Neste post vamos abordar os principais achados de um estudo que teve por objetivo avaliar diferenças raciais em desfechos de pacientes com COVID-19.
Estudos que abordem características epidemiológicas e desfechos de pacientes com COVID-19 são de extrema relevância. Apesar da grande quantidade de informação científica já produzida, não podemos afirmar que a doença é completamente conhecida.
Muitos desses estudos destacaram a influência das variáveis sexo e idade nos desfechos clínicos. Sabe-se também que indivíduos com comorbidades crônicas possuem maior risco de doença grave e consequente morte.
No entanto, o papel das diferenças étnicas e raciais no contexto da pandemia pelo SARS-CoV-2 ainda necessita de maior elucidação. Abordaremos portanto estudo importante da New England Journal of Medicine, que teve por objetivo analisar justamente esta relação.
Metologia do estudo
A pesquisa Hospitalization and Mortality among Black Patients and White Patients with Covid-19 consistiu numa coorte retrospectiva, onde os dados analisados foram retirados do sistema eletrônico da Ochsner Health. Esta é considerada a maior instituição acadêmica de saúde sem fins lucrativos do estado de Louisiana, EUA.
A população dessa Instituição é composta por 31% de indivíduos negros não-hispânicos, e 65% de brancos não-hispânicos.
Os pacientes incluídos no estudo foram admitidos no hospital no período de 11 de Abril à 1 de Março, e testaram positivo no RT-PCR para o vírus SARS-CoV-2.
Os desfechos primários analisados foram hospitalização e mortalidade intra-hospitalar.
Resultados do estudo
Um total de 3481 pacientes foram incluídos no estudo. Dentre estes pacientes positivos para SARS-CoV-2, 70,4% eram negros e 29,6% eram brancos.
A análise multivariada mostrou chance aumentada de hospitalização para indivíduos da raça negra. Essa relação também se deu em indivíduos mais idosos, obesos, com maior escore de gravidade de doença, que possuíam seguro médico público e moravam em área mais pobre.
Quando o desfecho de morte intra-hospitalar foi analisado, dentre os 326 indivíduos que morreram, 70,6% eram negros. Todavia, a raça negra não esteve isoladamente associada à maior mortalidade (HR de morte vs. raça branca: 0,89; IC95%, 0,68 a 1,17).
As variáveis associadas com maior mortalidade intra-hospitalar foram:
- Idade aumentada;
- Taquipneia à apresentação;
- Lactato, creatinina ou procalcitonina venosos elevados;
- Baixa contagem de plaquetas ou linfócitos.
Conclusão sobre as diferenças raciais na covid-19
É digno de nota que, apesar da população negra do Ochsner Health ser de apenas 31%, neste estudo 76,9% dos indivíduos hospitalizados e 70,6% dos que morreram eram negros.
Todavia, a raça negra não esteve associada a maior mortalidade quando as diferenças sociodemográficas, bem como as características clínicas na admissão, foram ajustadas.
As diferenças raciais portanto podem ter relação com diferenças nas prevalências de condições crônicas que predispõem à doença mais grave. De fato, os negros tiveram maior prevalência de obesidade, diabetes, hipertensão e doença crônica, quando comparados aos brancos.
As diferenças encontradas na frequência da doença (ou seja, negros testaram positivo para SARS-CoV-2 mais do que brancos) não possuem uma única explicação, sendo multifatoriais.
Porém, podem refletir diferenças ocupacionais. Serviços que ofereçam risco aumentado de exposição podem ser executados majoritariamente por indivíduos negros.
Em 2015, estudo feito neste mesmo estado de Louisiana mostrou que a maioria dos serviços braçais de New Orleans e proximidades eram ocupados por indivíduos pertencentes aos grupos de minorias. Além disso, 40% desses serviços eram relacionados à preparação e serviço de comida.