O coronavírus (COVID-19) é uma doença infecciosa causada pelo vírus SARS-CoV-2.
A maioria das pessoas que adoecem em decorrência da COVID-19 apresenta sintomas leves a moderados e se recupera sem tratamento especial. No entanto, algumas desenvolvem um quadro grave e precisam de atendimento médico.
Os déficits cognitivos pós-Covid-19, especialmente nas funções executivas, foram confirmados por testes neuropsicológicos em uma coorte de sobreviventes relativamente jovens da infecção por Covid-19, segundo pesquisa publicada online no JAMA Open Network.
Névoa mental e sequelas no cérebro
Segundo os autores da pesquisa do InCor, as pessoas que tiveram a covid-19 “frequentemente apresentam sintomas neurológicos persistentes, incluindo comprometimento da atenção, concentração, velocidade de processamento de informações e memória”. Em outras palavras, trata-se da névoa mental.
Outro dado alarmante mostra ainda que essas sequelas não acontecem somente em pessoas que sofreram a doença no estágio mais grave. Pacientes que tiveram coriza ou outros sintomas mais leves e até mesmo os assintomáticos também foram diagnosticados com disfunção cognitiva em algum grau.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) aguarda os resultados finais do estudo para adotar a metodologia desenvolvida na pesquisa do InCor como padrão-ouro em âmbito mundial no diagnóstico e na reabilitação da disfunção cognitiva pós-covid-19.
O que apontam os estudos
No estudo publicado pela “Bioxirv”, a equipe usou um modelo animal, mais especificamente, roedores. A partir do experimento em que as cobaias foram infectadas pelo vírus, foi possível observar a “diminuição acentuada” de novos neurônios sendo gerados na região do hipocampo apenas uma semana após a infecção.
Segundo os pesquisadores, a condição persiste por pelo menos sete semanas no cérebro dos animais. Vale explicar que a geração de neurônios, nesse local, está relacionada à memória.
Além disso, os cientistas examinaram o tecido cerebral de nove pessoas com covid-19 que morreram no início de 2020. Nas amostras do tecido, marcadores de inflamação estavam “robustamente elevados”.
Por fim, o grupo estudou 46 voluntários com quadros da covid longa, sendo que a maioria do grupo não foi hospitalizada. Os participantes foram divididos em dois grupos: aqueles com alterações cognitivas e sem nenhuma alteração. Os indivíduos com alteração apresentavam níveis elevados de uma proteína associada à inflamação no sangue, o que confirma o risco potencial de sequelas da covid-19, independente do quadro apresentado.
Fonte: https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2021/08/como-a-covid-19-afeta-o-cerebro-evidencias-preocupantes-vem-a-tona.
Jogo digital da FMUSP que avalia as funções cognitivas
A pesquisadora Lívia Stocco Sanches Valentin usou o jogo digital MentalPlus®, criado por ela em 2010, para avaliar pessoas que tiveram covid-19 em vários estágios, idades e classes econômicas. “Este jogo nasceu para detectar possíveis disfunções neurológicas em pacientes que eram prejudicados após o uso de anestesia geral profunda. Esse mecanismo não só avalia como ajuda na reabilitação. Então decidi usar o MentalPlus® na pesquisa com pessoas que tiveram sintomas ou que testaram positivo para a covid-19. O resultado foi impactante: independentemente do grau da doença, da faixa etária ou do nível de escolaridade, os pacientes que tiveram sintomas podem sofrer de disfunção cognitiva”.
A médica do InCor detalha que as sequelas cognitivas acontecem porque o vírus entra pelas vias aéreas, compromete o pulmão e, com isso, baixa o nível de oxigênio. “A dessaturação de oxigênio vai para o cérebro, acomete o sistema nervoso central e afeta as funções cognitivas”.
Segundo o estudo, a memória de curto prazo de 62,7% dos participantes foi afetada. Já a de longo prazo, teve alterações em 26,8% dos voluntários. Em relação à percepção visual, o impacto foi notado em 92,4%.
Conclusão
Segundo a neuropsicóloga, o quadro é passível de reversão, por meio de exercícios cognitivos específicos como os do aplicativo MentalPlus® utilizado no estudo. Essa atividade funciona como uma “musculação mental”, explica a pesquisadora.
Ao forçar a atividade do cérebro, o órgão é estimulado a um maior consumo de oxigênio, melhorando paulatinamente seu desempenho. “Quanto mais cedo tiver início a terapia cognitiva, mais rápida será a recuperação e, consequentemente, menores os prejuízos mental, emocional, físico e social para essas pessoas”.
Autor: Ruth Filgueira Gomes.
Instagram: @ruthfilgueira
Referências:
Covid-19 deixa disfunções cognitivas em 80% dos pacientes, diz estudo – https://www.incor.usp.br/sites/incor2013/
Infecção respiratória leve por SARS-CoV-2 pode causar desregulação celular multilinhagem e perda de mielina no cérebro – https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2022.01.07.475453v1
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