanto, não estão disponíveis no sistema público de saúde.

COMO INTERPRETAR AS INFORMAÇÕES?

Lembre-se que uma alteração isolada não
traduz necessariamente a presença de anomalias.   A TN aumentada (>2,5mm) é frequente em
diversas anomalias, mas não exclusiva, podendo ocorrer em fetos saudáveis.

Características maternas influenciam na
interpretação dos dados ultrassonográficos. A TN aumentada em uma gestante
jovem não é tão alarmante como em uma mulher de 35 anos ou mais. Mas a
alteração de 2 ou mais parâmetros ultrassonográficos, mesmo em gestantes sem
fatores de risco, potencializa a chance de anomalias.

Cromossomopatias

As cromossomopatias, especialmente trissomias, com frequência cursam com TN aumentada e outras alterações, como polidactilia na síndrome de Patau e a ausência de osso nasal na síndrome de Down.  O rastreio das anomalias cromossômicas com a USGm tem grande valor, mas a confirmação diagnóstica exige exames mais invasivos como a biópsia dos vilos coriônicos ou a amniocentese.

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Malformações

Cerca de 50% das malformações são
detectáveis no primeiro trimestre. Quando a USGm é repetida no segundo
trimestre, esse número é superior a 80%.

As cardiopatias congênitas são as
malformações mais frequentes e as que mais causam óbito neonatal. O uso da TN é
capaz de detectar quase 50% delas, podendo ser ainda mais sensível quando
associada a presença de refluxo do ducto venoso.

A identificação de regurgitação tricúspide
também auxilia nesse rastreio, já que é 8 vezes mais frequente em bebês cardiopatas
do que nos saudáveis.

Outras malformações observadas na USGm
incluem: fendas labiais, anencefalia, mielomeningocele, gastrosquise,
onfalocele e hérnia diafragmática congênita.

Complicações Gestacionais

Complicações como pré-eclampsia e restrição
do crescimento intra-uterino podem ser precocemente detectadas na USGm, pela
observação de um fluxo alterado das artérias uterinas em gestantes com fatores de
risco como obesidade.

IMPORTANCIA DA QUALIDADE DO EXAME

A qualidade do exame depende de um aparelho
de alta resolução e da capacidade técnica do operador. A Sociedade
Internacional de Ultrassonografia em Obstetrícia e Ginecologia defende que o
exame seja executado por um especialista em Medicina Fetal, uma
subespecialidade que deve ser realizada em instituições devidamente
certificadas.

 O
tempo de execução é outro fator importante. As recomendações internacionais são
de uma duração média de 40 minutos. Infelizmente, esta não é a realidade em
muitos centros de saúde públicos ou privados no Brasil e no mundo.

Recentemente em Portugal, um médico
(conhecido como “Doutor cinco minutos”, pela brevidade do seu tempo de exame) não
detectou a ausência de parte da calota craniana, dos olhos e nariz de um bebê
em nenhuma das três USGm realizadas.  A
Ordem dos Médicos de Portugal, além de suspender o obstetra, iniciou uma
fiscalização acirrada às clínicas de ultrassonografias em todo o país.

ACOMPANHAMENTO APÓS O DIAGNÓSTICO

O diagnóstico possibilita o planejamento
de condutas terapêuticas durante e após a gestação.

Anomalias como hérnia diafragmática
congênita podem ser corrigidas intrautero. Outras condições, como as
cardiopatias congênitas, exigem cuidadosa assistência perinatal e programação
cirúrgica posterior.

Nas malformações graves, como o do bebê
português, além do suporte emocional à família, pode ser oferecido um
acompanhamento pós-natal por uma equipe de Cuidados Paliativos pediátricos.

Em todas as situações, é indispensável dialogar
com a gestante e a família, oferecendo todas as informações necessárias e
esclarecendo dúvidas.

A ultrassonografia morfológica é, portanto, uma ferramenta preciosa. Quando bem aplicada, permite o conhecimento precoce das condições materno-fetais, e o suporte adequado para uma melhor evolução gestacional, perinatal e pós-natal.

Sugestão de leitura complementar

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