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Distúrbios Respiratórios: Acidose e Alcalose Respiratórias

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A avaliação do estado ácido-básico do sangue é rotineiramente realizada, já que pode fornecer dados sobre a função respiratória e sobre as condições de perfusão tecidual. A acidose e alcalose, por exemplo, são modificações do pH sanguíneo devido ao aumento ou diminuição da concentração sanguínea de íons H [1]. 

Fisiopatologia dos Distúrbios Respiratórios

O equilíbrio ácido-base é mantido pela excreção pulmonar normal de dióxido de carbono (CO2), utilização metabólica de ácidos orgânicos e também pela excreção renal de ácidos não voláteis [2].

Realiza-se a excreção renal de ácido combinando íons de hidrogênio (H+) com tampões urinários para formar ácido titulável como, por exemplo, fosfato (HPO4- + H+ → H2PO4-), urato e creatinina, ou com amônia para formar amônio (NH3 + H+ → NH4+) [2]. 

Portanto, quando quantidades aumentadas de ácido devem ser excretadas pelo rim, a principal resposta adaptativa é um aumento na produção de amônia (derivada do metabolismo da glutamina) com um aumento resultante na excreção de amônia na urina [2].

Avalia-se o estado ácido-base medindo os componentes do sistema tampão bicarbonato-dióxido de carbono no sangue: CO2 dissolvido + H2O ↔ H2CO3 ↔ HCO3- + H+.

Figura 1: Relação entre os componentes do tampão ácido carbônico/bicarbonato e o equilíbrio. Fonte: Adaptado de RBAC, 2020. Link de acesso: http://www.rbac.org.br/artigos/caracterizacao-dos-disturbios-da-regulacao-uma-abordagem-didatica-e-intuitiva/

Tipos de transtornos ácido-base

Os principais tipos de transtornos ácido-base incluem o distúrbio ácido-base simples e o distúrbio ácido-base misto.

O distúrbio ácido-base simples refere-se a presença de um distúrbio com a compensação respiratória ou renal adequada para tal [3], enquanto o distúrbio ácido-base misto consiste na presença simultânea de mais de um distúrbio ácido-base [3]. 

Tipos de distúrbio ácido-base simples  Definição
Acidemia PH arterial abaixo da faixa normal (inferior a 7,35)
Alcalemia PH arterial acima da faixa normal (superior a 7,45)
Acidose Diminuição do PH do líquido extracelular (aumento da concentração de íons hidrogênio)
Alcalose Elevação do PH  do líquido extracelular (diminui a concentração de íons de hidrogênio)
Acidose Metabólica Redução da  concentração sérica de HCO3 e o PH
Alcalose metabólica Elevação da concentração sérica de HCO3 e o PH
Acidose respiratória  Elevação da PCO2 arterial e redução do PH
Alcalose respiratória Redução da PCO2 arterial e elevação do PH

Distúrbios ácido-base respiratórios  

A resposta compensatória aos distúrbios ácido-básicos respiratórios ocorre em dois estágios.

Inicialmente, é gerada por uma variedade de moléculas de tamponamento de pH presentes em todos os compartimentos de fluidos do corpo. Dessa forma, quando a PCO2 (e H2CO3) aumenta agudamente, alguns prótons são captados pela hemoglobina e outros tampões, gerando HCO3-. Por outro lado, quando a PCO2 (e H2CO3) diminui agudamente, libera-se alguns prótons pela hemoglobina e outros tampões, reduzindo a concentração de HCO3-.

Portanto, essas reações fazem com que o HCO3 sérico aumente (na acidose respiratória) ou diminua (na alcalose respiratória) em 5 a 10 minutos. Esta resposta de compensação aguda é relativamente modesta [3,4].

Além disso, logo após o início do tamponamento de pH, uma resposta compensatória maior é gerada pelos rins. Todavia, essa resposta requer três a cinco dias para tornar-se completa. Ademais, após sua conclusão, a diminuição ou aumento em HCO3- é designada compensação crônica para um distúrbio ácido-base respiratório [3,4].

Diferentes respostas compensatórias são esperadas com distúrbios respiratórios agudos e crônicos

Na acidose respiratória crônica, por exemplo, há aumento da excreção de ácido renal na forma de ácido titulável e amônio. Além disso, ocorre aumento da reabsorção de HCO3 no túbulo renal, mantendo a concentração mais alta de HCO3. Nesses casos, ocorre aumento da concentração sérica de HCO3 em 1 mEq/L para cada elevação de 10 mmHg na PCO2. Ademais, se a PCO2 elevada persistir, o HCO3 sérico continuará aumentando e, após três a cinco dias, o distúrbio é considerado crônico. 

Por outro lado, na alcalose respiratória crônica, ocorre redução da reabsorção renal de HCO3 e da excreção renal de ácido. Isso gera um balanço ácido positivo que reduz a concentração sérica de HCO3. Nesses casos, ocorre redução da concentração sérica de HCO3 em 2 mEq/L para cada 10 mmHg de declínio na PCO2. Se a PCO2 reduzida persistir por mais de três a cinco dias, então o distúrbio é considerado crônico e a concentração sérica de HCO3 deve cair 4 a 5 mEq/L para cada 10 mmHg de redução na PCO2.

Figura 2: Caracterização das principais alterações do equilíbrio. Fonte: Adaptado de RBAC, 2020. Link de acesso: http://www.rbac.org.br/artigos/caracterizacao-dos-disturbios-da-regulacao-uma-abordagem-didatica-e-intuitiva/

Avaliação diagnóstica do distúrbio ácido-base

A precisão diagnóstica de um distúrbio ácido-base requer a medição dos eletrólitos séricos para determinar a concentração sérica de HCO3 e de potássio sérico (hipocalemia ou hipercalemia podem acompanhar e contribuir para muitos distúrbios metabólicos ácido-básicos). Além disso, os níveis séricos de sódio e concentrações de cloreto podem detectar possível hiponatremia ou hipernatremia e auxiliar no cálculo do hiato aniônico sérico [3,5].

Figura 3: Valores de normalidade da gasometria arterial e venosa. Fonte: Adaptado de Princípios de nefrologia e distúrbios hidroeletrolíticos. 4ª ed., 2003. 

Identificação do distúrbio respiratório

Para uma abordagem ideal, sugere-se seguir quatro etapas [5]:

Estabelecer o diagnóstico primário

Na acidose metabólica, o HCO3 sérico está baixo e o pH arterial baixo. Além disso, o hiato aniônico sérico pode estar aumentado ou normal. Por outro lado, na alcalose metabólica, o HCO3 sérico está elevado e o pH arterial também está elevado.

Na acidose respiratória, a PCO2 arterial está elevada, enquanto o pH arterial está baixo. Por outro lado, na alcalose respiratória, a PCO2 arterial está baixa e o pH arterial está elevado.

Por fim, no distúrbio ácido-base misto, o pH arterial está normal na presença de alterações substanciais tanto no HCO3 sérico quanto na PCO2 arterial.

Avaliar o grau de compensação conforme definido acima para os distúrbios individuais ou misto

Para os distúrbios ácido-básicos respiratórios, em que a compensação evolui de aguda (minutos a alguns dias) para crônica (três a cinco dias ou mais), a resposta compensatória normal à acidose respiratória aguda é um aumento na concentração sérica de HCO3 em aproximadamente 1 mEq/L para cada elevação de 10 mmHg na PCO2.

Além disso, quando a acidose respiratória persiste por mais de três a cinco dias, o HCO3 aumenta em aproximadamente 3,5 a 5 mEq/L para cada elevação de 10 mmHg na PCO2.

Determinar se o intervalo aniônico está elevado ou não 

Se houver acidose metabólica e o ânion gap estiver aumentado, compara-se o aumento no ânion gap com a diminuição na concentração de HCO3. Esta relação delta ânion gap/delta HCO3 deve ser de aproximadamente 1 quando existe uma acidose metabólica simples de ânion gap. 

Estabelecer o diagnóstico clínico

Por fim, a causa ou causas subjacentes de cada distúrbio devem ser determinadas e abordadas.

Figura 4: Fluxograma para interpretação de gasometria arterial e identificação de distúrbios ácido-base. Fonte: Adaptado de Sanar Yellowbook, 2020.

Autora: Gisele Nizolli

Instagram: @ginizolli

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Sugestão de leitura recomendada

Referências

  1. Porto CC. Semiologia médica. 5ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2005
  2. Rose BD, Post TW. Clinical Physiology of Acid-Base and Electrolyte Disorders, 5th ed, McGraw-Hill, New York 2001. p.328.
  3. Adrogué HJ, Madias NE. Respostas secundárias ao estado ácido-base alterado: as regras de engajamento. J Am Soc Nephrol 2010; 21:920.
  4. Rose BD, Post TW. Clinical Physiology of Acid-Base and Electrolyte Disorders, 5ª ed, McGraw-Hill, New York City 2001. p.542.
  5. Walkey AJ, Farber HW, O’Donnell C, et al. A precisão da gasometria venosa central para monitoramento ácido-base. J Terapia Intensiva Med 2010; 25:104.

O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: Material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

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